Não é sobre ser petista, é sobre ser humano

Há duas semanas passo mal. No domingo de eleição tive enxaqueca e rezei, coisa que desde os dezesseis anos raramente faço. Uma dor na nuca apegada a uma onda de refluxo, agorafobia, impaciência com fotos, medo de vídeos, nojo de fake news, querendo distância de pessoas e uma tristeza profunda alarmando nunca mais ser feliz. Antes (embora nunca tenha passado por algo tão emocionalmente extremo – essas coisas são sempre pela primeira vez) eu me trancava no quarto, ouvia um instrumental e melhorava meia hora após tomar um remedinho cuja bula diz: “livre da dor em meia hora”; agora, nem a promessa da bula me livra da dor, eu passo meias horas olhando o reloginho e nada: o que me resta é rezar, pedir ao meu Deus, livre de todo preconceito, pra superar esses tempos difíceis com gente burra, intolerante e que quer jogar ácido no Brasil: os eleitores de Bolsonaro.

Tá difícil ir ao supermercado e ouvir de gente que colava no ginásio, gritava com professor de história, nunca deu aula e nunca leu Paulo freire dizer que a “militarização de escolas públicas vai dar um jeito nesses adolescentes”. Tá complicado pegar um Uber e ouvir do motorista que “já deu pra essa petralhada toda, chega de proteger bandido”, tá, mas e aí, coloca um fascista no lugar do PT porque antes um incompetente, o cristão que tem fetiche por tortura, violento descontrolado, com discursos sexistas, preconceituosos contra gays e de apoio à ditadura, que quer explodir o país, alguém que vai trazer o regresso do que eleger o PT só por que você odeia o PT? “Chega, chega, chega de PT!!!! #PTnão” Oi? Só por que você é um suicida? Um homicida em potencial? Por que você decorou a frase “Deus acima de tudo e a democracia acima de todos”, mas ainda não entendeu o que é ser humano?

Fiz um favor pra mim em nome da minha sanidade mental: comprei um fone de ouvido gigante, vedação completa, e gasto minha “vontade de vomitar na cara dos frequentadores bolsonazis fitness” correndo ininterruptamente na esteira da academia ouvindo Criolo no Spotify. Mas, na hora do banho, infelizmente, não posso usar os fones e acabo ouvindo uma ou outra conversinha política dos que têm braços grandes e cérebro oco, os moleques de vinte anos que não viveram a Ditadura Militar e falam “que só assim pro Brasil entrar nos eixos”, aqueles azedos que estudaram no Anchieta, que agora tentam medicina na Ufba pela sétima vez e que falam “melhor Jair se acostumando” achando o melhor dos trocadilhos (talvez, pra eleitores de um homem como Bolsonaro, o melhor mesmo que eles tenham feito foi criar um trocadilho babaca pra representar). Esse tipo ganha fácil das meninas de voz anasalada que falam alto nos restaurantes da Pituba quando a competição é sobre burrice. Elas pelo menos falam em “influenciadoras digitais do Instagram” e “unhas de gel”, já eles colocam a minha vida, a dos meus amigos e leitores em jogo.

Hoje, voltando da Ufba, apertando o botão do elevador, Clécio, o novo porteiro do meu prédio, me viu com um adesivo do PT colado ao lado esquerdo da minha camisa e puxou papo enquanto eu esperava o elevador chegar: “ô, Murilo, você que é tão inteligente, que é professor, jornalista, que lê muito, vai votar mesmo no 13? Mas como, meu filho… não tenho nada contra essa coisa de ser gay, mas dar ‘kit gay’ pra criança?” Fiquei me perguntando se valia a pena perder alguns minutos discutindo com um senhor de 56 anos, evangélico sem senso crítico, criado em família extremamente machista do interior, e me limitei a dizer “não conheço e não confio no outro candidato”. Pensei em explicar sobre fake news (de novo), sobre essa coisa de se informar por WhatsApp e blog de zezinho não sei das quantas (de novo), mas a porta se abriu e eu me joguei naquele quadrado apertado (que causa claustrofobia em muita gente) como alguém que espera por um balão de oxigênio. O elevador que cabe quatro pessoas me pareceu bem maior que a mente daquele homem. Que suba e me livre.

Se a gente começar a problematizar, discutir e teorizar com todo dono de padaria da esquina que odeia pobre; taxista que adultera taxímetro, mas odeia corrupção; tiozão barrigudão de cerveja que tira foto com PM e acha que “tem contato na polícia”; publicitário seguidor e fã do MBL e professor de crossfit, talvez você viva muito pouco a sua vida e comece a sentir essas dores que sinto há duas semanas. Você ainda tem paciência de explicar a alguém que quer “gays, trans, putas, putos, gente pró-aborto, gente pró-relacionamento aberto e maconheiros mortos” sob o argumento de “é pela decência, é pela família?”. Se é pela decência e pela família que essa gente está preocupada, por que para o carro na Orla e leva travesti pra motel? Por que acaricia o peitinho da sobrinha e diz “tá crescendo, hein?!”? Por que manda a amante abortar? Por que perdoa o amigão que foi preso por não pagar pensão alimentícia, o outro que responde processo de estupro, o outro que foi demitido por justa causa por roubo, mas não aceita dois meninos de mãos dadas no Rio Vermelho que não cometeu nenhum crime?

Ter contatinhos é uma coisa bem triste

Acabo de chegar em casa com sacolas imensas de roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e um cachecol azul marinho. Se meu armário já não fecha mais com tantas roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e mais um cachecol, por que comprei tudo isso? Isabela, minha psicóloga, disse que quando estou nesses dias de enfiar mil coisas dentro da sacola e não saber o motivo, é uma maneira de suprir carências afetivas. Empilho as sacolas no canto do quarto, pego uma cervejinha na geladeira e coloco meu smartphone na caixa de som porque preciso ouvir The XX. A banda é meu desespero e diz trechos tão dolorosamente bonitos em todas as músicas e me acalma quando tudo parece impossível. Tomo banho, coloco meu pijama de bolinha, me esparramo na cama. Preciso comer alguma coisa urgente porque estou com hipoglicemia.

Abro o iFood e peço um yakisoba pra dois, só que apenas eu vou comer. Coloco mais um episódio da última temporada de Bates Motel. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura volta de mais um dia de trabalho e já não aguenta mais um dia de trabalho. Ele me manda um áudio de dois minutos. Explica que precisa muito me ver, “mas a minha vida é uma loucura, cê sabe, né?”. E me manda uma foto dele, só de cueca, com um livro de economia no peito, deitado com um daqueles cachorros grandões que ele tem. “Semana que vem. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas há quase um mês a gente tenta se ver e sempre acontece uma falta. Penso na palavra “falta” e isso de alguma forma me deixa triste. Lembro quando a gente se viu pela primeira vez na Virada Cultural de arquitetura. Eu desci as escadas meio bêbado e lá estava ele, lindo, querendo parecer jovem descolado com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada, todo mundo riu, e demorei horas pra me levantar, louco pra descobrir, ao menos, a marca da pasta de dente que ele usava.

