Categoria: Colunistas

Como é difícil namorar um homem elitista de esquerda

E lá estava ele, dividindo um daqueles hambúrgueres gordurosos com amigos barbudos e tatuados na fila de uma daquelas festinhas alternativas da Commons. A mesma camisa da Los Hermanos que usou quando saímos pela primeira vez, faz aí uns cinco anos. O mesmo tênis da Oakley que ele comprou uma semana antes de terminarmos, faz aí uns três anos. Mais uma vez discutindo política, fazendo piada com político, indignado com a corrupção no país. Mais uma vez sendo o centro das atenções com aqueles velhos discursos imutáveis.

Mesmo ele estando acompanhado com o namorado, um desses tipos que faz stories de tudo no Instagram e tem a voz nasalada que dá ânsia de vômito, achei educado dar um abraço. Fui chegando perto, analisando, tentando entender do que ele ria agora, antes do meu oi. Um oi de quem já foi, um oi de quem não importa. Fui chegando mais perto e ele fez aquela cara de quem não acredita. Um mix de comida entalada na garganta e falta de ar, quase um infarto. Cheguei a pensar em parar ali mesmo. Dar um tchauzinho de longe e nem chegar mais perto. “Será que o bonitinho dos stories é ciumento?”, “Será que o bonitinho dos stories vai passar a noite inteira de cara fechada querendo saber quem eu sou?”. Mas antes que eu pudesse desistir, ele foi saindo da roda de amigos e gritando: “que porra de roupa é esta?”.

Quando namoramos, eu usava umas camisas com estampas bonitinhas, golas e mangas com a costura cortada, rasgada, um estilo mais solto, mais alternativo, como se eu quisesse gritar que eu não estava nem aí pro mundo sério que existia lá fora. Ele gostava, achava que assim eu tinha identidade, achava que assim eu contrariava a vida e seus escritórios e lojas de grifes, achava que assim eu combatia o capitalismo, achava um desrespeito eu me vestir como toda essa gente de classe média que no fundo se veste tudo igual. Mas depois que terminamos, que deixei de ser um daqueles jovens que tenta a todo custo ser descoladinho ou militante, que me tornei jornalista e arranjei um emprego que exigia um pouco de seriedade, eu precisava me posicionar. Cardigã, calça chino e camisa de botão.

Eu não entendia por que ele odiava a vida classe média se ele não saía da vida classe média. Por que falava tanto em pobre, mas nunca havia pisado numa favela. Por que odiava tanto os moradores do Corredor da Vitória e morava num apartamento de duzentos metros quadrados no Corredor da Vitória, com um deck cheio de gente rica e amigos cariocas de artistas baianos que só falavam em Leblon, Ipanema e Copacabana, e davam um foda-se pra todo o resto. Por que odiava esses bares com meninas burras e maquiadas, com marca brega de biquíni, e caras burros e bombados com camisa Polo, mas não deixava de beber neles toda semana. Mas, como eu estava apaixonado, passei anos me vestindo com camisas com estampas bonitinhas, golas e mangas com a costura cortada.

Lembro quando ele me pediu, baixinho, pra em hipótese alguma falar, na presença dos amigos das ciências sociais, filosofia e história, que eu era jornalista: “Fala que você escreve livros. A gente não gosta de jornalista. Jornalista é comprado pela mídia golpista”. E eu, autotélico, deixei pra lá. Os amigos dele tinham curiosidade com esse negócio de ser escritor e eu, porque estava apaixonado, enterrei meus quatro anos de faculdade numa omissão que deixava ele confortável. Lembro quando ele, no aniversário de um ano de namoro, disse que eu precisava ser mais politizado e parar de escrever sobre relacionamentos: “Porque isso não vai te dar nada a não ser meia dúzia de leitores doentes que precisam de psiquiatra. Vai escrever sobre a seca, sobre os índios, sobre os cortes nas universidades”. Quando a coisa começou a ir em direção da maconha, barraca de camping e trilha vida louca no Capão, resolvi colocar limites. “Eu quero ser repórter da Abril, da Folha de S.Paulo, de O Globo, ser correspondente internacional, juntar uma grana, rodar o mundo, comprar tudo o que eu quiser sem pena de gastar dinheiro”, falei, um dia, meio louco de vinho, num intervalo da preliminar. “Cê tá louco?”. Ele parou de beijar meu pescoço, tirou as pernas de cima da minha coxa, largou minha cintura e virou de lado – e eu senti, pela primeira vez, pela maneira como se enrolou no edredom, que nunca mais na vida ele se desenrolaria pra mim.

