Se der tempo

Lâmpadas coloridas enfileiradas na parede branca da minha sala. Meus amigos fizeram bem em escrever “Feliz Aniversário” em um cartaz discreto, praticamente apagado, menos infantil. Bom pra meu humor que oscila entre a vontade de comemorar tudo isso e ao mesmo tempo ficar de pijama no sofá de casa. Aos poucos, recebo ligações e mensagens de pessoas que afirmam me amar um pouquinho. “O trânsito do Iguatemi até o seu apartamento é complicado”, alguns avisam. “Antes das sete e meia é mais difícil”, outros explicam. “No meio da semana é quase impossível”, você enfatiza com a voz em tom preocupado e a testa franzida em sintonia com os lábios unidos e tortos. Lambo mais uma colher de brigadeiro e sinto uma espinha de peixe na garganta que nem água é capaz de empurrar. Me pergunto se faz sentido encher balões e acender velas. Se vale a pena decorar mesas com cupcake e torta com chantili. O que é que eu quero festejar?

Não muito distante dali, você deposita litros de xixi amarelado na privada da agência. Coisa de homem ocupado. Coisa de quem não bebe muita água e prende a bexiga durante três horas em mais uma reunião sem problemas resolvidos. Você se ajeita de dez em dez minutos na cadeira. E confere as axilas com um suspiro profundo pra ver se a coisa tá muito feia. E tenta terminar o relatório na ânsia de não errar e ao mesmo tempo se livrar disso. E tenta avisar ao diretor de arte que é melhor avisar ao redator sobre as mudanças do projeto ao mesmo tempo que tenta avisar pra gordinha do atendimento que é melhor avisar ao chefe sobre a mudança de data do lançamento da campanha. Você bebe mais um café. Telefones tocam. E-mails precisam ser respondidos. Cinco e meia. Você prende a testa empurrando o cabelo. Mas o que você pode fazer? Dia de semana é complicado, você repete enquanto folga o nó da gravata e arregaça as mangas da camisa. Pelas frestas da persiana marrom, você vê o sol indo embora entre os imensos prédios, dando lugar aos imensos congestionamentos e buzinas que presenteiam com dor de cabeça. Cair em cima do computador e dos milhares de papéis ao redor da mesa, num misto de cansaço e impotência, não resolve nada. E é aí que mora o seu desespero.

“Coloca os balões amarelos perto da janela”, alguém avisa. Sujo um dos dentes incisivos centrais com brigadeiro pra fazer a piada “tô banguelo” e até consigo animar alguns amigos. Mas a verdade é que, por dentro, eu sou o único a não sorrir. Minha extrema ânsia por açúcar revela que tem alguma coisa muito errada acontecendo comigo. Minhas “corridas” até o interfone revelam que eu espero impacientemente e exaustivamente por uma chegada. A única. A que importa. A que faria a palavra “festejar” ter algum sentido. Se der tempo, eles trocam a vela branca por “uma coisa mais gay pro aniversário não miar”. Se der tempo, um deles chega com barquetes e coxinhas de uma padaria “muito boa que tem na rua São Paulo”. Se der tempo, cervejas gelam, a playlist com as músicas fica completa e a gente consegue promoção de pizza com o Zuca. Se der tempo, você aparece.

Não muito distante dali, você desce as escadas do prédio correndo porque “é perda de tempo esperar o elevador”. Você não quer aparecer na minha casa com desodorante vencido e a testa brilhando de tudo que foi o dia. Você quer mesmo é usar aquela jaqueta preta que te deixa com mais cara de homem. Lindo. Mas será que dá tempo de passar em casa e tomar um banho? No banco de trás do carro, um presente embrulhado num papel bonito. O que será que tem ali dentro? Você sabe. E sorri enquanto olha a caixa pelo retrovisor. “Tem que dar tempo”, você diz, meio nervoso, enquanto olha um daqueles relógios imensos da avenida. E enfrenta sinal fechado, engarrafamentos, ruas interditadas. O segundo em que você muda a faixa do álbum do Radiohead é o mesmo segundo em que você vira a esquina e se depara com chuva e alagamentos. Seu carro anda numa velocidade quase zero e o barulho do parabrisa parece trilha sonora de filme francês. Sua vontade é abandonar o carro no meio de toda aquela lama e correr no meio de toda aquela chuva. Mas por medo de multa e remoção, você espera o caos com o corpo morto em cima do volante.                                              

“Pega a taça de vinho, Murilo”, alguém ordena. A pizza chegou? E ligam o som. E cantam. E colocam um chapeuzinho de poá na minha cabeça. E dão risada. E me abraçam. E tiram fotos. E desejam um ano incrível pra mim. Saúde, sucesso, dinheiro, aquela coisa toda entediante e obrigatória. O elástico do chapeuzinho dói o meu queixo, mas não é exatamente isso que me incomoda. “É só um aniversário”, eu me digo. Tenho vontade de ser sincero pra um dos meus amigos, mas soaria egoísta. Então volto a sorrir com toda a minha teatralização, é mais fácil e eu não reforço a minha fama de antipático. As luzes se apagam e me chamam pra cantar parabéns. Sinto uma pontada no peito agora. É mais do que sentir angústia por uma nova idade. É mais do que querer saber se todo mundo ali está confortável e feliz. É  ansiedade pelo único abraço que não foi dado. Palmas começam a ser disparadas. Eu no centro da sala. Foco meus olhos na porta, esperando a campainha que nunca toca. Como é que se faz uma festa sem você? E se eu descer e esperar você na porta do prédio? E se eu resolver que só vou começar essa festa duas da manhã, será que você chega? As faíscas da vela iluminam o breu. Uma lágrima cai dos meus olhos e as pessoas confundem com felicidade. Se você aparecer, as luzes, os cartazes sem graça, as cervejas, o brigadeiro, a playlist, as pizzas, o chapeuzinho de poá, as taças de vinho e a vela finalmente vão fazer sentido. Amar você é viver eternamente no subsolo de um limbo com a esperança de um dia ser salvo.

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