Ouço algúem falar no interfone: “a entrega chegou”. Como todo o yakisoba e continuo com fome. Abro o iFood e peço um hambúrguer gourmet. Daqueles com carnes triplicadas e um quilo de alface e queijos e molhos e tudo. Pego outra cervejinha na geladeira. Coloco mais um episódio de Please Like Me. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já foi dormir chapado de tanta maconha. De repente, ele fica online e me manda uma mensagem dizendo que “a coluna tá foda”, que eu dou “um tesão danado” a ele, mas que com a coluna desse jeito nem rola. Que a gente precisa se ver e finalmente transar. Mas que “tá foda”. E me manda uma foto dele, só de cueca, cercado de livros de Freud, Nietzsche, Sartre e bitucas de maconha. “Vai rolar, fique sussa. Ninquém mais do que eu quer isso. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas desde o ano passado ele fala isso. Desde o ano passado a gente combina e desmarca e combina de novo. Como todo o hamburguer enquanto converso com ele. Ele me fala sobre ‘sentir saudades de quem você era’ e isso me deixa um pouco triste. Lembro quando ele puxou conversa comigo, no terraço do Lalá, e me perguntou se iria pegar mal, nos primeiros trinta minutos de conversa, pegar meu telefone. Seu papo galanteador honesto me excitou de uma forma tão bonita que eu não conseguia olhar para os lados senão para os seus olhos.

Abro o iFood e peço uma pizza de gorgonzola tamanho família. Pego mais uma cervejinha na geladeira. Procuro álbuns e mais álbuns no Spotify. Talvez seja uma boa ouvir uns blues doloridos. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já deixou o namorado em casa e voltou no carro grandão se sentindo vazio. Pego outra cervejinha na geladeira. Ele manda um áudio acompanhado de um emoji com carinha triste. “Não aguento mais meu relacionamento, cê entende?”. Eu explico pra ele que eu me sentiria muito mal saindo e indo pra cama com ele sabendo que tem namorado. Ele fala que ele “não quer isso, mas que ele quer”. “Quer vir pra cá pra casa agora?”. “Vem pra minha?”. “Mas cê mora um pouco longe”. “E eu tenho medo de ir ao Centro a essa hora”. Cê não prefere um motel no meio do caminho dos dois?”. “Eu prefiro que a gente deixe pra semana que vem”. Sei. Desde janeiro ele me promete terminar com o namorado e “finalmente acontecer alguma coisa”. Lembro quando ele, na mesa com o namorado, não parava de me olhar no rodízio que fui com os meus amigos. Ele me seguiu e na fila do banheiro fingiu se esbarrar sem querer e me pediu desculpas. Foi o sorriso mais safado e bonito que eu vi até hoje.

Faço mais um pedido no iFood, coloco mais música, mais episódios de séries, faço mais compras pela internet, bebo mais três, cinco, quinze cervejinhas, falo com mais trinta e dois contatos. Ninguém pode hoje. Ninguém pode agora. Só semana que vem. E então eu lembro dele, o cara que se ainda existisse me tirava desses consumos que não levam a nada. O cara que se não fosse embora, me colocaria de conchinha num abraço gigantesco, só pra me trazer de volta a sensação de que o resto do mundo não faz sentido. Mas eu não tenho mais esse cara. Você não acha triste ter uma lista de contatinhos quando você já conheceu o cara mais incrível do universo, mas esse cara surtou e sumiu? Me encolho na cama, em posição fetal, como todas as noites, e choro de novo. Eu estou cada vez mais louco, gordo, bêbado, triste, carente, falido, deprimido, cheio de contatos, mas sempre sozinho.

O cara que bebe Heineken e toca pandeiro no bar Velho Espanha

No meio de pessoas bêbadas, garrafas vazias de cerveja no canto da mesa, fumaça de cigarro deixando o bar todo branco e meus olhos embaçados, ele surgiu com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão, se unindo a uma mesa gigante de amigos com leveza, sorrisos largos e vários instrumentos. O tédio de ouvir os mesmos problemas dos meus amigos me convidando pra ir embora estacionou naqueles olhos claros melancólicos e ao mesmo tempo inocentes. Ele me olhou com amor enquanto bebia mais um gole de Heineken e tocava um pouco de pandeiro e, então, ouvir meus amigos reclamando de tudo e chorando por tudo fez sentido e por alguma razão minha vida também.

Foram dois ou três anos de uma entrega que, além de beirar a obsessão, era ridícula: eu esperava horas no banquinho verde da Ufba até ele sair da aula e eu, finalmente, fingir “acaso”, “coincidência”; eu ia nos mesmos shows de rap do flyer que ele compartilhava no Facebook só pra mostrar pra ele que eu era legal; eu andava pelas ruas, farmácias e supermercados achando que todo cara a dois metros de mim era ele. Cheguei ao ponto de um dia sair correndo no meio dos carros em movimento só pra entrar no mesmo ônibus que ele. Passei a comprar roupas parecidas, cortar o cabelo parecido e até me olhar no espelho e também achar que eu era ele. Eu lia o que ele lia, comprava sorvete da marca que ele gostava, aprendi a gostar de beber Heineken só porque ele bebia. Fiquei louco de pedra mesmo. Eu não via mais TV, não comia direito, não saía com meus amigos, não achava graça de nada, não sabia por que eu precisava acordar no dia seguinte. Adotei um cachorro, tentei academia, cartomante, uma nova graduação, curso de astrologia, numerologia, centro espírita. Nada dava jeito. A única coisa que adiantava por alguns minutos era ir ao bar Velho Espanha todos os dias e esperar ele chegar lá com leveza, sorriso largo e o pandeirinho na mão. Mas ele não aparecia nunca. E eu, sozinho na mesa do bar, chorava a noite toda porque o tal do cara perfeito não queria saber de mim.

Até hoje meus amigos me levam no mesmo bar e me perguntam: “E cadê ele?”. Eu dou uma risada sem graça e respondo mais sem graça ainda: “Já foi. Era coisa de quando eu tinha 23 anos”, querendo me desculpar com o mundo por encher o saco por dois ou três anos com a minha monotemática de só falar sobre ele.