Lembro quando, numa discussão, ele resolveu ir embora de casa porque achava um desrespeito pra nacionalidade a família querer abandonar o Brasil, e foi morar com outros quatro estudantes em uma república, com um quarto e poucos móveis, perto do Garcia (lugar que não se batia panelas na época em que se batia panelas). Eu achava imaturo, ele, aos 28 anos, sem trabalho, almoçar macarrão instantâneo e dormir em colchonete fino. Até quando os mestrados e grupos de pesquisas e artigos e teses e projetos de doutorados na Federal serviriam de desculpa pra não procurar um emprego?

Ele e os amigos, todos de classe média alta, repetiam o discurso numa roda de cerveja: “estudo por amor, pra saber a história deste país, não por dinheiro”. E riam de mim, jornalista, acordando e dormindo num jornal, dependendo daquela grana pra me vestir, pra comer, pra sair. Eu saía de casa cedo pra pegar um ônibus, atravessar ruas e passarelas da Avenida Tancredo Neves e chegar ao trabalho, contando cada centavinho pra pagar plano médico e odontológico. Eles, sempre acordando onze da manhã, reclamando na internet de como o mundo anda uma merda. Eles, com discursos prontos e ideológicos, proclamando preconceitos e ironias antitudo em festinhas à beira da piscina com muita fumaça e música hipster. Eu tinha vontade de pichar no muro dos condomínios deles com letras garrafais: quem lava a cueca é a empregada. Quem paga a empregada é o papai. Perdi as contas de quantas vezs quis dizer para ele: “eu só acredito em militante que trabalha. Me empresta aí esse avô milionário e eu levanto bandeira no Largo da Dinha”.

Eu sempre me apaixonei por homens de esquerda. Eu sempre quis me casar com homens de esquerda. Talvez porque toda a libertação, desconstrução e quebras de paradigmas venham deles. Talvez porque eu também seja de esquerda. Acho que a elite esquerdista precisa existir, mas minha profissão, meu jeito de vestir e minha vontade de trabalhar onde quiser e ser quem eu sou também. “Que porra de roupa é esta?”, ele falou, como se quisesse dizer que fez bem em não continuar comigo. E eu, por tanto tempo, apaixonado por um homem perdido e com vergonha de amar um rapaz jornalista de bom coração, numa relação tóxica. Não dá para ter um relacionamento com alguém que quer se apropriar de você e deixá-lo trancado para o mundo.

Eu quis perguntar, antes de ir embora daquele abraço que nunca deveria ter existido, se ele ainda não tinha televisão, iPhone, redes sociais, aplicativos capitalistas e Coca-Cola na geladeira. Mas isso não me interessa mais. O que ele nunca teve na vida de burguês revoltado foi respeito.

Mataram o amor no Grindr

Meu amigo é branquelo e vive com a conta no vermelho. Mas no Grindr escreveu “publicitário versátil” e colocou uma foto sem camisa, marcando tudo na sunga, bronzeadão, no Porto da Barra. Os óculos, um daqueles espelhados, escondem 70% do rosto, dando aquele efeito, propositalmente, de “puta-que-pariu-que-cara-gostoso” e deixando um ar de mistério de “queira me conhecer e mostro quem eu sou” para os seus pretendentes que têm prazo de validade. “Esse clima praia, sol, mar, bronze e corpo, inconscientemente, leva a pensar em sexo e esse tipo de homem adora isso”, ele diz. Pergunto que tipo de homem é esse e ele explica “qualquer um que tá a fim da coisa”.

Esta semana ele já transou com três. Esses três foram escolhidos depois de muita troca de nudes, chamadas de vídeo no WhatsApp e teste “ao vivo” com oito rapazes (sendo cinco na nova San Sebastian “porque ganhou vip, então ele não gasta dinheiro à toa” e três numa cerveja na Vila Caramuru “porque pareciam merecer que ele gastasse dinheiro”. Esses oito, por sua vez, foram os que sobraram de um papo “superficial, porém mais profundo do que os outros” e avaliados pelos critérios “beleza, nível de safadeza e profissão”. Se demorou de responder, ele não quer. Se morar três bairros depois, ele não quer. Se for afeminado, ouvir diva pop e não praticar algum esporte, nem pensar.

Seu polegar direito escolhe machos afoitos por sexo e ele é incisivo: “tá sem foto, eu já ignoro porque é fake; tá com close só na barba, certeza que é galã feio; só tem foto do pescoço pra cima, é gordo”. Eu vou ficando triste, muito triste, ao ver meu amigo chamando amor de “cardápio de boteco vagabundo” e ele, ao perceber minha cara de “você tá sendo escroto”, coça o redemoinho da cabeça e tenta se explicar: “Eu ainda amo o meu ex-namorado, mas, sei lá, ele é chato pra caralho e ultimamente não quero ninguém enchendo meu saco. Esses caras do Grindr, não. Esses caras chegam aqui, tiram a roupa, transam e depois não me dão nem um ‘oi'”.

