Coitado, Murilo, cê não tem pena?

Passei as férias inteiras na casa do meu namorado. Ou melhor, na casa da mãe dele, onde ele mora há 35 anos. Foram exatos trinta dias do que apelidei de “que porra eu tô fazendo aqui?”, num misto de “arrumo minhas coisas e volto pro meu apartamento agora” e “tudo bem, aguenta esse inferno mais um pouco”. Resumindo: passar as férias com o mozão numas de ‘pré-casado’ é a pior coisa que você pode fazer na sua vida.

Aqui, ao leitor, preciso explicar minha decepção: acho que eu tava ocupado demais nos últimos um ano e oito meses, talvez deslumbrando essa coisa toda de “olha que homem fofo”, que acabei não percebendo: eu tenho um namorado que acha tudo na mão e é superprotegido pela mãe, pela ‘moça que arruma a casa’, vizinhos e amigos do trabalho, do bar, do tempo da escola.

É por que ele desenvolveu uma mania terrível de, a cada cinco minutos, interromper a conversa pra dar pequenos arrotos silenciosos? É por que ele corre o Campo Grande sete vezes, volta pra casa e mistura roupa podre de suor com roupa que acabou de sair do varal (aquelas passadinhas e com cheiro de amaciante), com a desculpa de “eu sou meio desligado”? Não. É porque minha sogra, esse ser tão especial, acha graça dos arrotos e não vê problema em, pacientemente, tirar as roupas sujas do armário e colocar na lavanderia. E, pra completar, acha um absurdo quando brigo com ele, essa criança de 35 anos. “Esse ‘menino’ corre, estuda, trabalha o dia todo, traz trabalho pra casa, visita a avó que tá nas últimas todo dia, sai de reunião e entra em outra, o tempo inteiro isso, e ainda traz chocolate pra você no meio dessa confusão rotineira. Coitado, Murilo, cê não tem pena?”. Sei. Eu faço duzentos freelas, só como quando minha pressão e minha hipoglicemia me avisam que eu vou morrer e nenhum ser humano bondoso tem pena de mim. É pra brincar de comparar?

Cuecas abandonadas no banheiro, sapatos por debaixo de móveis, meias e camisas espalhadas pela casa, não precisa ser do signo de virgem pra saber que essa bagunça, além de fazer você tropeçar vinte vezes pelos cômodos, tira qualquer um do sério. Mas custa, Murilo, você sair recolhendo tudo e arrumar tudo e ele bagunçar tudo de novo e de novo e você arrumar de novo sorrindo? Cuecas, sapatos, meias e camisas nasceram mesmo pra ficar em cantinhos. Você é chato. Coitado dele!

Meu amigo que se mudou de São Paulo pra Salvador começou a namorar um cara. Aqui vamos chamá-lo de André (adoro que esse é exatamente o nome dele). Pra ter uma vida ‘mais sólida’, meu amigo batalhou muuuuuito por um emprego na área de cinema (sim, no começo, a produtora que ele arranjou um freela queria que ele mergulhasse no glamour e na pose de trabalhar pra uma empresa que tinha grandes ideias e grandes prêmios e nome bacana no mercado. Tá, mas quem paga as contas?). Até que ele arranjou ‘uma coisa que dá pra levar’. Dirigia mais de duas horas por dia, porque trabalhava na Pituba e ia lá pros lados da Região Metropolitana, das sete da manhã até as oito da noite. Apesar disso tudo, domingo, único dia dele descansar, era dia de receber o tal do André, vulgo mozão fofo dele (tô começando a ter um pé atrás com esses mozões fofos), pra almoçar, e cozinhar uma tonelada de comida (que ele levaria e comeria durante a semana no trabalho). “Coitado, Murilo, cê não tem pena? Ninguém cozinha pra ele! Quer que ele pegue anemia ou coma pastel e refrigerante pra ter logo uma gastrite e morrer?”. E André vivinho da Silva dando altas gargalhadas com um desenho babaca (e qual não é?) da Discovery Kids, largado no sofá da sala. Coitado!

Verinha, que trabalha na casa do meu namorado desde que ele nasceu, e muito culpada por fazer dele um ser que acha tudo na mão, não pôde ir ao serviço na segunda. Eu, voluntariamente, me candidatei a ir à feira e comprar frutas, legumes, castanha e outros condimentos. Nesses trinta dias na casa do meu namorado, ajudei a Verinha em tudo: lavar banheiro, tirar lençol de cama, passar o aspirador em lugares mais altos pra aliviar o “a coluna não deixa mais”, proferido todos os dias. Mas, nesse dia que ela faltou e que eu fui à feira, acabei esquecendo de comprar a bananinha que ela faz a vitamina dele com whey protein no café da manhã. Aturei, por longas horas, o “coitaaaaaado” ecoando por aquele apartamento gigantesco em que todo mundo me demoniza. “Como ele vai sair pro trabalho sem a vitamina?”. “Meu Deus, imagino ele, esse menino de 1.92 de altura, fraquinho”. “Coitado”. “E agora?”.

Na quinta, fiquei metade do dia no hospital, fazendo uma quantidade insuportável de exames porque minha pressão e minha hipoglicemia caíram (talvez os duzentos freelas que não me deixam comer, talvez por não ter quem faça pra mim vitamina de banana com whey protein). Meu namorado ficou lá comigo, ao lado da cama do hospital, parceiro, apaixonado, tirando foto fazendo carinha de triste ao lado do meu soro. Não é um fofo?! Na legenda? “Frio aqui e minha mãe tá demorando pra trazer o casaco”. E o que todos os amigos internéticos dele comentaram sobre isso? “Coitado, gente, ninguém tem pena?”. Alguém me mate nesse hospital, por favor.