Toda vez que eu pensava em algum texto, projeto, trabalho, eu me inspirava na cidade que ele nasceu, na banda que ele adorava, nas frases dele no status do WhatsApp, no sinal que ele tem no pinto. Foi o único cara que eu amei de verdade. Lembro de um dia, na época, sentir uma coisa absurda: todas as vezes que o ônibus passava perto do cortiço que ele morava, eu tinha crises de ansiedade e pedia a Deus: “por favor, não posso morrer antes de dar um beijo nele pela última vez”.

A república de quatro quartos onde ele e mais 500 estudantes comunistas da Ufba dormiam ficava no beco mais escuro do Dois de Julho. As paredes eram cheias de colagens de cantores de rap, do Che Guevara, Karl Marx, pôster de palestras da USP em que ele foi de caravana e um ou outro recorte de jornal que fala sobre mudanças históricas como casamento gay legalizado. Eu sabia de cor a ordem das músicas de Chico, Cazuza, Caetano, Cartola e Gilberto Gil porque ele repetia os mesmos álbuns em todos os nossos encontros. A emoção que eu tinha em segurar a mão dele, de sentir o calor do abraço dele, de me acalentar no peitoral dele me fazia sentir completamente protegido. Eu sentia tudo tão em carne viva que eu sempre inventava uma desculpa e ia embora com medo de vomitar ou explodir.

Minha loucura de gostar tanto dele acabou junto com a faculdade. Ele sumiu numa daquelas trilhas da Chapada Diamantina onde todo mundo vive maconhado e eu fui atrás de um emprego. Tive um milhão de namorados, aprendi a gostar menos, o que foi uma pena. E aprendi a ser mais sarcástico com a vida, o que também foi lamentável, mas fundamental. Viver pra sempre tão entregue, bobo, burro, estúpido, cego e fazendo carnaval pra tudo teria sido desastroso.

Semana passada recebi uma ligação com um número desconhecido. A mesma voz de sempre, o mesmo jeito calmo de sempre, a mesma respiração de sempre, o mesmo nervosismo que sempre tive quando converso com ele. O desejo de beijá-lo ainda me fazia implorar a Deus pra que me desse uma última chance e não me fizesse morrer de dengue, febre amarela, H1N1. Eu ainda era aquele rapaz bobo, de 23 anos, que guardava as sobras obsessivas e puras do primeiro amor.

Coloquei uma roupa bem bonita, usei um perfume bem caro, fui o caminho inteiro me dizendo: “Agora você é um homem, comporte-se como um homem” e implorando a Deus para que ao menos desta vez me ajudasse a controlar as pernas que sempre tremiam e o coração que sempre disparava.

Quando eu cheguei, ele estava lá. Ele me mandou uma mensagem “olhe pra trás”. Estalei os dedos, mordi os lábios, suspirei forte pra controlar as batidas do coração sempre saindo pela boca, segurei as pernas disfarçadamente, fechei os olhos. Aproximei os óculos mais perto dos olhos, revirei o bar inteiro, olhei fixamente pra tudo, olhei de novo, olhei outra vez. Encontrei. Não. Sério? O que a vida fez com aquele cara que usava chinelo e tocava pandeiro no Velho Espanha? Ele se sentou ao meu lado, de paletó, gravata, barba alinhada e cabelos penteados com gel fixador. Todo bem vestido, mas com olhos claros apagados e limitados. Disse que abriu um escritório e mudou de vida. Disse que vez em quando sente saudade e toca seu pandeirinho no bar. Sozinho, na maioria das vezes, porque seus amigos “casaram e tiveram filhos ou continuam morando na mesma república”. Sua gravata era brega, o cheiro do seu perfume era forte demais e seu papo, agora, fazia sentido ter pernas descontroladas: dava muito sono.

Nos beijamos no bar, no carro do ano dele, no apartamento imenso dele de novecentos quartos. Não senti nada. Eu pedia a Deus pra que agora eu finalmente morresse. O cara perfeito dos olhos claros, da leveza, do sorriso largo, do show de rap, das colagens na parede do cortiço e das músicas maravilhosas pra abraçar e me fazer sentir seguro era agora apenas mais um cara desinteressante que tocava pandeiro e bebia Heineken. Como eu fui burro de quase morrer pelo cara do pandeiro? Me despedi dele e fui lá no Velho Espanha. Dancei e cantei com um grupo de caras de chinelo que tocava pandeirinho. Voltei meio bêbado pro meu apartamento vazio amando e odiando a passagem de tempo. Amando porque nada do que foi será, odiando porque nada do que foi será.

A família do meu namorado é de extrema direita

Texto: Murilo Melo

Minha sogra me mandou uma foto de um gatinho que ela achou na rua. Ele estava com fome, sujo, magrinho e com alguma doença de pele. Ela, com o maior coração do mundo, enrolou o filhote em uma toalha e levou pra casa. Deu banho, comida, “arranjou” veterinário e fez dele um novo residente. Nos dias posteriores, passei a receber, por WhatsApp, uma série de fotos do gatinho numa rotina que ela apelidou de “olha que coisa fofa e bagunceira”. Era o gatinho dormindo dentro do armário da área de serviço, esparramado no edredom e até na posição “colocando ovinho” em cima da mesa de leitura.

Eu estava na varanda, com minha mãe ao telefone, quando recebi um interfone do meu porteiro. Era meu sogro, na porta do prédio onde moro, com ânsia de dizer que deu tudo certo: conseguiu marcar a cirurgia da minha mãe sem precisar esperar a carência do plano de saúde. Como o senhor fez isso? Eu sou um dos melhores advogados de Salvador. Mas e daí? Entrei com uma ação judicial. O quê? Isso mesmo. Aquele homem, ali, salvou a vida da minha mãe e se tornou, pra mim e pra toda a minha família, espécie de Deus.

Quando eu me mudei da Cidade Baixa pra Orla, o irmão mais velho do meu namorado abdicou do único dia de folga pra me ajudar na mudança. Eram caixas imensas e sofás pesados e geladeira e fogão. Ele, prontamente, resolveu tudo com um sorriso enorme. Chamou uns amigos que eu nem conhecia e, em meia hora, eu já estava no apartamento novo. Não sei se ele me salvou tanto quanto o irmão mais novo dele, que, em dez minutos, resolveu o “apagão” do meu computador e recuperou todos os meus documentos e projetos que, por vacilo, não guardei na nuvem. Enfim, toda lembrança boa da família do meu namorado vem de gestos bonitos, de bondade, de delicadeza, de humanidade.