Dos três que renderam um sexo pós-cerveja (um no domingo, um na segunda e outro ontem), ele gostou “um pouquinho” de um, mas não o suficiente pra transar de novo. Então, depois de uma semana recrutando rapazes e sair com alguns e transar com outros, ele atirou todos os pretendentes numa enorme fogueira e ficou sem companhia pra almoçar hoje. Por isso ele está aqui em casa comendo batata frita comigo. Me deixando mais triste e escolhendo a dedo “quem do Grindr que mora perto da minha casa vale a pena”.

Qual o problema deste último que você não quer responder? Ele não sabe me explicar. E os outros que você começou o papo e parou minutos depois, o que eles tinham de errado? Ele não sabe dizer. Alguns minutos digitando sem parar, rolando a barrinha do aplicativo, ele me avisa que vai embora. Mas antes de se despedir me diz que cansou dessa coisa digital onde as conversas beiram a pau e bunda. “Sinto falta de ir lá fora e paquerar num bar, vou sair dessa bosta”.

Ele vai embora da minha casa e fico me perguntando se “bosta” é o aplicativo ou o uso que as pessoas, inclusive ele, fazem do app. Se “sair dessa bosta” significa desinstalar o Grindr ou desbloquear o medo que ele tem de uma relação e voltar logo com esse ex-namorado que ele tanto ama (e aceitar de uma vez que todo relacionamento com o tempo fica chato mesmo).

Apesar de eu não pensar fazer parte do Grindr, preciso ser honesto e confessar que já estive, nos últimos dez anos, numa espécie de cardápio pro mundo. Ser o último a sair da festa na esperança humilde e triste e cruel de que aconteça alguma coisa interessante. Esperando, algumas vezes numa social ruim, outras na casa de duzentos amigos que querem pedir um delivery de pizza e convidou outros duzentos amigos legais, conhecer um cara bacana pra conversar, beijar na boca ou dormir de conchinha. Esperando, algumas vezes misterioso numa foto em preto e branco no Sul e outras mais desesperada, numa foto sem camisa mordendo o travesseiro, alguém que vale a pena para me apaixonar ou apenas transar. Usando óculos que cobrem 70% do rosto, fotos do pescoço pra cima e com close só na barba, porque todo mundo tem medo de não ser gostado, de não fazer um tipo, de não ser aceito como é.

Mas nem por isso eu fazia entrevista com meus pretendentes ou deixava eles em vácuo eterno porque eram gordos, feios ou moravam longe. Estar esperando alguém nunca me fez ser uma picanha no açougue. Nunca fui uma coisa no cardápio vagabundo do boteco que serve pra “se tiver com fome mais tarde eu pego”. Vários caras podem até ter me visto dessa forma, mas, assim como o Grindr, era o mau uso da ferramenta.

Julguei tanto o meu amigo por estar num aplicativo como esse: “Porra, você tão apaixonado, ia casar e tudo, agora enterrou seu amor no Grindr?”, mas acabei julgando o que meu amigo estava fazendo com o Grindr e falando mal dele pra todos os caras e, principalmente, pro ex-namorado dele que com certeza vai ler este texto.

O homem honesto

Outro sábado saio com este homem. No mesmo horário, no mesmo restaurante, com a mesma roupinha elegante e bem passada. Nem eu sei o que me faz ficar duas ou três horas com ele, com garçons que desfilam por salão, casais que tiram selfie compulsivamente (com flash, o que piora tudo), mulheres com tubinho preto, homens tirados a executivos que surfam, conversas sobre o cotidiano, traumas de infância, cansaços e manias bobas. Outra vontade de bocejar sem saber como. Outra ida ao banheiro sem ter motivo. Outra olhada rápida no cardápio sem saber o que procuro.

Começamos a falar sobre o amor que se dá e se recebe depois dos 25 anos. “Acho que as pessoas acabam focando muito mais em si e esquecem do outro”, eu disse mais baixo do que de costume, tentando equilibrar minha sinceridade alta com um sorriso. E ele disse: “Não precisa me prometer nada. Apenas fique. Isso basta”.

Ele sujou as pontas dos dedos depois de comer a lagosta, aproximou a cadeira da minha tentando limpá-los com o guardanapo de pano com o objetivo cínico de ficar perto de mim. Até que o joelho dele, equilibrado nas pernas imensas, estalou exaurido por causa da posição da mesa e ele se afastou pra bem longe. Ele queria mexer nos meus cabelos, mas achou mais divertido brincar com as pontas duplas da minha franjinha com o objetivo cínico de alisar minha testa. Eu ia encostar minha cabeça nos ombros dele e fechar os olhos, mas algo enrijeceu meu pescoço e me fez recuar. Foi quando ele voltou a falar sobre a obviedade da existência escassa de sentimentos verdadeiros e espontâneos para os adultos: “As pessoas acham bonito mostrar que não estão interessadas”. E completou, totalmente pendente pra frente, olhando nos meus olhos sem desviar, com a mesma certeza que um publicitário tem de sucesso ao colocar um outdoor neon na rua: “Cuidado, boca parada como a sua ganha beijo roubado e não tem como reclamar no Procon”.

