O de verdade

Voz abafada no banheiro. De novo eu tendo que prender o travesseiro contra o ouvido pra não ouvir a gritaria dele com o namorado pelo telefone. Péssimo jeito de acordar. Pior que nem dá pra me espreguiçar na banheira de hidromassagem maravilhosa do motel porque ele tem que sair às pressas pra provar pro tal namorado que ele realmente dormiu em casa. O carinha deve estar me xingando todo. Paciência. Nunca fui amigo do garoto e nem vou com a cara dele desde a faculdade de jornalismo. Se quiser xingar alguém, bebê, que xingue o peso morto que roncava ao meu lado depois de muito uísque, cigarro e sexo. Esse, sim, tinha aprontado. Eu não. Eu só estava pedindo informação sobre uma rua na Pituba a um conhecido sem intimidade. Que virou um olhar com segundas intenções. Que virou um “posso te dar uma carona”. Que deu numa esticadinha em uma cama redonda na Orlando Gomes. Que deu naquilo. O peso morto que roncou, ao meu lado, no que sobrou da madrugada. Deu naquilo. E no pobre namorado, inseguro, que não aguenta mais tanta traição do homem que ele ama e esbraveja ao telefone.

Imagino a voz do pobre rapaz no outro lado da linha. Deve ser uma coisa entre o choro e a raiva. Mas o que eu tinha a ver com isso? Nós, homens, só queremos saber de sexo. Logo, homens traem, meu amor. Você não quis ter um namorado? Não quis acreditar que finalmente um cara iria mudar sua vida no meio de tantos relacionamentos fracassados? Não quis insistir nessa coisa monogâmica ultrapassada? Azar o seu. Eu pensei. Há seis meses. Época em que eu fugia dos caras que queriam namorar comigo. Preferia essa vida mesmo. De ser agora. De dar risada alta e fumar à beira da piscina de motel com taça de champanhe. De ter um peso morto dormindo ao meu lado. E os namorados deles, os histéricos, querendo morrer roendo unhas enquanto investigam em redes sociais. Ser o outro. Eu sempre fui o outro. Com a sensação incrível de passar o mundo pra trás. De ser esperto. De rir dos inseguros. Eu tinha escolhido não ser o chato. Nós, homens, odiamos homens chatos. Eu era o lanchinho da redação do jornal. Por isso os repórteres e editores casados adoravam me levar pros bares da vida. Pra morrer de rir entre um absurdo e outro. Pra ouvir safadezas até então omissas e achar a coisa mais normal do mundo. Pra transar no banco de trás do carro com vidro fumê depois do expediente.  

Nenhum homem me largou ou me trocou por outro. Nenhum homem me viu fazer ceninha de ciúme, muito menos reclamar de falta de atenção. Quem larga um cara como eu? Quem enjoa de um cara assim como eu? Quem não fica louco por um cara safado como eu e que entende os desejos deles sem nenhum julgamento? A parte chata eu deixava pros namorados. Essa coisa de pensar numa casa mais perto do trabalho. Essa coisa de pensar no desgaste da relação. Essa coisa de mudar um pouquinho pro namoro não cair na mesmice. Essa coisa de ter medo de não agradar. Eu deixava tudo pra eles. O meu papel era ser somente engraçado, carinhoso e não ter nenhum pudor. Pedir carona depois de beber umas cervejas, dividir horas agradáveis falando de histórias engraçadas durante as viagens. De vez em quando mostrar que sei fazer uma massagem deliciosa. Quem esquece um homem assim?

Alô, peso morto. Sai do banheiro. Seu dono já sabe que você dormiu com outro. Vai lá resolver seu problemão enquanto eu tomo um banho completamente nu na banheira de hidromassagem. Com aqueles sais de calêndula e castanha. Vai. E o cara ia. Sempre com aquela carinha de cachorro abandonado em caixa de papelão, querendo ficar mais um pouco ao lado de alguém tão calmo, de boa e feliz. De quem tira do tédio. O outro. Os outros são sempre calmos, de boas e felizes. A paz de espírito que não cobra, não dói, não deve.  

Sempre me diverti em bares, restaurantes, pré-estreia em cinema. O bar da San, por exemplo, com aqueles caras que entram cheios de si com seus namorados mais cheios de si ainda. E eles todos olhando pros outros homens sem disfarçar. Inclusive pra mim. E eu provocava. E eu encarava. E ficava excitado só de saber que morava desse lado da moeda. Do lado do imoral. Do lado do podre. Na parte que todo mundo teme. No cargo que ninguém aceita ocupar. Do mundo que ninguém prefere comentar. Mas desconfia. Do segredo guardado a sete chaves. Da coisa que é melhor não dizer. Do deixa pra lá. Do muda de assunto que isso é desagradável. Do depois a gente fala. Eu adorava estar do lado que todos morreriam pra saber. A curiosidade gritando em olhares pelo canto. Dos braços cutucando. O segundo que os namorados deles acham que viu, mas não procuram confusão porque pode ser neura. Eu pertencia a esse universo secreto da verdade absoluta e sem photoshop. Que poder eu sentia. Que sensação maravilhosa ver todos eles indo embora da minha casa sem eu ter que aturar por mais uma hora, quanto mais pra vida inteira.

