Você lembrou de quem nos últimos minutos do ano?

 

Encostar a cabeça no travesseiro e não sentir o peso do corpo quase como um trator em cima de uma pluma. É libertador acabar com meu desejo de vingança, com a vontade que tenho de pisar em cima e esmagar os flashes do seu sorriso, do vício que eu tinha de falar, mil vezes ao dia, com qualquer desconhecido, sobre como você era lindo mesmo dando as costas e indo embora depois de um café maravilhoso no CineSesc.

Você está aí. Com seu casaco preto imenso e seus óculos pretos imensos fazendo pose pra mais uma foto em Portugal. E eu estou aqui. Cansado de mais uma história inacabada, dormindo tão pouco, voltando a tomar ansiolíticos como água e escrevendo reportagens pro jornal sobre calçadas esburacadas de Salvador. Sua vida plena, onde pouco importo, sentencia minha inexistência e alavanca sua liberdade.

Foda-se a minha vontade de explodir sua vida. Chega disso. Só pelo tempo em que durarem meus pensamentos, que durarem este texto e a música lentinha que coloco enquanto tomo banho pra reviver o que foi editado na minha memória, vou gostar de você mais um pouquinho. Vou mentir mais uma vez pra mim, fingindo que gosto de você de vez em quando, como se não gostasse sempre. Como daquela vez que chorei do metrô da Vila Madalena até em casa. Como naquele dia que você correu e sentou ao meu lado no metrô da Consolação tentando entender onde é que doía. Você não conseguiu ver o tamanho da minha dor. Se você me visse tão pequeno, com medo das horas, dos sons, dos meus ossos, das pernas desconhecidas subindo e descendo dos trens, tão desesperado, tão com medo do fim de tudo, você deixaria meu vulto desaparecer na escada rolante da estação?

Eu nunca admiti a simplicidade do afeto. Eu sempre quis entender de onde vinha tanta vontade, tanta disposição. De contar as horas no voo pra chegar em São Paulo. De falar sobre filhos de mãos dadas na avenida Paulista. De falar sobre Clarice Lispector esperando a sessão de um documentário qualquer no CineArte. Eu nunca aceitei sua banalidade em achar que as coisas têm que ter mesmo um ponto final. Nunca suportei a ideia de sermos dois corpos cansados. Nunca respeitei meus próprios conflitos quando não me senti amparado psicologicamente, tendo que me deparar com escolhas que pareciam definitivas. Nunca me recuperei da bagunça de desejos e limitações, a intensidade tresloucada que eu me permiti viver. Nunca entendi por que passei meses, tão burro, planejando uma história sem entrega, que não me aquietava em nada, não me completava em nada, não me calava nem mesmo num segundo de paz. Nós éramos como um desses casais que parte do nada pra chegar a lugar algum. Mais uma relação clichê como tantas por aí. Ainda assim – há meses que tudo se arrasta, me limitando a uma dor de cabeça incurável, deixando tudo adulto demais, morto demais, pesado demais, fútil e triste demais -, eu sinto sua falta com se tivesse perdido os meus dois braços.

Essas lembranças que surgem num repente, ainda que não me deixem completamente nu, evidenciam os buracos. Não são de suas frases intelectuais que sinto falta. Não é da sua voz calminha e cheias de intenções que sinto falta. Não é do seu beijo como desculpa pra me calar e me implorar menos sentimentos. Não é, muito menos, do seu abraço. Sua presença sempre me deixou a impressão de encaixe aparentemente correto, mas com lacunas omissas. Não sinto saudades do pouquinho de amor que você me dava. Um amor que nunca existiu. Não tem o que cobrar, o que querer, o que chorar, o que lamentar. Não há morte pelo que nem chegou a nascer.

Sinto falta mesmo, só pra dar raiva e inconformismo ao meu coração que vai de contra a superfície, de sentir suas mãos quentes, o excesso de pelo na sua barba que ofendia sua cabeça escassa de fios. Morder seus lábios, sentir seu cheiro, brincar com sua orelha, respirar na sua nuca, engolir sua generosidade, me destruir com sua banalidade, calar com sua calmaria, respirar o gosto do seu hálito, me sentir tolo com seus livros, espirrar com seu perfume. Sinto falta da sua tristeza disfarçada em minutos de silêncio. De não dar conta da vida, de não saber o que sente, de não ter tempo, nem paciência pra esperar, nem músculos, nem medo, nem quentura suficiente pra me acalmar. Sinto falta da sensação maravilhosa que era congelar na sua presença com data e hora pra você partir.

Era a vida dando um tapa na minha cara e se mostrando muito maior do que eu e minhas listas do que pode e o que não pode, do que é certo e o que é errado. Era a natureza esfregando na minha cara a obviedade da coisa, contrariando as minhas crenças e vontades tortas. Eu não colocava limites na minha vontade de gostar de você, eu não mandava no meu sentir, não admitia, não queria e, ainda assim, era sufocado pela falsa sensação de uma vida mágica mil vezes maior do que acontecia. Eu gostava de você por causa do tédio da vida. No meio de tanta coisa sonolenta, você me deu cor. E isso era muito bonito. Você era bonito. Simplesmente isso. Você, uma pessoa que gritava poesia em qualquer assunto banal, com vergonha da dor, com medo de ir adiante, com pouco assunto pra enterrar o silêncio, com pouco tempo pra parar o tempo. Você, a pessoa que eu ainda vejo do outro lado do vidro do Espaço Itaú de Cinema e me levando embora pra qualquer canto do centro que não fosse maior do que a gente, o culpado por todos os meus dias sem fé, inverno sem aconchego, verão sem beleza.

Hoje, Mari me perguntou em quem eu pensei nos últimos minutos da virada de ano. A gente estava conversando sobre essas pessoas que, do nada, acabam se tornando importantes em nossas vidas. Fiquei sem saber na hora, fiquei sem saber o que responder pra Mari. Mas agora, aqui, neste texto, eu conto: em você. Me jurei não tentar entender, não me culpar e apenas sentir. Nem que fosse pela última vez. Nos últimos segundos do ano, eu quis sentir suas mãos quentes, sua barba, a sua cabeça escassa de fios, os lábios, o cheiro, a nuca, o seu perfume. Senti falta de tentar amar o último homem que eu amaria na vida.