No carro, ele chamou nosso beijo de “teste pra ver se dá pra continuar” e deu nota nove e setenta e cinco. Eu perdoei a chatice dele de professor de química corrigindo uma prova de cálculos estequiométricos como um aluno que confia. Ele me abraçou forte logo após eu tirar o cinto de segurança e me disse: “Não sou esse tipo de cara que abraça forte”. E o humor genial dele me fez rir por meia hora. Será que é só por isso que eu continuo saindo com esse cara? Será que é por que ele me lembra o começo? A esperança de uma criança que se deslumbra com o algodão doce e depena até não sobrar nada?

Ele quer me conhecer profundamente a cada segundo. Descobrir mais e descobrir mais. E me levar ao cinema. Pra um café. Pra um jantar. Pra ver as luzes da cidade em um daqueles terraços do Centro. E falar comigo todos os dias. Ele quer que eu seja aquele Murilo bobinho de quando tinha vinte anos. Quando eu comprava roupas e cuecas novas pro primeiro encontro. E tremia voz e pernas com medo de ser burro e desinteressante nos primeiros quinze minutos de conversa. Ele quer que eu volte a ser aquele inseguro que espera demais num nível extremo, o que sofre com despedidas na porta de prédio, o que se tranca no banheiro do bar e escreve escondido frases bonitas que ele falou durante a noite pra no dia seguinte publicar um texto. Ele quer ter a chance de namorar aquele que eu já fui um dia, com planos de casamento no primeiro mês, com discussões sobre nomes de filhos e escolhas definitivas, jogando tudo pra cima por causa de um encontro qualquer. Ele quer me salvar. Ele quer conhecer a minha mãe. Ele quer ser um algodão doce gigantesco. Ele quer que eu recupere a minha intensidade, que eu goste tanto, tanto, tanto dele a ponto que eu esqueça de Deus. A ponto que eu sinta no abraço dele o mesmo conforto do útero materno. Ele quer que eu volte a ser louco.

Vai, Murilo, goste de mim a ponto de você me nomear como o seu favorito logo na primeira semana. Por favor, Murilo, goste de mim a ponto de você planejar sair de casa e se casar e aquela coisa toda.

Tadinho, o homem honesto, bonito, sarcástico, bem-humorado e certo pra ser o pai dos meus filhos chegou atrasado. Se fosse há uns seis, sete anos, eu iria dormir beijando a foto dele no wallpaper do meu celular. Se fosse há uns seis, sete anos, eu iria transformá-lo em assunto monotemático na terapia e na mesa do bar com meus amigos. Mas agora tudo o que quero com ele é sair aos sábados, com roupinhas elegantes e bem passadas, e transar no fim da noite. De preferência na casa dele porque visto logo minha roupa e vou embora, não fico enfurecido com banhos demorados e conversa fiada.

Eu perdi a cara de pau pro amor e isso é um pouquinho triste. Eu sinto falta de tudo. Do que eu não tenho mais e do que eu nem sei se um dia eu tive. De quando eu esperava que alguma coisa bonita acontecesse, tipo agora. De quando eu acreditava nas pessoas, tipo nele. Eu sinto falta do que eu já fui um dia. Falta de quem eu era e do que eu implorava pra não mais ser. Falta da espera, da ansiedade, do amor em excesso. Eu não sei mais sentir. Dá dó, né? O homem honesto chegou atrasado.

Eu gosto é de homem sarado e burro

Ai, meu Deus, que inferno. Preciso assumir. Publicamente. Que dor. Chega a ser ridículo, humilhante, triste. Pra você ter ideia, fiquei em dúvida em publicar ou não este texto, mas fazer o quê? É a verdade. Nada mais que a fria, pesada, cruel e irônica verdade. Eu gosto mesmo, e muito, é de homem sarado e burro. Juro que tentei de todas as formas, nos últimos dez anos, me relacionar com intelectuais de esquerda que usam óculos com aros grossos e não fazem a barba. Desses que usam sebos como hobby e frequentam cafeterias em becos escondidos pra falar de Contracultura e Vanguardas e Geração Beat e Literatura Marginal. Tentei, de todas as formas, me relacionar com esses que estudam filosofia em São Lázaro.

