Segurar a mão de alguém com diarreia no Ano-Novo é a maior prova de amor que existe

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Olhei foto por foto de pousadas e praias do Litoral Norte da Bahia com a intenção de encontrar “um lugar sossegado e romântico pra curtir o Ano-Novo”. Convenci meu Namorado a passar dois dias em Arembepe, sob o forte argumento de que “todo casal precisa de um tempo longe de casa pra poder viver a relação”. Os dias se resumiriam a livros, músicas, conversas e amor. Escolhemos o quarto com banheiro de azulejo português e florzinhas violetas na janela. Eu coloquei na mala o livro “A teus pés”, de Ana Cristina Cesar, e ele levou “Poema sujo”, de Ferreira Gullar. No fim das contas, eu não consegui parar de ler uma revista Vida Simples antiga, largada na mesa de centro da recepção, e ele um joguinho maldito no iPhone “onde é possível conversar online com o adversário”.

No primeiro dia, fomos à praia, jantamos num restaurante com luz baixa, fizemos algumas selfies “pra mostrar pra família que estávamos bem”, bebemos taças de vinho no tapete do quarto, de cueca, enquanto a gente improvisava poesia, ria e se beijava. Depois, tarde da noite, transamos pra aliviar o “há muito tempo não fazemos isso”, antes impedido por sonos, cansaços, prazos apertados e falta de libido. No dia seguinte, no Réveillon, decidimos comer frutos do mar. Camarão, polvo, moqueca de peixe e lagosta. Onze e quarenta, a gente fugiu do restaurante, com tédio de adolescentes e medo de ser obrigados a dar abraços calorosos em desconhecidos, principalmente nos outros cinco casais hospedados na pousada, todos sorridentes e esperançosos por um ano melhor (e eu até pouco tempo acreditando que depois que a gente casa não precisa mais de sorriso forçado e nem de ter esperança de nada).

Nos trancamos no quarto. Deixamos apenas a luz do abajur ligada. Tiramos a roupa e ficamos de cueca. Apagamos a luz do abajur… daí, acendemos de novo a luz do abajur porque senti cheiro de barata e, num suspiro mais apurado, ele também sentiu cheiro de barata. Nenhum dos dois dormiria sabendo da existência de um ser asqueroso rondando cama, malas e paredes. Pela cortina, vimos as cores dos primeiros fogos. Eu, arrastando os móveis do lugar; ele, com uma sandália na mão pra matar o inseto abominável. Meia-noite em ponto, num impulso, interrompi os amassos intensos pra beber água. Virei uma jarra de um litro e meio que estava no criado-mudo e abafei o arroto no cobertor. Meia-noite e um, de repente, ele parou de lamber meu peito e virou para o lado, suando frio.

Meia-noite e três meu estômago deu sinais. Primeiro o anúncio proferido por um barulho estranho, depois uma queimação que subia como uma montanha russa até a garganta. Uma criança frágil e indefesa sendo levantada com uma mão só por um lutador monstruoso de jiu-jítsu que, com descaso, imagina levantar um troféu. Um ciclone pós-tropical saía do flanco e seguia em direção ao intestino, sugando, em um segundo, milhões de barquinhos. Enjoo era algo minúsculo perto do que eu sentia. Mas e aí, procuro um sinônimo melhor no Google? Talvez eu morresse na virada do ano (no quarto de uma pousada, com baratas devorando cada pedacinho do corpo). Mas como ter um momento digno de morte ao lado de um homem que, naquele segundo, de pau duro, não respeita seus últimos suspiros e pensa em sexo? A gente lembra como era querer demais sentir suor e beijos e quenturas antes de ser avassalado por azias e refluxos e cólicas. E as pessoas lá fora com seus sorrisos largos. E as pessoas pedindo paz, dinheiro, saúde. E as pessoas brindando. Morrer quando o mundo está feliz é de uma arrogância egocêntrica sem limites.

Meia-noite e cinco — educado, misterioso e disfarçando com um sorriso bege —, pedi que ele esperasse na cama por alguns minutos. Pensei que ele fosse fazer a cara de “puta que pariu, que corta clima”, mas, ao invés disso, continuou encostado na cabeceira da cama, suando frio. No banheiro de azulejo português, eu parecia estar possuído por um espírito demoníaco. Vomitei como quem espera por dias um prato de comida no deserto. Sentei no vaso, dramaticamente, prendendo minhas mãos nos joelhos, despejando tudo o que meu estômago não aguentava guardar. Desejei ficar sentado na privada para sempre, não fosse meu namorado, sem cautela e sem mistério, socando a porta do banheiro: “eu preciso entrar, Murilo. Eu não tô legal. Abre essa porta”.

Foi o camarão do jantar? Não, acho que foi o peixe, ele tava meio cru, meio estragado. É intoxicação alimentar, né? Tenho certeza. Você não tem medo? Tenho. E você? Muito. Qual o nível do seu medo? Acho que cem por cento. Antes ter ficado no suco de melancia com linhaça, e soja com cenoura orgânica e arroz integral. Vai ficar tudo bem, eu tô aqui pra cuidar de você. Sério? Serio. Cuida mesmo? Hein? Cê tá me ouvindo? Amor? Não, desculpa, eu tava com vontade de vomitar de novo. Se eu morrer, você publica meu livro? Se você morrer, eu vou morrer mil vezes, porque comi mais da metade da moqueca. Não fala em comer, por favor. Eu não quero comer nunca mais. Promete que não vai morrer? A gente não manda nessas coisas, né? Ninguém diz ‘não quero morrer’ e não morre. Mas eu preciso de alguém pra me levar pra casa, eu não sei dirigir. Pega um Uber. Nenhum Uber ouve Sondre Lerche e canta tão parecido quanto você. Liga na recepção e pede mais água. Mas a mulher da recepção estava bêbada desde as dez horas. Ela sempre está bêbada. Você acha melhor pedir pro segurança levar a gente na emergência? Ele também está bêbado desde as dez. Eu não tenho mais força. Tá vendo como minha perna está tremendo? Será que você vai perder as pernas? Acabei de pensar nisso. Eu dei um Google em intoxicação alimentar. E aí? Ninguém perde as pernas por causa disso.

Meia noite e vinte, estávamos completamente sem roupa, suados, descabelados, feios, deitados de mãos dadas no chão do banheiro. Nossa relação cercada de boas maneiras, agora adquiria o conforto de uma intimidade madura recém-adquirida pós-diarreia dupla. Nossas mãos geladas, por causa da pressão baixa, de tanto segurar firme, agora voltavam a esquentar. Aos poucos, devagarzinho, nossos corpos se juntavam mais, e eu pude ouvir o ritmo da pulsação voltar ao normal. Eu tô aqui pra cuidar de você, tá? Eu também. De verdade. Podemos morrer aqui, né? Podemos, quer dizer, não. Por que não? Por causa do filho que a gente quer ter. Tá. Então não morreremos. Que bom. Feliz Ano-Novo. Pra você também.

Foi o Réveillon mais bonito que eu tive.