Nunca entendi por que sempre era um sacrifício pro meu namorado passar o Natal com a família. Nunca entendi por que, no comecinho de tudo, era sempre “outro dia eu te levo pra você conhecer” e isso por quase seis meses sem me apresentar, sem me levar às festas. Nunca entendi por que, numa roda de amigos, em que todo mundo falava sobre a infância, ele ficava impaciente e se levantava e mudava de assunto. Por que, um homem tão bom como ele, fugia de uma família tão boa? Por que, um homem que pensava em ter filhos, tão carinhoso e afetivo, tinha asco da própria família? Uma vez, dentro do carro, ele me perguntou: “cê acha que é possível nascer na família errada?”, e eu não entendi nada.

Lembro da primeira vez que ele me apresentou à família. O avô dele, nos intervalos de “este ano é meu último ano de vida”, me falou que “se arrepende de não ter saído do Brasil com tanto corrupto do PT”, e meu namorado, ao pé do meu ouvido, se desculpou dizendo que o avô não anda bem da cabeça. Uma vez, num churrasco do tio, o pai dele falou algo como “não acredito que estão fazendo com que as crianças achem que travesti é normal”, e meu namorado ficou super nervoso, inventou um assunto, puxou meu braço e me levou pra varanda. No fim do ano, a avó dele disse que “acha um absurdo gente ganhar Bolsa Família só porque é pobre” e “por que não trabalha?”, e meu namorado inventou pedir uma pizza quando ninguém estava com fome.

No domingo, no almoço de aniversário de 35 anos de casamento dos pais, achei que era uma boa chance de conhecer melhor a família dele. Talvez falar sobre cinema, artes plásticas, febre amarela. Talvez não falar quase nada e só ouvir. Afinal, com aquela mesa imensa e cheia de louças portuguesas ao estilo novela de Manoel Carlos, em pleno Corredor da Vitória, com 256 parentes presentes, talvez o melhor mesmo fosse não falar muita coisa. Mas como permanecer de boca fechada quando se ouve, enquanto você pede o salmão com molho de maracujá, que “finalmente, Lula, o líder da bandidagem, foi preso”, proferida da boca de um dos tios do meu querido namorado que há muito tempo não presta contas à Receita Federal? Como ficar de boca fechada quando a prima dele, uma baixinha malhada, aponta para a TV e diz que “as feministas que estão no protesto só estão nessa bagunça porque não têm marido e roupa pra lavar”?

Que remédio vocês tomam pra suportar gente que acredita nunca ter existido a ditadura e que talvez seja ‘tranquilão’ a intervenção militar? Que assiste aqueles noticiários sensacionalistas de meio-dia com o maior prazer do universo e sente o maior prazer do universo quando ouve o apresentador dizer “que a polícia tem que dar porrada e matar mesmo”?  Como você se sente quando o irmão mais velho do seu mozão bate palmas para as declarações parciais do tal Mourão “porque esse, sim, faz justiça”? O que você faz quando a mãe de um gay, do gay que você ama, diz achar “gay uma coisa normal, mas os que não são discretos e bem educados viram uma afronta séria e perigosa à vida das pessoas de bem”?

Como você consegue ficar de boca fechada, no meio de um almoço importante, quando os primos dele do Oficina se unem com o irmão mais novo dele do Anchieta e publicam vídeos imbecis dos discursos imbecis de Bolsonaro, Crivella e Feliciano “porque eles falam muitas coisas boas”, mas na verdade só querem ganhar like no YouTube? Que gente é essa que coloca ‘curtidas’ virtuais à frente de uma nação? O que você faz com esses adolescentes que passam o dia na internet publicando fake news de Pabllo Vittar e a Lei Rouanet? Que comemoram a prisão de Lula “porque agora Bolsonaro lidera a pesquisa”. Como amar a família do cara que você mais ama na vida, uma família que apoia um candidato à presidência da república com discursos sexistas, racistas e homofóbicos? A família que resolveu explodir o mundo e defender um homem sem projeto e com terrorismo no coração. Só quem odeia a vida e deseja que a humanidade morra pode gostar desse homem.

Quando o assunto descambou para “um analfabeto não deveria nem ser presidente de associação de bairro”, um nó travou na garganta e eu não suportei. Lembrei que nasci numa família petista. Quando Lula foi eleito pela primeira vez, lembro da minha mãe chorando na cozinha, acreditando, pela última vez, em um homem que poderia mudar a história deste país. Estar ali, no meio de tanta gente ignorante e sem boa leitura, era ofender a minha mãe, as minhas ideologias e a minha lucidez. Meu namorado, de esquerda como eu, apertou a minha mão firme e, ali, sem fazer isso com as palavras, me explicou por que tinha asco daquela parentada toda. Como uma “família do bem”, que adota animais e ajuda pessoas, acha normal que travesti seja morta?, perguntei para todos eles quando terminaram de comer o pudim. No meio de risadas altas, todo mundo ficou em silêncio. Fui embora. A mãe dele, que sempre me mandava mensagens do “gatinho fofo e bagunceiro”, se calou desde domingo. Hoje é quarta-feira. Ninguém falou comigo até agora. Graças a Deus.

Onde encontrar pessoas interessantes pra paquerar em Salvador?

Texto: Murilo Melo

Não sei mais pra onde ir durante a semana. Nos fins de semana eu já combinei comigo mesmo não sair de casa: bares e boates lotadas de pessoas com dezessete, dezoito anos — faixa etária não tão absurdamente distante da minha, mas com bom senso bem longe. Nada contra adolescentes ou recém-adultos, alguns até conseguem ter diálogo além de “série” ou de falar, a cada frase, mil vezes a palavra “insano”. Aqui eu tô falando de proliferação desse tipo. Não quero dançar os hits da Jovem Pan ou de mais um MC babaca de Youtube e ter meu braço puxado por um garoto, aprendiz de idiota, bêbado quando ainda nem é madrugada, que fala rolê, véi, trampo. Tenho vontade de fazer a #loka e gritar “Sai daquiiiiiiiiiiii” até o DJ parar o set.

Há um mês decidi banir da minha vida qualquer coisa que seja sinônimo de “ferveção” e só sair de casa pra jantar em restaurantes com música baixa, ir aos cinemas de rua ou talvez um ou outro barzinho com gente que não grita, desses que têm aberto aos montes nas ruas escondidas do Rio Vermelho. Mas a verdade é que, por mais que eu seja apaixonado por meus amigos, filmes de arte e silêncio, meus hormônios de vinte e poucos anos começaram a implorar, quase explodindo de dentro da calça, um homem que aperte meu corpo contra o dele, esfregue a barba dele na minha e arranque um beijo desses de imobilizar a língua. Mas onde eu vou flertar em Salvador?