Ah, como eu tentei me relacionar com esses que querem mudar o Brasil, com os que se metem em alguma chapa política em universidade, com os que fazem barraco por ódio ao racismo, machismo, homofobia e heteronormatividade, com os que vestem a camisa “Lula Livre” ou “PT”, com os que estão no oitavo mestrado sobre pré-sal e há quinze anos escrevendo um roteiro com zero verba ou incentivo ou produtor ou distribuidor ou emissora ou patrocínio, com os que estão sempre à espera de um edital, com os que debatem sobre uma nova forma de fazer educação, com os que não admitem o projeto escola sem partido. Deus do céu, como eu tentei me relacionar com os que cantam Legião Urbana em bar barato, com cerveja barata, fumando cigarro barato. Eu tentei, juro que tentei, me relacionar com os que passam sufoco pra pagar o IPVA do carrinho popular, com os que ouvem Cartola bebendo pinga no meio da tarde sem nenhuma neura com barriguinha.

Não são esses os homens interessantes que existem na face da terra? Não era um desses que eu passei a adolescência inteira querendo me casar, com festa de casamento com João Gilberto de fundo, cercado de outros duzentos amigos dele com o mesmo perfil? Botando uma de Chico pra começar o dia enquanto reclama de notícias de jornais golpistas? Um que problematizasse carnívoros e falasse da importância de ser vegano? Um que só ensinasse nosso filho a ler e interpretar poesia e assistir filme de Almodóvar e Tarantino? Não fui eu que escrevi 967 textos reclamando dos saradões que frequentam aos montes o bar Preto? Aqueles que exibem chaves de carros na cintura e frequentam a Aldeia Crossfit? Não fui eu que falei mal de todos os fitness que lá pelas duas e tanta da madrugada tiram a camisa pra se exibir na San Sebastian? Não fui eu que implorei para a vida, de alguma forma, colocar nas minhas mãos um autêntico intelectual cheio de teorias, que prima pelo cérebro em detrimento dos ombros largos?

Sim, fui eu mesmo. E eu paguei a minha língua com a minha hipocrisia, como dizem por aí. Bem feito. Nos últimos meses, arrumei centenas (senão milhares) de homens assim. E fui pra cama com todos. E, pra alimentar meu desespero e inconformismo, não me apaixonei por nenhum deles. Nenhunzinho sequer. Nenhuma vontade de aquecer mão e coração. Nenhuma vontade de ligar no dia seguinte, de saber no que vai dar. Descobri que me divirto mesmo é com aquela merda de música eletrônica lançada semana passada por Alok, daquelas que tocam em qualquer bosta de boate moderna com gente que só rebola a bunda, usa muita droga, fala de creatina e não pensa no que vai fazer daqui a dez minutos. Ou do reggae ou do pagodão do momento estourando no carro ou nos tímpanos de tão alto. Tudo isso mergulhado num perfume amadeirado e numa camisa Ralph Lauren. Chega de camisas floridas e alternativas com dois botões abertos e dobradas na manga.

Gosto mesmo é de Lucão que escreve “le encontro mas tarde”, no meu WhatsApp, ao invés de “lhe encontro mais tarde”, mas que me beija bem pra caralho e sabe muito bem onde sinto prazer. Gente que pensa demais, que é inteligente demais, sofre demais. E, talvez, a superficialidade seja mesmo o segredo pra ser feliz. Chega de romantizar o drama. Gosto das cuequinhas da Calvin Klein. Aquelas que eles mostram sem vergonha quando levantam o braço pra chamar o garçom. Que saudade delas! Chega de Zorba cinza! Chega de vinho barato depois de uma foda e cigarro na janela com café em copo americano.

Eu gosto do abdômen trincado, da coxa bem dura, da virilha depilada, da nuca que aguenta meu peso inteiro, do ombro largo que me carrega sem sentir dor. Quem lê Foucault demais, vai demais ao teatro ou filosofa demais em boteco não tem tempo (nem paciência) pra ficar tão de boa com o corpo. A partir de agora vou parar de negar meus desejos por esses homens que gostam de mim, mas que eu rejeito por não terem cérebro. Melhor um músculo na mão do que uma cabeça cheia de neurônios voando.

Eu sei que depois de uma segunda-feira estressante é maravilhoso conversar. Eu sei que depois de tanto tempo de namoro, a paixão acaba e o que sobra é o companheirismo. Eu sei que depois de casado o que eu vou querer mesmo são os jantares com discussões saudáveis no sofá sobre lugares incríveis pra passar as férias de fim de ano. Mas até chegar aí, eu preciso mesmo é recuperar meu tesão tão perdido com ansiolíticos que cortam minha libido.

