Como é difícil namorar um homem elitista de esquerda

E lá estava ele, dividindo um daqueles hambúrgueres gordurosos com amigos barbudos e tatuados na fila de uma daquelas festinhas alternativas da Commons. A mesma camisa da Los Hermanos que usou quando saímos pela primeira vez, faz aí uns cinco anos. O mesmo tênis da Oakley que ele comprou uma semana antes de terminarmos, faz aí uns três anos. Mais uma vez discutindo política, fazendo piada com político, indignado com a corrupção no país. Mais uma vez sendo o centro das atenções com aqueles velhos discursos imutáveis.

Mesmo ele estando acompanhado com o namorado, um desses tipos que faz stories de tudo no Instagram e tem a voz nasalada que dá ânsia de vômito, achei educado dar um abraço. Fui chegando perto, analisando, tentando entender do que ele ria agora, antes do meu oi. Um oi de quem já foi, um oi de quem não importa. Fui chegando mais perto e ele fez aquela cara de quem não acredita. Um mix de comida entalada na garganta e falta de ar, quase um infarto. Cheguei a pensar em parar ali mesmo. Dar um tchauzinho de longe e nem chegar mais perto. “Será que o bonitinho dos stories é ciumento?”, “Será que o bonitinho dos stories vai passar a noite inteira de cara fechada querendo saber quem eu sou?”. Mas antes que eu pudesse desistir, ele foi saindo da roda de amigos e gritando: “que porra de roupa é esta?”.

Quando namoramos, eu usava umas camisas com estampas bonitinhas, golas e mangas com a costura cortada, rasgada, um estilo mais solto, mais alternativo, como se eu quisesse gritar que eu não estava nem aí pro mundo sério que existia lá fora. Ele gostava, achava que assim eu tinha identidade, achava que assim eu contrariava a vida e seus escritórios e lojas de grifes, achava que assim eu combatia o capitalismo, achava um desrespeito eu me vestir como toda essa gente de classe média que no fundo se veste tudo igual. Mas depois que terminamos, que deixei de ser um daqueles jovens que tenta a todo custo ser descoladinho ou militante, que me tornei jornalista e arranjei um emprego que exigia um pouco de seriedade, eu precisava me posicionar. Cardigã, calça chino e camisa de botão.

Eu não entendia por que ele odiava a vida classe média se ele não saía da vida classe média. Por que falava tanto em pobre, mas nunca havia pisado numa favela. Por que odiava tanto os moradores do Corredor da Vitória e morava num apartamento de duzentos metros quadrados no Corredor da Vitória, com um deck cheio de gente rica e amigos cariocas de artistas baianos que só falavam em Leblon, Ipanema e Copacabana, e davam um foda-se pra todo o resto. Por que odiava esses bares com meninas burras e maquiadas, com marca brega de biquíni, e caras burros e bombados com camisa Polo, mas não deixava de beber neles toda semana. Mas, como eu estava apaixonado, passei anos me vestindo com camisas com estampas bonitinhas, golas e mangas com a costura cortada.

Lembro quando ele me pediu, baixinho, pra em hipótese alguma falar, na presença dos amigos das ciências sociais, filosofia e história, que eu era jornalista: “Fala que você escreve livros. A gente não gosta de jornalista. Jornalista é comprado pela mídia golpista”. E eu, autotélico, deixei pra lá. Os amigos dele tinham curiosidade com esse negócio de ser escritor e eu, porque estava apaixonado, enterrei meus quatro anos de faculdade numa omissão que deixava ele confortável. Lembro quando ele, no aniversário de um ano de namoro, disse que eu precisava ser mais politizado e parar de escrever sobre relacionamentos: “Porque isso não vai te dar nada a não ser meia dúzia de leitores doentes que precisam de psiquiatra. Vai escrever sobre a seca, sobre os índios, sobre os cortes nas universidades”. Quando a coisa começou a ir em direção da maconha, barraca de camping e trilha vida louca no Capão, resolvi colocar limites. “Eu quero ser repórter da Abril, da Folha de S.Paulo, de O Globo, ser correspondente internacional, juntar uma grana, rodar o mundo, comprar tudo o que eu quiser sem pena de gastar dinheiro”, falei, um dia, meio louco de vinho, num intervalo da preliminar. “Cê tá louco?”. Ele parou de beijar meu pescoço, tirou as pernas de cima da minha coxa, largou minha cintura e virou de lado – e eu senti, pela primeira vez, pela maneira como se enrolou no edredom, que nunca mais na vida ele se desenrolaria pra mim.

Lembro quando, numa discussão, ele resolveu ir embora de casa porque achava um desrespeito pra nacionalidade a família querer abandonar o Brasil, e foi morar com outros quatro estudantes em uma república, com um quarto e poucos móveis, perto do Garcia (lugar que não se batia panelas na época em que se batia panelas). Eu achava imaturo, ele, aos 28 anos, sem trabalho, almoçar macarrão instantâneo e dormir em colchonete fino. Até quando os mestrados e grupos de pesquisas e artigos e teses e projetos de doutorados na Federal serviriam de desculpa pra não procurar um emprego?

Ele e os amigos, todos de classe média alta, repetiam o discurso numa roda de cerveja: “estudo por amor, pra saber a história deste país, não por dinheiro”. E riam de mim, jornalista, acordando e dormindo num jornal, dependendo daquela grana pra me vestir, pra comer, pra sair. Eu saía de casa cedo pra pegar um ônibus, atravessar ruas e passarelas da Avenida Tancredo Neves e chegar ao trabalho, contando cada centavinho pra pagar plano médico e odontológico. Eles, sempre acordando onze da manhã, reclamando na internet de como o mundo anda uma merda. Eles, com discursos prontos e ideológicos, proclamando preconceitos e ironias antitudo em festinhas à beira da piscina com muita fumaça e música hipster. Eu tinha vontade de pichar no muro dos condomínios deles com letras garrafais: quem lava a cueca é a empregada. Quem paga a empregada é o papai. Perdi as contas de quantas vezs quis dizer para ele: “eu só acredito em militante que trabalha. Me empresta aí esse avô milionário e eu levanto bandeira no Largo da Dinha”.

Eu sempre me apaixonei por homens de esquerda. Eu sempre quis me casar com homens de esquerda. Talvez porque toda a libertação, desconstrução e quebras de paradigmas venham deles. Talvez porque eu também seja de esquerda. Acho que a elite esquerdista precisa existir, mas minha profissão, meu jeito de vestir e minha vontade de trabalhar onde quiser e ser quem eu sou também. “Que porra de roupa é esta?”, ele falou, como se quisesse dizer que fez bem em não continuar comigo. E eu, por tanto tempo, apaixonado por um homem perdido e com vergonha de amar um rapaz jornalista de bom coração, numa relação tóxica. Não dá para ter um relacionamento com alguém que quer se apropriar de você e deixá-lo trancado para o mundo.

Eu quis perguntar, antes de ir embora daquele abraço que nunca deveria ter existido, se ele ainda não tinha televisão, iPhone, redes sociais, aplicativos capitalistas e Coca-Cola na geladeira. Mas isso não me interessa mais. O que ele nunca teve na vida de burguês revoltado foi respeito.