Já tentei paquerar alguns caras na Cultura e cafeterias como Terrasse. Nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “fica aí no seu mundo porque eu tô no meu”, ocupados com 549 livros pra ler até o fim do ano. Já tentei paquerar outros no Lalá. Também nunca dá certo. Eles sempre me olham com aquela cara de “gato, só vim ouvir uma boa música e beber uma cerveja com uns amigos, não crie”. Tentei aquelas sociais que os amigos sempre fazem num apê na Barra e que sempre criam a esperança de “se são seus amigos, provavelmente são interessantes”. Infelizmente essas sociais são cheias de casais querendo fazer sexo a três e me olham como “experimento”, e um ou outro esquizofrênico desesperado pra achar o primeiro que dá bola só porque os amigos estão todos acompanhados. Deus me livre de gente desesperada, ainda que eu seja quase um.

Botecos playbas, como o Bar do Guga, com garotos que olham pras bundas dos caras, exatamente onde fica a carteira, e rapazes que exibem a chave do Jaguar, eu tô fora. Lebowski ou Irish Pub, com roqueiros sebosos, drogados e com alargadores de trinta centímetro, também tô fora. Festinhas alternativas da Commons, como a Back in Bahia, com garotas alternativas hippie chique que falam sobre favela, mas nunca passaram por uma, insistindo naquela voz entre o nojo e o nasalado (elas conseguem unir a vontade de serem meigas com a vontade de serem manos com a vontade de serem patos) e rapazes garoto propaganda das camisetas Soul Dila, com bigode handlebar e cabelinhos sebosos samurai à la Tiago Iorc, bissexuais e com cheiro de maconha, tô mais do que fora.

Bares do Centro ou da Pituba, com atendimento bom, mas com suas mesas lotadas de rapazes que estão cansados de relacionamentos e já nem paqueram. O tipo assexuado que prefere bares abarrotados do que engarrafamentos, que reúne vários amigos da firma pra falar de trabalho, que se acha descolado só porque tirou a gravata e abriu dois botões da camisa e que fala tudo metade em inglês ao estilo “essa vida é uma bosta, but i love to live”, tô fora. O que sobra então? O samba no Santo Antônio? Gerônimo? Pra ficar em pé? Nem pensar. Até gosto da música, mas, em ambos os lugares, me sinto um ET. Ou todos são um ET e eu que não sou? Tenho vontade de vestir uma camiseta escrita “cansei” e, conformado com a minha condição, pedir um Uber e voltar pra casa pra assistir a reprise de people and arts.

Odeio sol, então, quando vou à praia (no Porto ou no Buracão), é pela manhã. E nesse horário, quem é interessante, além de se isolar com um fone imenso nos ouvidos e óculos imensos na cara, acorda cedo (quase de madrugada) e vai embora mais do que cedo, aí fica aquela sensação (verdadeira) de que, às nove da manhã, a hora que eu chego, só os idiotas, sem óculos e fones, vão à praia e às baladinhas praianas.

Voltei a frequentar as baladinhas alternativas de rock que eu frequentava na adolescência e que eu encontrava gente bem interessante. Os adolescentes agora são adultos. Gente mais velha, mais legal, roupas legais, jeito de falar legal, estilo legal, papo legal… Pessoas tão legais que se bastam e não acham ninguém legal pra nada além de um papo legal.

WhatsApp, Tinder, Facebook… Me pergunto onde foi parar a única coisa boa na conquista: a tal da química. Mas então onde, meu Deus? Onde estão as pessoas interessantes de Salvador? Até quando eu vou ficar trancafiado em casa, entediado pela mesmice e pelo vazio da vida social, sobretudo noturna? Até quando eu vou continuar sentindo dissintonia? Os anos estão passando, meus ex já estão quase todos casados, meus amigos já falam em ter um bebê, quando é domingo à noite, Réveillon ou lugares cheios de casais, eu sinto falta de ter alguém, eu sinto falta de tudo que se faz a dois. Até quando vou continuar insistindo nesses lugares idiotas, com pessoas idiotas, todas iguais, dizendo a mesma coisa, com a mesma roupa, com o mesmo cabelo, ouvindo o mesmo tipo de música idiota e me sentindo o mais idiota de todos?

Olha direito ao seu redor, meus amigos dizem. Tem alguém interessante. Tem sim. Ele chega tão bonito e me olha tão bonito e de repente beija outro cara que chega tão feio. O outro aparece com o sorriso enorme em uma boca que, em dez minutos, beija quinze e você não aceita ser o “dezesseis”. Meus amigos me criticam porque eu só ando nos mesmos lugares, em círculo. Mas pra onde vou nessa cidade? Pro Subúrbio? A 500 quilômetros da minha casa?

Foi então que eu descobri. Eu e o homem interessante nos desencontramos. Ele dança na pista e eu entro no banheiro. Ele espera o 99POP na porta e eu vou pegar outra cerveja. Ele vai no mesmo supermercado, mas ficamos em seções opostas, separados por uma prateleira gigante de enlatados. Ele está em casa, enrolado no edredom, com preguiça de escolher um sapato que combine com todo o resto. Por que ele sairia? Ele tem NET Now, Netflix, Globo Play, HBO. Ele está no mesmo lugar que eu, pensando nas mesmas coisas que eu.

Você não acha triste saber que quanto mais interessante um homem for, menor a chance de você se esbarrar com ele na rua? Você não acha triste pertencer a tudo e não pertencer a nada? Não acha triste voltar pra casa todo sábado querendo ser de alguém e, no domingo, acordar sentindo o maior vazio do mundo? Não é triste passar o débito mais uma vez e saber mais uma vez que o que realmente importa não se compra? Não é triste saber que o homem ideal pra você, aquele que odeia lugares cheios e música trincando o ouvido, está no mesmo lugar que você, mas vocês não se encontram? Não é triste saber que quando você decide ficar em casa, de pijama e pantufas, comendo brigadeirão de micro-ondas e assistindo um desses filmes de comédia romântica com final previsível, ele atende uma ligação no meio da noite e vai pra um desses inferninhos charmosos com gente que fuma, dança e bebe loucamente e ele, mesmo com todas essas opções, se sente deslocado? Não é triste saber que quando ele vai embora de uma dessas festinhas descoladas, você está chegando?

E aí, espera por quem?