Mas, até chegar aí, eu preciso mesmo é sentir tesão novamente. Me sentir vivo de novo. Eu preciso mesmo é de um cara sarado (e não bombado) com tudo o que vem no pacote. Preciso apertar os olhos, relaxar no meu travesseiro de pena de ganço e enlouquecer com um daqueles óleos que lambuzam corpos e facilitam no cheiro, na apertada, na firmeza. Chega de frase inteligente, citações de escritores renomados ou comentários deliciosamente sarcásticos. Pra agora, pra resolver um problema urgente, o raciocínio beira este caminho: você tem mais tesão pelo Noah Baumbach ou pelo Martín Deus? É difícil admitir, mas preciso confessar a vocês: sou capaz de ter um orgasmo só de ouvir uma réplica de Maluma gritar “hashtag treinoooooo”.

Na sexta, saia sem a bolsa

Assim que desci do Uber pra entrar no Chupito uma amiga correu pra me avisar: “Ó, você se prepara. Ele tá aí. E tá muito bem acompanhado”. Eu sabia, eu sabia. Minha intuição não falha. Eu ia direto da Ufba pra curtir a sexta-feira no Rio Vermelho com meu jeans surrado, meu All Star branco encardido, uma camiseta básica qualquer e duas bolsas com vinte livros cada quando tive a ideia maravilhosa de voltar pra casa e mudar minha roupa inteira. Eu era agora um homem muito bem penteado, com um corte de cabelo moderno, barba feita, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume que fazia rostos desconhecidos virarem a duas quadras de mim. Um arraso.

Ah, ele então arranjou tempo, pela primeira vez na vida, e resolveu sair pra se divertir no fim de semana? Ele então esqueceu que existem prazos e relatórios e planejamentos, pela primeira vez na vida, pra poder beber com o novo namorado? Ele então aprendeu a gostar de frequentar bares de vinte metros quadrados e de música alta sem reclamar? Sem problemas. Eu não vou embora, não. Eu vou ficar, eu vou pra pista, eu vou aproveitar que estou sem bolsa e dançar até o chão todas as músicas pop, ragga, zouk, salsa eletrônica, funk, com a bunda que nunca tive.

Abracei um DJ desconhecido, falei com todos os bartenders, cumprimentei pessoas aleatórias só pra ele ver que depois que a gente terminou eu havia me transformado no rato da noitada. Escolhi o melhor ângulo (aquele que mesmo com uma venda ainda dava pra me ver), pedi o chupito número 1, depois o 2, 3, 15, comecei a dançar ridiculamente pela pista abraçando um ou outro amigo e me esfregando no balcão do bar. E ria, ria, eu só fazia rir. Eu era a pessoa mais feliz do universo.

Um amigo correu pra falar no meu ouvido: “Ele tá lá na frente pegando uma ficha pra comprar bebida com aquele cara bonitão que você conhece”. Eu não tô nem aí. O bonitão burrinho e interesseiro que passa o dia inteiro na academia e tem uma franja gigante pra esconder a testa gigante não vai estragar a minha noite. Tudo bem que eu tô ficando com uma barriguinha aqui, um pouco flácido ali, mas ao menos sei conversar uma ou outra coisinha com ele e nunca andei de mãos dadas com a função de manequim só pra ganhar presente em troca. Foda-se.

Depois vem outra amiga (tô começando a desconfiar dessas amizades), puxa meu abraço, me leva pro canto, e me conta discretamente: “Você viu o menino que ele tá? O nerd. Diz que ele faz doutorado, morou na França e tem sete livros publicados”. Um nerd? Não era o clássico burrinho gostoso? Que seja, foda-se. Um nerd não iria estragar minha noite, não. Eu estava com um corte de cabelo maravilhoso, com barba alinhada, jaqueta jeans da Reserva, calça com caimento justo e um perfume caríssimo. Tava tudo certo.

Porque eu estava sem bolsa, saí procurando pelo Chupito pra conferir. Pra ter uma opinião. Pra dar um pouquinho de risada. Pra me sentir um pouquinho deprimido. Pra constatar o que, talvez, fosse doloroso. Será que o bonitão da academia a essa altura tava aos beijos com ele? Será que o nerd-doutorando-poliglota-escritor estava num papo intelectual sobre Proust, Monet e Deleuze? Porque eu estava sem bolsa, continuei procurando pelo Chupito pra conferir até que o encontrei parado na varandinha perto da escada com dois botões abertos da camisa e o mesmo Vans preto e branco de sempre.

