Comprei uma cueca jockstrap tamanho P assim que percebi o fim do meu namoro

Então, você não quer dizer nada? Há quase dez minutos você tá aí mergulhando no silêncio. Eu quero. Preciso muito. Acho que foi um erro passar tanto tempo sem vir à terapia. O importante é que você está aqui hoje, você não acha? Acho… Claro. Mas nem sei por onde começar. É tanta coisa. Tanta coisa acontecendo e me fazendo analisar essas sensações e ao mesmo tempo não sentindo nada. Me sinto perdido, na verdade. Começa pelo meio, passa pelo início ou pula pro fim. Começa por onde você quiser, Murilo. Começa por hoje, por ontem, por alguma coisa que te incomoda há semanas. Tenta começar, apertar o gatilho. Tenta ir. Ok. Por ontem, então. É que ontem aconteceu. Aconteceu uma coisa que me chamou atenção. Quando eu saí do jornal, ali na Avenida Tancredo Neves, eu passei numa loja do Salvador Shopping e comprei uma cueca jockstrap. Bonita, preta, bem bonita. Eu nunca usei isso, nunca comprei isso, mas eu queria dar uma esquentada na relação, sabe? Engraçado, eu me senti bonito usando essa cueca. Só que daí, quando eu cheguei em casa, meu namorado me chamou no quarto e isso me deu um gelo. Eu tava no banheiro. Passei horas no banho. Me entupi de óleos e cremes pelo corpo. Eu me olhei no espelho e fiquei vinte minutos me encarando. Passei as mãos pelo meu peitoral, pelos ombros, pela nuca, pelos cabelos. Eu gostei do que vi. Me achei atraente, me achei sedutor, me achei interessante. Mas aí, quando meu namorado me chamou no quarto, eu não tive coragem de aparecer vestido com aquela cueca, daquele jeito que eu tava. Eu travei em frente ao espelho, fiquei anestesiado eroticamente. Depois, não sei explicar o que me deu, tomei outro banho e tirei todo creme e todo óleo presos em cada poro do meu corpo. Eu não queria aquilo pra mim. O que você acha que te impediu? Eu me impedi. Eu limitei que aquilo não acontecesse. Eu enxerguei a parede que dividia o banheiro e o quarto como espaços distintos. Acho que eu e meu namorado estamos em espaços distintos, que não são dicotômicos. Não sei, eu me achei falso, forçado. Eu acho que esse homem aí, sexy, provocante, que eu vi no espelho pode até ser que ele exista, entendeu? Mas não lá naquele contexto. Por quê? Porque nossa relação é fraterna demais. Somos mais amigos, parceiros, quase irmãos, sem a ânsia do sexo. Nunca foi aquela coisa de tirar a roupa às pressas, de transar no elevador, no mar, no estacionamento do supermercado, de sumir no meio de uma festa pra transar no banheiro. Nunca foi euforia, cê tá entendendo? Meu amigo dizque a gente se acomodou demais, dizque namoro não pode ficar em pijama e filminho em casa. Mas e aí, o que é que eu vou fazer? Uma agenda pra tentar salvar a minha relação? Às vezes eu acho que seria fácil com um destes caras que eu transava casualmente antes de namorar. Esses caras que a gente sai, bebe um pouco na Tropos e meia hora depois tá gemendo alto num motel sem vergonha de olhar depois na cara da recepcionista. Com ele, se ele me visse de jockstrap, principalmente agora que a nossa relação anda tão fragilizada, eu ia me sentir ridículo, dublado. Quer saber? quando eu tô lá, no meu quarto ou no quarto dele, assim, deitado na cama, de banho tomado, com a pele bem hidratada, cabelo cheirando a xampu, respirando calmo em cima do peito dele, parece que eu sou leve, parece que eu sou desencanado, parece que eu sou sexy, mas eu não sou nada disso com ele, pra ele. Eu não tô falando só no visual, não. Eu tô falando do que eu sinto por dentro, dessas pequenas discussões que a gente tem nas poucas horas que nos vemos durante o dia, das raivas por telefone desligado. Essa coisa pequena que vai crescendo e toma proporções enormes e que, às vezes, nem são resolvidas. Não acho que uma cueca jockstrap sirva como um extintor pra apagar os nossos problemas. Acho que não cabia eu ter me vestido daquele jeito. É isso. Mas, Murilo, se você mesmo que disse que estava se sentindo bonito…? Eu sei, mas sabe o que que é? Ia ficar evidente que eu tava atuando, performando, que eu tava fazendo um personagem, que eu tava querendo omitir, ir na contramão do que já não parece ter mais volta, um aceno de desespero, sabe? A maior impotência sexual que pode acontecer com qualquer ser humano é ter o dever de excitar, a obrigação de ficar excitado. Eu não queria isso. Eu acho constrangedor quando fica tão na cara assim. E… E hoje, você se imagina usando essa cueca, sem medo, com entrega, pra outro cara? Eu acho que prefiro não responder essa pergunta.