Pobres coitados, todos os oficiais, se eu pedir com carinho, se eu tirar a cueca deles de novo, amanhã mesmo eles conseguem um nutricionista pras quatro da tarde. Ou me colocam em alguma academia badalada em que eu não precise pagar absolutamente nada. E você. Seus planos de passar as férias em Holanda com ele. Sua técnica de fazer um jantar entre amigos. Seu sexo de revista. Seu curso de massagem tântrica de 7x de 495 reais. Vão tudo pro caralho. Porque o que eles querem, caros homens comprometidos, é tudo menos vocês. Assim eu pensava. Há seis meses. Época em que nenhum homem do mundo me achava chato, louco, absurdo, neurótico, mala e enjoativo. E eu ria dos namorados oficiais, de todos eles. Burros. Iludidos. Enganados. Eu encontrava eles no Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Goethe, na Tropos, com seus anos de relacionamento vitorioso, com seus pesos e poses. E ria. Seu namorado aí, bonitinho, sabe ontem? Fim da tarde? Horário de almoço do escritório? Noite de sexta? Pois é. E você acreditou mesmo que era crossfit, reunião de última hora com o chefe, confraternização de trabalho, dentista, massagem de Camila Albuquerque ou jantar na casa da avó de mil anos que ele não via? Eu ria. Eu só fazia rir.
 
Era maravilhoso. Eu me sentia leve. O outro. Que saudade dele. Foi embora. Não existe mais. Não sobrou nenhum resquício. Nada. Morreu sufocado por uma vontade absurda que surgiu em mim. A vontade de ser o de verdade. A vontade de parar com toda essa brincadeira e viver uma história inteira, sem generalizar que todos os relacionamentos estão envoltos de traição. Chega de gozar em motel com homem cafajeste. Chega de aturar esses caras tensos com telefonemas, descobertas e flagras. De rir em horários encaixados. De servir pra quando der. Eu quero correr o risco de sentir um beijo de verdade. Correr o risco de cair de um lugar muito alto. A expectativa tem andares cruéis, mas eu topo. Eu quero sentir de verdade ao invés de brincar com isso. Conseguir amar, ainda que eu tenha sensações bipolares. Conseguir sorrir mesmo com ciúme ou raiva. Olha só que desgraça. Sou eu agora que ocupo o posto do de verdade. Que saudade de ser sempre o divertido. Agora, sou eu, o assustado, o chato, o neurótico, o mala, o que paga um curso de massagem tântrica em 7x de 495 reais, o que telefona de meia em meia hora, o que tem medo de dar errado, o que entra nos bares e restaurantes cheio de mim e morro de medo dele olhar pra algum filho da puta. Agora sou eu desconfiando do crossfit, da reunião de última hora com o chefe, da confraternização de trabalho, do dentista, da massagem de Camila Albuquerque ou jantar na casa da avó que ele não vê há mil anos. Roendo unhas enquanto investigo tudo nas redes sociais. Enlouquecendo.

Agora sou eu no Panorama Internacional Coisa de Cinema, no Goethe, na Tropos, comemorando um relacionamento sólido. E com pena desses rapazes, os outros, com a falsa sensação de liberdade e leveza, que quase sempre, usados, continuam solitários enquanto nossos namorados voltam para o que realmente importa. Seus namorados de verdade. Aqueles que eles têm coragem de assumir.

Desculpa, moço do telefone. Desculpa. De verdade. Eu mereci que você me xingasse inteiro. Aliás, eu mereci morrer afogado naquela banheira de hidromassagem do motel. Mas, vamos nos unir, sou tão apaixonado pelo meu namorado quanto você é pelo seu. Quem disse que eu não gostaria de continuar fugindo do amor? De cair fora dessa coisa de dar a cara a tapa. Mas isso vem, isso chega, isso invade. É a melhor coisa do mundo. É fácil não ter medo de altura quando se abriga no subsolo. Agora sou eu que não tenho medo de cair. E por isso me jogo sem puxar a cordinha do paraquedas. Com o vento na cara. Mesmo sentindo vertigem, enjoo, desespero. Dá medo de morrer, mas é assim que, acredito, se vive com coragem.

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