 

Sexta à tarde fui muito feliz

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Mandar o texto da revista pra minha editora, por e-mail, até duas horas. Mas, antes disso, pegar umas duas aspas com a psicóloga pra fechar o último parágrafo da matéria de comportamento que vai sair na próxima edição. Antes de mandar o texto e antes de ligar pra pegar as aspas com a psicóloga, preciso responder uns e-mails atrasados de outra matéria, inclusive o de um cara que trabalha na assessoria de um cara que é assistente da menina que me liga de meia em meia hora e que eu não sei se o nome dela é com W ou com V. Wanessa? Vanessa? Sacanagem escrever nome errado.

Procuro os e-mails atrasados ao mesmo tempo que ligo do telefone fixo para a psicóloga ao mesmo tempo que cancelo a ligação no meu celular ao mesmo tempo que abaixo o som da caixinha ao mesmo tempo que tento não deixar a porta do armário bater ao mesmo tempo que aviso pro cara da NET que eu não quero fazer um combo de TV e internet. Desço as escadas da Redação desesperadamente em busca de café. Na volta, abro o Word e reviso o texto. Enquanto não encontro um sinônimo melhor para a palavra “fechar”, escrevo bem grande na agenda que segunda que vem tem DENTISTA. O computador trava, a menina da arte, irritada, me avisa que o texto da matéria de moda estourou a página, minha editora quer saber se a matéria de economia já tá pronta.

De repente. De repente. Você me manda uma foto sua, de ponta-cabeça no chão da minha casa, fazendo careta, tentando equilibrar uma maçã em cada pé. Dou risada alta e minha editora me olha torto sem entender nada. A Redação em fechamento e eu com tempo pra ser feliz? Entrego a matéria e vou embora da Revista.

Mandar o roteiro dos monólogos pra diretora de teatro, por email, até as quatro. Pego um Uber, abro o notebook, revejo os monólogos. Ainda não é nada disso que eu quero pro roteiro, vou ter que reescrever. Chego em casa e tenho outro texto pra terminar. Tem que ser às pressas. É uma crítica de TV que escrevo semanalmente pro iBahia. Se demorar muito, o assunto fica velho. Bebo mais um iogurte e como mais um pedaço de bolo por pura ansiedade. De novo toca o telefone e é minha mãe querendo saber se eu já almocei. O zelador quer saber, pelo interfone, se tem lixo no apartamento. A diretora do teatro quer saber cadê os monólogos. Negocio o prazo. Me ligam da Revista querendo que eu faça um guia, de última hora, pra seção de turismo. Mas cadê os outros repórteres? Só eu escrevo nessa porra? E o texto pro guia, que tamanho é? Ouço a voz da menina da arte no fundo da ligação, irritada, pedindo pra que me falem pra eu não estourar a página com tanto texto. Relaxa, gata, capaz de nem ter texto.

De repente. De repente. Eu sentado no sofá. Você deitado no tapete, colocando o resto que sobra da sua cabeça na pontinha do meu pé. Uma mecha do seu cabelo caído no tapete enquanto você se diverte com um joguinho idiota no iPad. Esses dias eu tô corrido. Mas tô ficando há três meses e vinte e oito dias com você, um menino de vinte e nove anos que não larga o joguinho idiota do iPad. Depois, do nada. Do nada. Eu deitado no sofá. Finjo que estou dormindo. E você passa as pontas dos dedos nos meus pés pra que eu sinta cócegas. E eu olho rápido pra flagrar você, mas você faz de conta que está roncando no tapete, abraçado com o meu cachorro. No mesmo segundo, a gente dá a mão. E dá a outra. E daria uma terceira se fosse possível. E você beija a minha nuca e fala com a voz mais doce do mundo que não queria ter que ir embora. E eu te imploro, com a voz mais doce do mundo, pra você desistir de tudo e ficar só mais uma semana. Daí fingimos que é sono. E dá vontade de rir porque nem era a hora e nem era pra isso.

Metade dos textos dos monólogos reescritos e não tem como renegociar. Entregar os textos do guia em meia hora é quase impossível. Falta mais da metade da crítica e eu tenho que entregar hoje. Minha garganta dói muito. Tá quente, mas é inverno, mas tá abafado. Minha mãe me liga de novo. Dessa vez ela quer saber se eu tô me virando bem nesses dias que ela está viajando. Alguém me manda uma mensagem pra beber uma cerveja porque hoje é sexta. Estão me ligando e eu não sei quem é. Preciso reler as coisas e fazer mais e mais e mais. Preciso pagar milhares de contas. Preciso entender por que a máquina de lavar não liga. Preciso pensar em pautas legais pra entregar amanhã pra minha editora da Yacht. Amanhã tem a festa de Felipe. Marcella tá indo embora pra Minas domingo e eu nem liguei. Preciso inventar novas cenas pros monólogos, pensar em um lugar que eu possa almoçar barato nas próximas semanas, ler quarenta e nove páginas da xerox pra aula de segunda, trocar de celular, tomo Rivotril ou Ritalina? Preciso pagar cinco mil reais pra minha mãe. Oi? Não tenho nem os 100 reais pra moça da faxina.

De repente. De repente. Você me conta que não tem dó de matar os insetos que os livros de biologia não explicam o que são e nem pra que servem. Esses insetos que querem entrar no nosso nariz sem nenhum medo de morrer. Aí depois, do nada. Do nada. Você coça os olhos muito forte e levanta pra arrumar as coisas e ir embora. E desiste. E diz que tem muito medo de coisas como essa que tá acontecendo entre a gente. Dessa coisa de gostar além do sexo. E eu penso que, no fundo, nem tão fundo assim, tenho medo também, demais.

Aí depois, do nada. Do nada. Você dispara flashes da câmera do celular. E eu falo que eu odeio quando você tira foto minha sem avisar. E lá vou eu, sem disfarçar, rir da sua careta e ficar besta com os nossos sorrisos perfeitos em cada foto mal tirada, sem foco, fotos que juntando mil não valem uma. E quando vou ver, já estou embolando na cama com você. Já estou te amando bem mais do que deveria, bem mais do que a vida me permite. Desisti desse dia corrido. Nunca fui tão feliz como hoje. Você me dá uma ansiedade boa, um frio na barriga desses que eu não sentia mais. Então preciso aproveitar.

Se até o próximo Carnaval você ainda gostar de mim, eu juro gostar também de você.

Hoje não tem texto

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Peço perdão ao leitor que acompanha este espaço semanalmente, mas hoje não publicarei crônica nem crônica meio conto, como queiram chamar. Tentei falar com André Uzêda, mas não consegui. Não sei o que exatamente um editor faria numa situação dessas. Talvez ele avisasse a vocês, leitores, algo como “hoje, excepcionalmente, o colunista surtou”.

