Homem babaca gosta de sacanear em bando

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Estou numa mesa do Salvador Dalí com meu namorado e uma amiga diretora de teatro. Almoço importante pra argumentar o roteiro de uma peça que estou escrevendo. Quero pedir um suflê de queijo, mas o diabo é que queijo tem me dado enjoo. Quero pedir um camarão ao molho de limão, mas o diabo é que limão tem me dado gases e refluxo. Reviro o cardápio doze vezes e nada. Hoje nada nesse restaurante me agrada.

Penso em voz alta, ao que parece, porque, ao fim do meu pensamento, todos estão sem graça na mesa e o garçom me olha feio, sorrindo com simpatia forçada. “Tenho certeza que o senhor vai gostar do arroz de polvo com trindade de filés”. Eu é que não sou louco de não aceitar. Eu é que não sou louco de bancar o antipático e despertar ódio em garçom.

A menos de um metro de distância da minha mesa, cinco ou seis marmanjos, com seus vinte e três a vinte e seis anos, falam alto e dão risada alta e bagunçam o cabelo um do outro e se xingam e contam umas piadinhas particulares e falam histórias picotadas que ninguém entende e ninguém tem interesse em entender. Todos aparentam ser felizes, descontraídos, sem problemas, com o mesmo tênis de skatista e camisetas da mesma marca. São soltinhos, sem culpas nem traumas. Umas gracinhas.

O barbudo de camisa listrada, o que está ao lado do surfista, me olha intensamente a ponto de me deixar sem graça. E comenta alguma coisa no ouvido do de camisa amarelinha. E me olha novamente. Não consigo conversar com meu namorado e minha amiga. Mas se eu não estudei com esse menino, mas se eu nunca fiquei com esse menino, mas se eu nunca vi esse menino na minha vida, por que esse menino me olha desse jeito intenso? Isso tudo é coisa da minha cabeça. Minha cabeça, sempre muito rápida e esperta, ironiza: mas existe alguma coisa do mundo que não seja coisa da sua cabeça, Murilo? Chega. Dou bronca em silêncio pra mim mesmo. Chega.

Ele tá a fim de mim, é isso? Não. Amizade instantânea algum dia em mesa de bar? Não. Amigo de amigo que viajou comigo há dez anos pra um acampamento com quinze adolescentes e um banheiro? Não. Sorrio pra ele na esperança infantil dele sorrir em retribuição e tudo ficar bem. Se ele sorrir, amigável, pronto, acaba, minha mente neurótica descansa feliz. Se ele sorrir, jocoso, deve ser amigo de algum ex-namorado meu que falou mal de mim. Ele não sorri, ele apenas me encara. Puta merda. E me encara forte, sem desviar os olhos, profundamente. Eu sorrio mais, eu sorrio além da conta. Pelo amor de Deus, amigo, sorria de volta. Vamos, sorria e me liberte. Sorria e me diga quem é você. Ele sorri.

Mas ele sorri em bando. Dois disfarçam, mas riem com a cabeça baixa. Agora todos me olham e riem descontroladamente. Ouço batidas nas mesas. Certeza que estão me sacaneando. Ele então fala baixinho no ouvido do cara de dread. Coisa de cinco segundos. Sim, sim, sim: está falando de mim. Um cutuca o outro. Um mostra o celular pro outro e vai passando o celular na roda até que chegue na mão do último e volte para o primeiro. Tem sacanagem aí. Bando de palhaços.Toda gozação de homem babaca é feita em grupo. Homem babaca, sozinho, não sabe sacanear. Homem babaca gosta mesmo é de sacanear em bando. É mais interessante mostrar pros amiguinhos que ele pode ser sacana. Bando de palhaços.

Ao final do almoço, meu namorado vai buscar o carro e minha amiga vai ao banheiro. Estou sozinho. Ele levanta da cadeira e se aproxima até a minha mesa. Meu coração a mil. Eu quero saber qual é a piada. Mesmo. Ele nem me conhece, olha pra mim e já vai rindo assim? Ele então me surpreende, senta-se na minha mesa, respira profundamente, ajeita-se na cadeira. O que é que esse homem quer? MEU DEUS. O grande momento chegou. É agora que ele vai abrir o jogo e contar toda a sacanagem que ele e os amigos estão armando pra mim.

Mas, ao invés disso, ele estende a mão, lindo. E aperta a minha mão. E me abraça muito forte. Meu Deus, quem é esse homem? É agora. Ele se aproxima e diz bem devagar e baixinho no meu ouvido: “você é Murilo, né?”. E me entrega um bilhete com seu nome e número de telefone. “Eu sou seu leitor. Eu acompanho seus textos sempre. Eu amo tudo o que você escreve. E sinto muito por esses caras sacanas que você se relaciona. Meus amigos estão rindo porque eles acham que eu estou louco. Mas eu mostrei sua foto que está na sua coluna da internet”, ele confessa. Eu sorrio, finalmente, aliviado. Ele continua: “E posso te dizer uma coisa? Você é muito louco. Mas que homem não se apaixonaria por você e pela sua loucura?”.