Enquanto ele experimentava um chote de aperol, espumante e laranja das mãos do bonitão da academia, o nerd-doutorando-poliglota-escritor esfregava os braços nele, falava mais próximo da boca dele, dançava mais coladinho dele. A varandinha ainda abarcava um loirinho meio surfista, um negão careca (e também bombado), um branquelo sem sal (tão sem sal que às vezes nem parecia estar ali) e um ser grandão quase curvado com um brinco gigante que eu não sei se era trans, travesti, não-binário, gay ou hétero descolado. Todos em volta dele. Todos falando coisinhas no ouvido. E dando bebida aqui, beijinho ali. Ele não estava com o bonitão da academia nem com o nerd. Ele estava num harém, numa festa Baco.

Eu imagino ele tirando o cartão de débito da carteira e passando de mão em mão na roda pra comprar o que eles quiserem. Eu imagino ele convidando todos da roda pra prolongar a baladinha na casa dele de oito andares: copos, piscina, música, gritaria, fumaça.

Eu parado na porta. Ele finge que não me vê, mas me vê olhando. Fecha um botão da camisa, depois o outro. Se ajeita no banco de madeira. Conserta um pouco a franja ensebada. Aperta com um braço a cintura do bonitão da academia e com o outro a cintura do nerd-doutorando-poliglota-escritor.

Chega, chega. Cansei. Isso é demais pra mim. Chega. Ainda que eu ficasse com os trezentos homens que me paqueram nesse bar, ainda que eu subisse no balcão pelado e dançasse Britney Spears, eu não ganharia dele. Ele tinha convencido que estava bem, por cima, acompanhado, tranquilo, feliz, interessante, mudado. Agora só restava me convencer a ir embora. Tudo bem, tudo bem. Respirei fundo e contei até cem até o Uber chegar. Quantas vezes eu tinha saído com caras mais bonitos e mais interessantes do que ele? Quantas vezes ele já havia ido me buscar no jornal pra um jantar e eu tinha dado um ‘não’ por pura preguiça? Quantas vezes ele já havia me ligado implorando por uma praia, por um cinema? Ele só estava me dando o troco.

Cheguei em casa arrasado, triste, mal-humorado. Arranquei aquela jaqueta ridícula da Reserva que impregnava o perfume ridículo e arremesei a calça com caimento justo ridículo o mais longe do quarto. Coloquei, querendo morrer, minha samba-canção de listrinhas e pensei que a essa altura ele certamente transava com aqueles duzentos homens que certamente usavam cuecas muito mais sexy.

Bento, meu cachorrinho, pulou na cama, se encolheu junto ao meu corpo e deu um respiro fundo. Que dor pra esse pobre rapaz de cabelo bem penteado e barba feita ter que apagar as luzes e dormir no escuro, sozinho, em plena sexta-feira, com o coração dilacerado, enquanto o ex encoxa duzentos homens na balada. A velha e cruel sensação de que o planeta inteiro é relaxado, o planeta inteiro dá a volta por cima, o planeta inteiro é desejado, o planeta inteiro é leve, o planeta inteiro se diverte, dança de verdade, transa, goza, se dá bem, faz a vida acontecer… e eu continuo forçando um corte de cabelo, forçando uma roupa da moda, forçando um sorriso, forçando mais uma noitada.

O primeiro estágio do meu sono foi interrompido com o celular vibrando na mesinha lateral da minha cama. Era ele com a vozinha carinhosa que, depois de tantas brigas, eu nem lembrava mais como era: “Posso dormir aí com você? Aqui tá chato. As pessoas são chatas. Eu me sinto triste. Conversa comigo. Quero abraçar você. Acho que te amo”.

Você não é especial

Nosso namoro acabou durante uma festinha de gente alternativa que odeia jornalismo e ama literatura, mas adora jornalista e detesta ler. Na varanda: “É porque, Murilo, você tá o tempo inteiro dando notas pras almas. O tempo inteiro analisando, julgando. Então eu fico me podando o tempo inteiro pra te fazer feliz. Eu me sinto mal com essa relação-prova-final”. Ele passou quase um ano me dizendo que queria me ver, mas os dias eram complicados. Eu dizendo pra uma amiga o quanto eu queria que ele me encontrasse, mas ele era complicado. Porque todo o resto do mundo precisava dele e eu era apenas uma das demandas da agenda. Quando ele me chamou de demanda, um nó travou na garganta e eu tive certeza que não merecia aquilo.

Antes dele teve outro. O outro que eu não sei bem o que foi porque ele era aficionado por começos. Eternamente “numas de namorado, mas ainda estamos nos conhecendo”. Eternamente numa busca pelo que acaba daqui a pouco e que não se repete ou não se prolonga. No Outback: “Fica sussa. Acontece se tiver que acontecer”. E eu me disse: “Puta merda, nem esse cara sabe quem ele é”. E resolvi ir embora pra sempre.

