Não sei explicar o que acontece com meu coração quando vejo oferta da Black Friday

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Dave Santana

 

Na última sexta-feira, fui convidado pela editora do jornal que trabalho pra tomar um chope no Madero, no Shopping Barra. Um encontro breve pra discutir ideias de pautas pro verão. Ela mandou um motorista me buscar na redação e, assim que cheguei ao local, o garçom foi logo avisando: comprou um chope, ganhou outro. Achamos aquilo maravilhoso e, enquanto pensávamos em lugares badalados da cidade, enquanto pensávamos sobre entrevistas e boates e restaurantes descoladas, fomos pedindo canecas e canecas e canecas e canecas de chope. Bebi doze.      
 
Tinha tudo pra ser um grande fim de tarde, uma grande reunião de projeto jornalístico, não fosse um pequeno e pesado detalhe. Assim que o identifiquei em meio à multidão, começou o meu martírio. O que é? Por que as pessoas mal conseguem entrar ali? Que confusão é aquela? Por que as pessoas estão sendo esmagadas e pisoteadas e completamente feliz?  Como eu não estou sabendo? Quem é a celebridade? Por que as pessoas estão ávidas e sedentas como zumbis naquele espaço?
 
Um adesivo vermelho gigante, colado no vidro esquerdo da loja, visto neblinado pelos meus olhos míopes afogados no álcool, anunciava o que a partir daquele segundo me faria ser uma espécie de hipoglicêmico há meses sem um docinho: “Black Friday: 70 % off”. A partir daquele segundo, minha vida começou a depender unicamente daquilo. Não sei explicar o que acontece com meu coração quando vejo “porcentagem” e as palavras “off” ou “promoção” na mesma linha. Alguma coisa dá muito errado dentro de mim e, se não reviro prateleiras e araras, fico com a eterna sensação de ter perdido uma grande chance. 
 
Menti pra minha editora que ia ao banheiro e nunca mais voltei. Quando dei por mim, estava meio bêbado, no meio da multidão, com a mãozinha pra cima, enfiando mil roupas e sapatos dentro de um sacolão. Comprei uma jaqueta jeans verde musgo e uma camisa que não combinava com nada que eu tinha no guarda-roupa (e, talvez, não combinasse com nada que um dia eu pudesse ter), e paguei com o cartão de crédito que coloco na carteira pra “caso aconteça uma emergência”.
 
Pensei em voltar pra casa, acabar com aquela compulsão mercadológica desenfreada. Mas a loja ao lado ofertava um depilador elétrico multipinças Satinelle por 20% de desconto. Tive orgasmos múltiplos só de imaginar duzentas pinças mutilando cada cantinho do meu corpo. O ponto alto do meu êxtase foi ver um tapete peludo, ultra felpudo, com um risquinho em cima dos R$ 499, por R$249. Tá certo de que aquele maravilhoso tapete me faria atacar a rinite a qualquer fim de semana, principalmente num dia em que a rinite não deveria atacar. Mas quem, em sã consciência, resiste a um risquinho em cima de um preço? Coloquei no carrinho sem aflição. 
 
Aproveitei e levei uma câmera fotográfica (prevendo fazer um curso de fotografia algum dia, mesmo sendo péssimo nisso) e um violão (prevendo aprender música algum dia, mesmo sendo péssimo nisso). Na prateleira ao lado, vi um porta-escova, solitário, laranja neon, olhando pra mim, implorando pra ser levado. Cheguei à conclusão de que aquilo era um sinal. Comprando aquele porta-escova, em promoção, eu faria um bem pra humanidade. Imagina, todos os irmãozinhos daquele porta-escova foram levados, menos ele. Tão triste essa história, né? Sem pensar duas vezes, registrei no caixa e paguei com o cartão de crédito que coloco na carteira pra “caso aconteça uma emergência”.  
 
Na Tok Stok, ao tentar comprar uma panelinha de arroz, tive o cartão recusado. “Oi?”. “Não autorizado, senhor”. “O quê?”. “Infelizmente”. Mandei uma mensagem pra Deisi: “Preciso do seu cartão pra aproveitar a Black Friday e comprar umas passagens aéreas”. Me peguei desnorteado, descendo as escadas rolantes do Barra, tentando equilibrar 32 sacolas e um sorvete de baunilha pingando no sapato. Senti o que todo ansioso impulsivo sente durante a ressaca de ansiedade e impulsão: culpa. Muita culpa. Culpa a ponto de eu achar que Deus se vingaria do meu consumo inconsciente e eu morreria em um ataque cardíaco ao cair e rolar as escadas rolantes.  
 
Enchi de gelo a pia do banheiro de casa e enfiei a minha cara. Eu pretendia ficar ali, sem respirar, até que a fatura chegasse (numa tentativa radical e suicida de acordar pra realidade), mas fui impedido pelo barulhinho do WhatsApp (sempre ele). Era Deisi me mandando o número do cartão, do CPF e da porra toda. Eu estava livre pra comprar as passagens aéreas e, se eu tivesse muita sorte, finalmente, a panelinha de arroz.