Eu poderia argumentar que voltei a ter crises de ansiedade terríveis que impedem, entre outras mil coisas, cumprir prazos. E seria verdade. Eu poderia argumentar que enjoei do barulhinho dos meus dedos saltitando no teclado, do meu cisto sinovial que cresce no meu punho esquerdo, da minha crise alérgica que me faz espirrar sem parar no auge da inspiração – o que faz debandar pra não inspiração -, do quanto eu acordo exausto por sonhar com trechos dos meus textos e por falar frases dos meus textos enquanto durmo.

Mas o motivo real é que são oito e quarenta e seis da manhã de quarta-feira. Sentei aqui na escrivaninha de casa pra escrever o texto da coluna de hoje, mas eu não consegui escrever nada, juro que tentei escrever, mas não saiu nada e. Eu não sei o que dizer e. Não tenho nada pra falar. Ou quase nada. Ou talvez essas coisas que eu diga só interessam a mim, não ao leitor. Então, hoje, vocês precisam exercitar a tolerância e a compreensão comigo. Hoje tem melancolia, prantos e descontentamentos.

Vejam só que loucura: resolvi mexer com matemática e concluí que há sete meses escrevo aqui, uma vez por semana. São pelo menos 32 semanas, pelo menos 32 crônicas ou crônicas meio conto, como queiram chamar. É assustador. Virei uma máquina literária. Um escritor mercadológico que escreve, escreve, escreve e escreve o tempo inteiro. Sofro de ansiedade quando escrevo e sofro mais ainda quando publico. Sofro porque me exponho. Sofro porque eu não exponho o que tenho de normal, tenho pavor de ser normal. Essa intimidade que a gente pode ter com o público, de falar sobre nossa vida, eu gosto. Mas isso me dá uma canseira danada.

Acho que esse é o problema: ando cansado. Cansado porque a vida te bate, te afunda no poço, te obriga a escalar e sair desse poço. E você recomeça. E você acredita. E você não sabe onde isso vai dar. E o pior é que a vida te bate de novo e você se afunda de novo e você escala pra sair do poço de novo e recomeça e acredita de novo. Esse círculo se repete e cansa. Agora imagina eternizar isso num texto?!

Escrevo geralmente dia de sexta ou aos sábados ou quando vou a algum boteco sozinho, quando canso de ficar em casa. Bebo duas ou três cervejas e entupo o bloco de notas com parágrafos. Mas desde quarta-feira começo a sofrer pelos cantos. Nos últimos meses tem sido mais grave. Pra ser mais sincero, nas últimas semanas. Porque ando muito – digamos – com preguiça do mundo. Eu olho daquele jeito blasé, daquele jeito que só dá vontade de olhar pra ele e ficar calado. Mas sou ácido, crítico, maldoso, e se guardo pra mim o que vejo, tenho medo de criar um câncer. Então vou pra alguns lugares, fico escondido escrevendo. É o meu trabalho. Uns bares, umas noites.

Escrevo rápido demais, por impulso, escrita vomitada – me adaptei ao meu tempo e ao meu ofício de jornalista, com editor gritando em jornal pra entregar matéria. Mas, às vezes, escrevo lento demais, quase parando. Preciso criar, ter cuidado pra não me repetir, reler, reescrever. Às vezes sai umas duas ou quatro laudas de word, mas o que interessa é a frase do meio, a frase final, então apago tudo e volto pro quase zero. Mas isso complica, porque preciso mandar tudo pros meus ilustradores, Igor Queiroz ou Lucas Leopoldino (depende da semana).

Uma sexta-feira inteira não é suficiente. Ultrapasso sábados, domingos, terças. Há sete meses tenho ultrapassado fins de semanas e me enfiado em textos – justamente o fim de semana em que todo mundo sai pra desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Os outros fazem, não eu. Eu me tranco em casa, com a coluna doendo por ficar repetidas horas todo torto na cadeira da escrivaninha. O mais ridículo é que, para escrever, é preciso sair, desestressar, namorar, fazer festinha na casa de amigo, conhecer lugares e pessoas. Eu não tiro esses textos do nada. Os textos surgem a partir de coisas que vivo ou que vejo alguém fazendo. Como um fotógrafo de palavras.

Há 32 semanas vivo muito pouco, pra dentro, fechado. Porque além dessa coluna, estudo literatura na Ufba, que exige mais do que tudo; escrevo os roteiros do programa de Olívia Libório pra Rádio Transamérica; escrevo reportagens pra Uol; dou aula em cursinho e escola; produzo meus livros e outros projetos. Cansa.

Esse acúmulo de trabalho e falta de tempo se reflete, também, na bagunça da bolsa e do quarto. E da escrivaninha. Post-it colado em todos os cantos: “ligar para a assessora”, “Estreia de Lucas Nascimento como cantor no Casarão Barabadá”, “Terminar a pesquisa”; pilhas de livros que nunca termino de ler (um Mia Couto aqui, uma Ana C. ali); se olhar para o lado, há também revistas e colunas de amigos pra ler e textos teóricos que nunca acabam de sair da impressora. Eu tenho que resolver problemas com o FGTS e terminar o relatório da pesquisa e submeter trabalhos em congressos e apresentar esses trabalhos e estudar para provas imensas e participar de reuniões imensas e preparar aulas e ter ideias de textos e… Deus do céu, a minha vida implorando pela fuga do vácuo. Os bares cheios, os amigos convidando. Mas se eu terminar a coluna, eu vou. Daí os amigos reclamam: você não responde mais mensagem, não aparece, não sai mais, não marca nada. Tem gente que pede pra sair comigo, tem gente que está interessada em mim, mas logo desiste porque “puta que pariu, ninguém entende essa sua vida doida de tanto trabalho”. Tem gente que quer que eu durma na casa, tem gente que me implora: “pelo menos fique dez minutos no meu aniversário”. E eu digo “sim” pra todo mundo. E, às vezes, eu não vou. Esqueço, me perco no meio dos post-its. Cobram, cobram, reclamam, reclamam.

Depois de ouvir tanta melancolia, tantos prantos e descontentamentos, vocês me perguntam: tá, e daí? Daí que ando extremamente cansado, meio triste, mas triste por causa do cansaço ou de outra coisa que eu não sei o que é. Deixei o espaço da coluna de hoje pra me deixar outra vez mais transparente, pra me permitir, pra escrever sobre esse cansaço múltiplo, sobre minha falta de tempo, sobre a falta de ordem que se instaurou em minha vida porque eu permiti. Por trás de todo esse discurso, um alerta: o perigo que corro, todo dia, comigo mesmo. Escrevo para sobreviver, mas acabo morrendo pra me manter vivo. Hoje, ao menos, não teve texto. Dei um foda-se. Talvez, esta semana, seja o momento de viver sem ser aquele rapaz que precisa escrever sobre tudo que vive.

Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.

Paris não é uma festa

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Lucas Leopoldino

Um a um, eles vão chegando ao Meia Oito. As garrafas verdinhas sendo colocadas na mesa e, minutos depois, as garrafas verdinhas completamente vazias sendo enfileiradas no pé da mesa. O cinzeiro fazendo andares com cinco, nove, doze bitucas de várias marcas e cores de filtros de cigarros. Conversas e mais conversas sobre homem, cabelo, viagem, cinema, promoção de loja. Todo mundo na mesa tentando ser social, normal, simpático, com piadas totalmente adaptáveis ao ambiente pra parecer enturmadinho.

Pedro serviu a cerveja copo a copo. Abriu as pernas. Acendeu mais um cigarro. Depois, bebeu longos goles e reclamou do casamento de três anos. Tudo não está mais como antes. O sexo diminuiu e as responsabilidades aumentaram. Mas só são três anos. Cinco se contar com o namoro. Ele disse que sente saudade de quem ele não é mais. E que ele só tem vinte e sete anos. E que ter que pagar contas, todo mês, é um saco. Ele acendeu outro cigarro e fumou rapidamente. Tragos longos, profundos, com força. Um cigarro atrás do outro. Um trago atrás do outro. E, pra não parecer chato, mudou de assunto. Porque só ele falava na mesa. E todo mundo olhava com pena.

Daí, ele contou um pouco sobre o trabalho dele. E que ele pensa em pedir demissão do jornal que trabalha. E que o chefe é um sacana por ter promovido como editor um repórter mais novo e com menos experiência do que ele. E que ele cansou de escrever reportagens sobre saúde. E que ele não vai ao médico há anos. E que ele fuma muito. E que escrever sobre saúde e fumar e não ir ao médico é uma fusão entre a ironia e a hipocrisia. Ele bateu o cigarro, nervosamente, três vezes no cinzeiro, até que se apagasse por completo, como se precisasse se livrar daquilo. Depois, acendeu outro cigarro. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Camila serviu a cerveja copo a copo. Mudou de cadeira. Tirou a jaqueta jeans. Depois, bebeu longos goles e reclamou do calor e do trânsito e desses motoristas que estacionam na calçada e de pessoas que falam alto. Falou sobre os caras que sempre procuram ela quando nem ela lembra mais que eles existem. E que ela não entende essas pessoas que gostam de prolongar relacionamentos que sempre serão errados. E que ela não entende por que as pessoas perdoam traição. E que ela não consegue mais acreditar em homem algum. E que ela cansa de todos os caras logo no primeiro encontro. Depois, ela mudou de cadeira novamente. E contou pra todo mundo que se sente feia, gorda e velha agora que fez vinte e cinco anos. E que o corte de cabelo dela ficou horrível. E que o rosto está inchado. E que nenhuma roupa cabe nela.

E então ela reclamou que o mestrado é um saco, que nenhum filme em cartaz no cinema presta, que o dinheiro do mês tá acabando, que jornalismo em Salvador é feito por uma panelinha de gente que acha que sabe escrever. E depois ela bebeu mais um gole longo de cerveja. E ajeitou a roupa, o cabelo. E foi ao banheiro. E voltou usando a jaqueta jeans. E mudou de cadeira outra vez. Ela não se sentia bem e adequada em nada. Sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

André serviu a cerveja copo a copo. Levantou da mesa. Atendeu o celular. Discutiu com alguém na linha. Voltou. Depois, bebeu longos goles e reclamou do ciúme do namorado. Que ele já não suporta dar explicação de tudo. O tempo inteiro. E que o namorado de agora não é como o namorado anterior. Que ele preferia o outro namorado porque era mais tranquilo. E que o de agora é totalmente inseguro. Mas, parando pra pensar, ele não foi feliz nem com o anterior e nem com esse. E que ele queria ter coragem de terminar tudo e ficar sozinho, de viajar por um tempo pra algum lugar que nem ele faz ideia.

Depois, ele levantou da mesa. Atendeu o celular outra vez. Discutiu com alguém na linha. Voltou. E pediu desculpas por toda hora ter que atender o telefone. Foi o namorado de novo querendo saber onde ele estava. Depois, evitando olhar pro iPhone, ele falou que podia fazer doutorado. Aqui ou em Portugal. Mas que ele queria mesmo era mudar de área, sair dessa coisa do jornalismo. Mas que ele tá sem saco pra estudar mais. E que ele tá sem saco pra esse mundo acadêmico. Escrever artigo é um saco, defender tese é um saco, aguentar professor falando numa aula de cinco horas é um saco, ter um namorado ciumento e possessivo é um saco. Que tudo é um saco. Ele sabia que precisava mudar, queria mudar, mas não sabia exatamente o quê.

Eu servi a cerveja copo a copo. Cruzei as pernas. Revirei a bolsa. E você, Murilo… E você? Oi? Eu o quê? Eu balançava as pernas por nervoso e bebia metade do copo da cerveja sem vontade, goles curtos, copo que nunca esvaziava. Eles, finalmente, descobriram que a felicidade é coisa momentânea. Que a vida adulta, num mundo cheio de convenções, é uma merda. Descobriram, finalmente, que é preciso trabalhar doze horas por dia e que nada disso traz recompensa, não à toa o mundo inteiro quer virar instagrammer, porque talvez seja mais fácil tirar foto à beira da piscina exibindo um copo de suco de alguma marca detox do que ter que encarar a realidade. Descobriram, finalmente, que pessoas traem, que casamento não é SPA, que pessoas boas sofrem em filas de hospitais, que inocentes morrem, que fatura de cartão de crédito chega e ninguém, além deles, vai pagar. Eles, finalmente, descobriram que Paris não é uma festa.

Foi então que entenderam, pela minha cara de “zero surpresa”, que a vida é essa escrotidão mesmo. Eu perdi completamente o deslumbramento com o amor, com o trabalho, com pessoas. Eu descobri que relacionamento cansa, trabalho não é diversão e pessoas bonitas mentem. Mas eles permaneciam, o resto da noite, com suas garrafas verdinhas enfileiradas, com suas bitucas de cigarro transbordando o cinzeiro, falando sobre todos os assuntos e comprovando mais uma vez que não eram felizes em nada. Falavam que o namoro deles é um porre. Falavam que o trabalho deles é um porre. Falavam que o lugar onde eles têm frequentado é um porre. Nos últimos meses, eu fiz as pazes comigo, com a vida. Eu consegui me livrar de tudo que atrasa. Minha vida não é um porre.

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