Quarenta e cinco dias depois, conheci o homem mais leve que eu já conheci na vida. Eu estava cansado de ser taxado pelas pessoas por causa do meu trabalho de escritor. “Ah, é Jornalista, blogueiro, vendido pela mídia golpista, escritor de um livro só, se acha o dono da verdade, só escreve sobre a vida dele, só fala sobre macho, mas isso é literatura?, quem é esse garoto?, rodado, não passa de três meses com um namorado, quem vai ficar com um problemático?, quem ele está pegando pra ter coluna em site e jornal?, sem noção, bicha azeda, eu preferia o outro Murilo, aquele que escrevia sobre amor inocente, mas agora ele fala de sexo, agora ele fala de ansiedade, histérico, se expõe o tempo inteiro, tem que tomar remédio mesmo pra deixar de ser louco, coitado, vai morrer sozinho”. Até que encontrei nele calmaria. Até que ele foi deixando camisas e cuecas e escova de dente na minha casa. Até que um dia, acho, ele percebeu que eu não servia pra ele. Até que um dia, acho, ele percebeu que tudo que dizem sobre mim possivelmente é verdade. Até que um dia ele foi embora.

Depois veio outro namorado. Dois meses planejando uma viagem ao Capão. Eu me contorcendo com bolsa térmica gel, tomando Omeprazol pra não morrer com gastrite, e ele realmente preocupado se no dia seguinte choveria muito na Fumaça, ou algo parecido, pra ele fazer trilha. “Olha bem pra mim”, eu morria de vontade de dizer pra ele. Eu estava completamente preocupado se minha mãe morreria no São João, mesmo ela ainda sendo muito jovem e saudável. Preocupado se haveria congestionamento até a Ufba, se eu corria o risco de pegar um ônibus com um louco que sempre grita “tô muito louco”, almoçar em horário de almoço, dormir oito horas por dia, morrer sem sentir dor.

Ele era bem lindo. Passei a tarde inteira me perguntando, ao colocar o moletom, a manta e o cachecol de lã na mala, se valia a pena tudo aquilo. A barraca de camping, o fato de ele ser lindo, o mato e todos os mosquitos que compõem a cena de amor. Fiquei imaginando a festa que haveria todos os dias e todas as horas até o amanhecer, com todos aqueles jovens libertários que acordam assim zero enxaqueca e sem precisar de relaxante muscular, aturando aquela conversa de “energia”, “inferno astral”, “vida que segue” pós-banhos de cachoeira e adoração ao sol. E meu grito, com um efeito de eco de esgoto, no meio daquela música alta. “Você vai adorar os meus amigos”, ele dizia. Fechei a mala e fui. Eu sempre vou.

Daí eu perguntava pra ele o que esses jovens libertários faziam da vida e ele não entendia por que eu queria saber essas coisas. E daí se uma das meninas já passou dos vinte e cinco anos e ainda não sabe se é arquitetura, biologia ou fisioterapia, se um dos caras não trabalha porque já tem um pai que trabalha e recebe uma bolada de mesada? E daí que todo mundo tem uma necessaire com LSD e cocaína e bala e ecstasy? E daí que eram apenas jovens libertários curtindo o agora?

Eu a noite inteira tentando uma conversa consistente com algum jovem libertário. Quis perguntar a uma das meninas maconheiras amiga dele: “mas me conta, que horas do dia você sente angústia?”. “E crise do pânico?”. Quis perguntar a um dos amigos dele que bebia vodca há três dias sem parar: “Cê acha que um dia a gente para de sentir vontade de vomitar as aflições do mundo?”. Eu desistindo e largando todos eles com seus copos e fumaças – talvez meio enjoado, talvez meio entediado, talvez com saudade da minha bolha – e me trancando na barraca, fazendo exercícios de respiração e implorando pra que a minha pressão voltasse ao normal. E todos eles lá fora comentando: “Que viado doido. Podia estar aqui agora com a gente”. E ele lá fora preocupado com a fogueira, com o vento, a porra da lua e todo o resto do planeta. Chegou a hora de eu ter a minha liberdade.

Passei um século da minha vida dividindo a rotina, a mesa do café, as sacolas do supermercado, o controle remoto, a louça suja, a panela de brigadeiro, as festas, a mesa no restaurante, o braço da poltrona do cinema com trezentos mil meninos que no fundo só eram meninos. Lembro da voz da minha analista: “Você precisa cuidar da sua vida”.

A gente perde muito tempo com gente que não faz sentido, com gente que não tem nada a ver. E tenta e se descabela e se doa e tenta de novo. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro quer. O tempo inteiro sendo alguém que nem o outro faz questão da existência.

A gente perde muito tempo com gente.

© 2018 - TV Aratu - Todos Direitos Reservados
Rua Pedro Gama, 31, Federação. Tel: 71 3339-8088 - Salvador - BA