A família do meu namorado é de extrema direita

Texto: Murilo Melo

Minha sogra me mandou uma foto de um gatinho que ela achou na rua. Ele estava com fome, sujo, magrinho e com alguma doença de pele. Ela, com o maior coração do mundo, enrolou o filhote em uma toalha e levou pra casa. Deu banho, comida, “arranjou” veterinário e fez dele um novo residente. Nos dias posteriores, passei a receber, por WhatsApp, uma série de fotos do gatinho numa rotina que ela apelidou de “olha que coisa fofa e bagunceira”. Era o gatinho dormindo dentro do armário da área de serviço, esparramado no edredom e até na posição “colocando ovinho” em cima da mesa de leitura.

Eu estava na varanda, com minha mãe ao telefone, quando recebi um interfone do meu porteiro. Era meu sogro, na porta do prédio onde moro, com ânsia de dizer que deu tudo certo: conseguiu marcar a cirurgia da minha mãe sem precisar esperar a carência do plano de saúde. Como o senhor fez isso? Eu sou um dos melhores advogados de Salvador. Mas e daí? Entrei com uma ação judicial. O quê? Isso mesmo. Aquele homem, ali, salvou a vida da minha mãe e se tornou, pra mim e pra toda a minha família, espécie de Deus.

Quando eu me mudei da Cidade Baixa pra Orla, o irmão mais velho do meu namorado abdicou do único dia de folga pra me ajudar na mudança. Eram caixas imensas e sofás pesados e geladeira e fogão. Ele, prontamente, resolveu tudo com um sorriso enorme. Chamou uns amigos que eu nem conhecia e, em meia hora, eu já estava no apartamento novo. Não sei se ele me salvou tanto quanto o irmão mais novo dele, que, em dez minutos, resolveu o “apagão” do meu computador e recuperou todos os meus documentos e projetos que, por vacilo, não guardei na nuvem. Enfim, toda lembrança boa da família do meu namorado vem de gestos bonitos, de bondade, de delicadeza, de humanidade.

Nunca entendi por que sempre era um sacrifício pro meu namorado passar o Natal com a família. Nunca entendi por que, no comecinho de tudo, era sempre “outro dia eu te levo pra você conhecer” e isso por quase seis meses sem me apresentar, sem me levar às festas. Nunca entendi por que, numa roda de amigos, em que todo mundo falava sobre a infância, ele ficava impaciente e se levantava e mudava de assunto. Por que, um homem tão bom como ele, fugia de uma família tão boa? Por que, um homem que pensava em ter filhos, tão carinhoso e afetivo, tinha asco da própria família? Uma vez, dentro do carro, ele me perguntou: “cê acha que é possível nascer na família errada?”, e eu não entendi nada.

Lembro da primeira vez que ele me apresentou à família. O avô dele, nos intervalos de “este ano é meu último ano de vida”, me falou que “se arrepende de não ter saído do Brasil com tanto corrupto do PT”, e meu namorado, ao pé do meu ouvido, se desculpou dizendo que o avô não anda bem da cabeça. Uma vez, num churrasco do tio, o pai dele falou algo como “não acredito que estão fazendo com que as crianças achem que travesti é normal”, e meu namorado ficou super nervoso, inventou um assunto, puxou meu braço e me levou pra varanda. No fim do ano, a avó dele disse que “acha um absurdo gente ganhar Bolsa Família só porque é pobre” e “por que não trabalha?”, e meu namorado inventou pedir uma pizza quando ninguém estava com fome.

No domingo, no almoço de aniversário de 35 anos de casamento dos pais, achei que era uma boa chance de conhecer melhor a família dele. Talvez falar sobre cinema, artes plásticas, febre amarela. Talvez não falar quase nada e só ouvir. Afinal, com aquela mesa imensa e cheia de louças portuguesas ao estilo novela de Manoel Carlos, em pleno Corredor da Vitória, com 256 parentes presentes, talvez o melhor mesmo fosse não falar muita coisa. Mas como permanecer de boca fechada quando se ouve, enquanto você pede o salmão com molho de maracujá, que “finalmente, Lula, o líder da bandidagem, foi preso”, proferida da boca de um dos tios do meu querido namorado que há muito tempo não presta contas à Receita Federal? Como ficar de boca fechada quando a prima dele, uma baixinha malhada, aponta para a TV e diz que “as feministas que estão no protesto só estão nessa bagunça porque não têm marido e roupa pra lavar”?

Que remédio vocês tomam pra suportar gente que acredita nunca ter existido a ditadura e que talvez seja ‘tranquilão’ a intervenção militar? Que assiste aqueles noticiários sensacionalistas de meio-dia com o maior prazer do universo e sente o maior prazer do universo quando ouve o apresentador dizer “que a polícia tem que dar porrada e matar mesmo”?  Como você se sente quando o irmão mais velho do seu mozão bate palmas para as declarações parciais do tal Mourão “porque esse, sim, faz justiça”? O que você faz quando a mãe de um gay, do gay que você ama, diz achar “gay uma coisa normal, mas os que não são discretos e bem educados viram uma afronta séria e perigosa à vida das pessoas de bem”?

Como você consegue ficar de boca fechada, no meio de um almoço importante, quando os primos dele do Oficina se unem com o irmão mais novo dele do Anchieta e publicam vídeos imbecis dos discursos imbecis de Bolsonaro, Crivella e Feliciano “porque eles falam muitas coisas boas”, mas na verdade só querem ganhar like no YouTube? Que gente é essa que coloca ‘curtidas’ virtuais à frente de uma nação? O que você faz com esses adolescentes que passam o dia na internet publicando fake news de Pabllo Vittar e a Lei Rouanet? Que comemoram a prisão de Lula “porque agora Bolsonaro lidera a pesquisa”. Como amar a família do cara que você mais ama na vida, uma família que apoia um candidato à presidência da república com discursos sexistas, racistas e homofóbicos? A família que resolveu explodir o mundo e defender um homem sem projeto e com terrorismo no coração. Só quem odeia a vida e deseja que a humanidade morra pode gostar desse homem.

Quando o assunto descambou para “um analfabeto não deveria nem ser presidente de associação de bairro”, um nó travou na garganta e eu não suportei. Lembrei que nasci numa família petista. Quando Lula foi eleito pela primeira vez, lembro da minha mãe chorando na cozinha, acreditando, pela última vez, em um homem que poderia mudar a história deste país. Estar ali, no meio de tanta gente ignorante e sem boa leitura, era ofender a minha mãe, as minhas ideologias e a minha lucidez. Meu namorado, de esquerda como eu, apertou a minha mão firme e, ali, sem fazer isso com as palavras, me explicou por que tinha asco daquela parentada toda. Como uma “família do bem”, que adota animais e ajuda pessoas, acha normal que travesti seja morta?, perguntei para todos eles quando terminaram de comer o pudim. No meio de risadas altas, todo mundo ficou em silêncio. Fui embora. A mãe dele, que sempre me mandava mensagens do “gatinho fofo e bagunceiro”, se calou desde domingo. Hoje é quarta-feira. Ninguém falou comigo até agora. Graças a Deus.