A faxineira petista

Minha sogra pediu pra que eu a ajudasse a contratar uma nova faxineira pra casa dela. João, amigo do meu namorado, me indicou Márcia, que segundo ele é uma pessoa trabalhadora, honesta, preocupada com questões sociais e que adora discutir política enquanto troca as cortinas, passa um aspirador no tapete, um paninho com limpador no vidro da janela. Estes dias estou cansado e muito ocupado, explico a João, o que me dá uma preguiça danada em discutir qualquer coisa, quem dirá política. Mas João me convence que Márcia é maravilhosa: estuda história em uma instituição privada graças ao Fies do Governo Lula, adora ouvir Elis Regina e Chico Buarque e que não quer ver na frente dela, nem pintado de ouro, eleitor de Bolsonaro.

Márcia atendeu agoniada, pedindo um minuto, e gritava do outro lado da linha “mulheres vão salvar o país desse coiso”, e voltava pedindo desculpas pelo barulho: estava preparando a manifestação “Mulheres contra Bolsonaro” com um grupo de amigas e desconhecidas que apelidava de “mar vermelho”. Eu quis saber quando ela, finalmente, poderia conversar com minha sogra e acertar o trabalho. E ela me respondeu “que tinha que ver isso aí”. Achei que se referia ao salário, às condições de trabalho, ao horário de serviço, mas ela estava mesmo preocupada era com o voto eleitoral dos patrões.

Entendi que a família seria entrevistada e marquei um café, no último dia 13, na casa da minha própria sogra. Achei aquilo progressista, achei aquilo Brasil 2018, achei aquilo “você que está precisando do meu serviço, é difícil encontrar faxineira boa e honesta, então se adapte ao meu estilo”, achei uma incrível inversão de papéis de uma classe que sempre foi rebaixada, humilhada.

Nada de roupa verde e amarela, pensei. Vai que ela acha que eu sou de direita e estou afrontado ela?! Nada de deixar ímãs de pássaros na geladeira, pensei. Vai que ela acha que ali são tucanos e que eu voto em Alckmin?! Eu fiz questão de abrir a porta pra Márcia, que estava com a camisa “Lute como uma garota” cheia de adesivos escritos “Haddad é Lula”. Márcia estava confiante, empolgada. Conseguiu pensar na manifestação, conseguiu reunir várias mulheres na página do Facebook, estava tudo certo pra destruir o fascismo. Olha, Márcia, aqui também tem luta, tá? O apartamento da minha sogra é gigante, há tapetes em praticamente todos os cômodos, os lençóis, fronhas e edredons precisam ser trocados duas vezes por semana e cabelos no ralo do banheiro precisam ser tirados pra não entupir.

Márcia colocou a xícara de café na mesinha de centro (ela tem um pouco de repúdio da palavra “centro”, então só fale “mesinha”) e disse que se recusava a trabalhar na casa de golpistas “porque não era bom pra ninguém, muito menos pra autoestima dela”. E quis saber, enquanto minha sogra saiu em busca do calendário pra saber a data que ela poderia começar o serviço, se minha sogra era bolsonarete: “Preciso trabalhar, mas em um lugar em que os meus patrões não queiram me ver estuprada porque saí com um short curto”. Expliquei pra ela que embora eu seja petista, desta vez, vou votar em Ciro, e ela disse que respeitava, que também achava Ciro uma boa opção, mas 13 sempre vai ser 13. Meu namorado explicou que a varanda do apartamento nunca teve as luzes piscadas e nem barulho de panela. Já minha sogra disse que no dia que Lula foi preso ela fez um textão no Facebook de uma amiga reaça (deixou claro pra Márcia que a amiga reaça não é mais amiga e, portanto, não frequenta mais a casa. Márcia ficou mais calma e gritou “Lula livre”).

Tudo estava indo maravilhosamente bem até que ela quis saber onde minha sogra trabalha. Ela foi obrigada a dizer “Prefeitura e Rede Bahia”. Márcia se engasgou com o resto de café e disse que precisava ir embora. Mas como fica, Márcia? Você começa semana que vem? A faxineira partiu, partiu, e nunca mais voltou.