Uma mesa pra uma pessoa só, por favor

Chego na Tropos e aviso imediatamente ao garçom: “uma mesa pra uma pessoa só, por favor”. ​Ele faz a cara mais feia do mundo para a minha frase. E depois me olha meio triste. Talvez pensando que era realmente impossível ir a um bar no Rio Vermelho, sozinho, em plena Festa dos Palhaços, quando todos estavam animados, fantasiados e reunidos com seus imensos grupos de pessoas felizes e sem problemas. Peço uma cerveja. “Posso deixar outro copo aqui?”, ele pergunta meio triste. Talvez pensando que uma pessoa desacompanhada, naquele lugar, merecia ter um copo vazio em frente na esperança banal de que talvez alguém chegue. “Não vem ninguém. Eu vou ficar sozinho”, explico um pouco alto e rindo.

Beber goles de cerveja e fumar um cigarro, sozinho no canto do bar, era praticamente estar no centro de um palco de um imenso teatro. Era como se eu fosse um ator interpretando um monólogo dramático em que o personagem jamais alcançaria a vida bela. É quase um pecado estar num bar sozinho em Salvador. Se for às vésperas de Carnaval, então, é ser digno de pena. Os alternativos com camisa aberta e calça skinny preta rasgada. As magricelas de cabelos desfiados usando alguma roupa perfeitinha da Farm e alguma tinta pro cabelo que custou mais da metade do salário de estagiária. Os casados, os solteiros, os separados, os que querem recomeçar a vida. Todos acham feio, errado, incomum ter alguém desacompanhado num sábado à noite. Sentem pena. Como alguém pode estar numa mesa de bar, sozinho, em pleno verão, meu Deus? Como um gay, que socialmente é visto como alguém cheio de contatos, está sozinho no meio da boemia?

Eles acham que eu estou triste. Deve ser depressão. Ou fim de namoro. Ou ele não é da cidade. O que que é? Eles acham que meu namorado me deu bolo. Eles supõem que uma hora, talvez daqui a pouco, o cara do Tinder que eu marquei o primeiro encontro vai chegar. Ou que aqui ali é só um “esquenta” pra eu logo encontrar minha turma e me enfiar numa boate. Ou que uma amiga demorou de se arrumar. Ou que eu sou tímido e não faço amizades. Não é possível. Alguma coisa aconteceu. Por que ele está neste bar lotado, sério, de pernas cruzadas e completamente sozinho nessa mesa? Corajoso, não? Estranho, não? Coitado, não? Gostar de ser só, em Salvador, a cidade da alegria, é coisa de gente louca e mal amada.

Eles querem que eu seja como o resto do mundo. Eles se incomodam com a coragem de sair sozinho. Com o foda-se em convidar alguém. Há os que querem fazer amizade a todo custo e me levar pra mesa deles. E arrastam cadeiras e fazem piadas e me oferecem cerveja. E se sentem magoados com a minha recusa. E perguntam, perguntam, eles amam perguntar, se acham psicólogos de boteco. Há os que cochicham, os que têm curiosidade pra saber o que eu estou escrevendo, o que tem ali no meu bloquinho, com o que eu trabalho. Há os que acham que eu tô ali pra flertar. Pra um sexo pós-cerveja. E me olham. Ah, os casados. Eles sempre me olham. Adoram fetichizar o rapaz de vinte e poucos anos que quer brincar de ser homem independente.

Eles gostam do mesão, das cervejas verdinhas ao redor das mesas, das risadas altas e desmedidas em bando, da fumaça coletiva. Eles adoram ter vinte amigos na mesa, mas não saem mesmo é do iPhone. Flashs. Tira outra porque essa não ficou boa. Coloca no Instagram e marca todo mundo. Ah, mas @_carolzinha23 não gostou dessa. Faz outra. Stories. Eles amam stories. O tempo inteiro. Pudera. A gente bebe, apronta todas, dá vexame, registra tudo e essa história se apaga em 24 horas. Não é uma boa? Chamam isso de felicidade e eu que sou o infeliz.

O bom é que eu, como roteirista e ator desse espetáculo, posso sair de cena a hora que eu bem entender. Mas como eu sou cínico e debochado, gosto de rir do ridículo da vida. Peço mais uma cerveja e fico ali com o meu copo, o meu cigarro, olhando os desesperados, os maiores carentes: os alternativos, as magricelas, os casados, os bêbados transtornados e o povo dos stories que vivem ciclicamente em direção a lugar algum.