Carta aberta ao atual do meu ex-namorado

Texto: Murilo Melo | Ilustração: José Manuel Hortelano

Hoje pela manhã, ao sair da padaria, encontrei meu ex-namorado com você. Senti um misto de susto e ciúme. Ele segurava com a mão esquerda uma sacola de supermercado e, com a outra, a sua mão. Eu ainda estava de pijama, chinelo e cabelo bagunçado, bem feinho. Mas isso, pelo visto, não interessou: vocês não me notaram. Aliás, que loucura. Ao que parece, vocês não se importam com ninguém em volta. Parece que o mundo se transforma num lugar invisível, sem brilho e sem som quando vocês estão juntos, o que me fez ficar com o coração um pouco apertado.

Admito que, a princípio, fiquei com um pouco de inveja ao ver vocês sorrindo, e me recriminei por meia hora. Depois, segurando firme a sacolinha de papel de pão, me pedi pra ter calma: é normal sentir inveja e susto e ciúme e ter um pouco do coração apertado quando se esbarra com o ex que a gente ainda guarda um pouquinho de afeto. A gente sempre guarda um pouquinho de alguma coisa por todos os ex.

Fiquei observando tudo até vocês subirem na motocicleta. É impressionante como ele se sente bem com você. Solto, certo do que quer, apaixonado. Exatamente como ele se sentia comigo nos primeiros dias e totalmente diferente do nosso último encontro. Vocês estavam perambulando pelas ruas da Barra, desfilando ao lado de uma fila de táxi, como se estivessem flutuando no meio de bolhas gigantes de corações que não estouram.

Um carro passou e dava pra ouvir a música que tocava. Era algo como “mas o importante é perceber que a nossa vida em comum depende só e unicamente de nós dois”, de Bethânia. Achei que esse trecho, de alguma forma, unia nós três. Vocês dançavam sem dançar, deslizavam pela calçada sem deslizar, rodopiavam sem rodopiar. Uma moça passou ao seu lado, numa bicicleta, apressada, e ele, sempre atento, te afastou com aqueles braços imensos que protegem de toda a maldade do mundo.

Quando ele apertou sua cintura contra o corpo dele, num gesto mais contemplativo que alguém que gosta pode fazer, sei lá, lembrei dele me dizendo, sem perder a paciência, que eu precisava relaxar. Ele sabia que o meu maior problema era querer saber onde ia dar ter sete meses de namoro, onde ia dar me arrumar pra sair todo sábado, onde ia dar conhecer os amigos, a família, os restaurantes mais charmosos da cidade. Onde ia dar? Eu fui, pra ele, um clichê de ansiedade e insegurança.

Quando ele te deu um beijo na testa, num gesto mais carinhoso que existe no universo, sei lá, lembrei dele me olhando sério, no meio do Jazz do MAM, e me pedindo pra parar com essa mania chata e descabida de querer medir o amor: “Não é porque você está disponível pra sair que você ama mais. Não é porque eu sumi por mais da metade do dia que eu te amo menos. Não é porque você escreve sobre o que vê que você entende o que vê”.

Quando você tentou largar a mão dele e ele te puxou de volta, num gesto que marcava presença, sei lá, lembrei dele me explicando, sem saber como, que não gostava mais de mim. A maneira educada de falar uma sinceridade alta. A necessidade cruel de ser honesto. A maior dor do mundo dita pelo melhor namorado do mundo.

Tenho medo de você não conseguir cuidar dele como eu cuidei nos últimos tempos, por isso escrevo esta carta. Cueca esquecida no chão do banheiro, toalha molhada em cima da cama, roupa amassada. Eu gostava de cuidar do homem imenso que se comportava como um menino. Gostava que ele, ora era fofo, ora era estranho, esquizofrênico. Eu chamava ele de esqui-fofo e ele, mesmo sendo a pessoa mais inteligente que eu conheço no mundo, nunca conseguiu decifrar o apelido.

Eu não sei se ele já te mostrou algum projeto de arquitetura dele. Mas se ele mostrar qualquer rabisco, qualquer ideia, ainda que pra você pareça tudo muito solto e surreal, estimule. Isso é muito importante pra ele. Você talvez não entenda nada, eu nunca entendi, mas, no fim das contas, ele sempre faz uma coisa fantástica.

Eu não sei se você sabe, mas ele tem medo do mar. Ele sempre se lembra da história do milagre, na infância, que o salvou do quase afogamento. Eu tentei diversas vezes fazer com que ele esquecesse o episódio. Tentei convencê-lo a ficar no raso. Tentei convencê-lo a ir a uma praia mais calminha. Mas ele não consegue. Talvez, você, agora que assumiu o posto de namorado, e porque ele mudou tanto nos últimos meses, consiga fazer com que ele esqueça esse trauma.

Eu não sei se você sabe, mas ele não consegue dormir na véspera de Natal. Ele sempre se lembra da mãe dele que morreu tão repentinamente. E chorava. E me ligava. E pedia desculpas por um tanto de coisas que nem precisavam de pedido de desculpas. Foi assim no Natal passado e, eu sei, deve se repetir. Nunca me senti preparado pra cuidar dele na véspera do Natal. Então, não espera ele ligar. Liga primeiro. Diz que está ali pra qualquer coisa. Tenta preencher esse vazio que nunca será preenchido.

Eu sei, eu não te conheço, mas este texto é pra te pedir, em público, a coisa mais importante que alguém que sonha ter um filho com ele (e pelo visto você parece querer) tem que ter: paciência. Eu não sei se você sabe como ele funciona, mas com ele é devagar. É por degrau, aos poucos, no momento certo, quando tiver que ser. Se você não der conta da loucura que é gostar de alguém com calma, se você não conseguir aguentar não aguentar, se você não suportar esperar o minuto dele, se você for tão intenso quanto eu e acordar no meio da madrugada, exausto, querendo saber se é mesmo amor, assim como trinta caras que vieram antes de mim fizeram com ele, eu sinto muito em lhe dizer: seu namoro, infelizmente, não vai durar.