Minha única dívida é um pedido de desculpas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Há pelo menos seis meses, toda terça-feira, oito e trinta e cinco da manhã, recebo uma ligação do Bradesco: “Senhor Gilberto Costa, temos uma oportunidade irrecusável pro senhor parcelar e liquidar a sua dívida no banco”. Eu sempre dizia ao atendente que eu não me chamava Gilberto Costa e desligava o telefone. Mas, há pelo menos três meses, toda terça-feira, quatro e trinta e cinco da tarde, recebo outra ligação do Bradesco, sempre atrapalhando aula, reunião, sexo, cinema, lançamento de livro, aniversário, dor na emergência. É uma ligação mais enérgica como: “Senhor Gilberto Costa, caso o senhor não parcele a dívida até o dia 29, seu nome será encaminhado para o Serviço de Proteção ao Crédito”.

Já expliquei que nunca me chamei Gilberto Costa, que nunca ouvi falar nessa criatura. Não é primo, não é irmão, não é pai, não é namorado, não é. Já implorei pra excluírem meu número desse mailing de devedores. Até que semana passada, uma dessas atendentes, uma alma bondosa, sentindo o peso na minha voz de sofreguidão, fez uma leitura de honestidade no meu discurso de quase uma hora: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Desliguei o telefone sem sentir culpa. Em nenhum espacinho de cérebro existia culpa: eu não devia a absolutamente ninguém. Nem um almoço a uma amiga, nem uma cervejinha a um amigo, muito menos a um banco. Eu não devia a absolutamente ninguém.

Tomei banho, lavei a louça, dobrei algumas roupas, molhei as plantas e passei mais da metade do dia com a pergunta da atendente de alma bondosa: “mas o senhor não deve nada mesmo?”. Um carro do ovo passa lá longe. Esse carro não sabe, mas foram quase oito anos ouvindo você imitar a voz do homem que fala no microfone do carro do ovo. E nos últimos cinco anos eu passei a ouvir carros e passei a ouvir gente bêbada e passei a ouvir buzinas e passei a ouvir ruas e não ouço a sua voz. Mas a sua voz existe e não imita mais o carro do ovo e não me diz nada. Eu sei, você é chato, idiota, irritante e grosseiro, e eu vivia com nojo de você porque você nunca lavava as meias, mas você conseguiu o que o mundo inteiro nem quis tentar: você me amou de verdade.

Lembrei que, por anos, você foi o único que entendeu as minhas angústias no Réveillon. O único que entendeu as minhas angústias sempre quando apagavam as luzes pra comemorar qualquer aniversário. E o único que sempre permitiu também, depois, que eu chorasse sem me pedir pra parar, sem me achar louco. Eu sempre alérgico, com enjoo, reclamando, e você sempre entendendo tudo. Outro dia eu encontrei um vídeo, de 2012, num pen drive antigo. E lá você me pedia em casamento, de brincadeira, no meio de todos os meus amigos. Senti um misto de saudade e de melancolia ao assistir o vídeo incontáveis vezes em menos de meia hora. Mesmo vendo você como amigo e tratando todo o resto como o homem da minha vida, você me mostrou que todos sempre foram meninos perto de você.

Lembrei que, por anos, mesmo enxergando você apenas como amigo, eu desmarquei jantares e cinemas com todos os meus namorados e fui ao Bailinho de Quinta com você. Porque você sempre sentiu a energia da banda da mesma forma que eu sinto. Porque você sempre pulou e dançou e cantou todas as músicas de cor numa intensidade incrível, como se não fosse viver no próximo segundo.

Depois lembrei de você, largado no sofá da casa de Bia, meio morgado de tanto fumar maconha. Você com um daqueles óculos azuis espelhados típicos de maconheiro, e eu com o All Star todo rabiscado com nomes de banda de rock, com as pernas em cima das suas. Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando não apareci na sua formatura. Você passou meses falando disso comigo e me ligou a noite inteira querendo saber se ao menos eu não iria aparecer na festa.

Eu não sei por que exatamente eu não te pedi desculpas quando te deixei de cueca na cama, menti que ia ao banheiro e fui embora. Foi a primeira vez que tinha acontecido uma coisa mais quente entre a gente e, na real, eu que tinha provocado. Ou quando eu te pedi companhia quando meu namorado estava viajando e você me olhou querendo dizer “eu só sirvo pra isso, né?”. Também não sei por que eu nunca te pedi desculpas quando eu deixei você sozinho no hospital naquele dia que sua mãe estava morrendo com cetoacidose. Eu deixei um bilhetinho ao lado da sua mochila escrito “tô com muita dor no estômago”, mas era tudo mentira. A verdade é que eu tinha ido pra casa assistir Dexter e comer brigadeiro de panela.

Aí depois lembrei que você, depois de um tempo, finalmente tinha cansado das minhas angústias e dos meus enjoos e das minhas alergias e das minhas fugas e das minhas ausências, principalmente das minhas ausências de pedidos de desculpas. E você foi embora. Você mudou de casa, de carro, de emprego, de roupa, de amigos e, finalmente, mudou comigo também. Você, finalmente, se apaixonou por um cara sem alergia, sem enjoo, sem angústia e esqueceu de mim.

Eu tenho saudade de duzentas coisas e todas essas duzentas coisas sempre me levam pra mesma única coisa de que eu tenho muita saudade. Eu tenho saudade de tudo. De você me carregando no colo até a casa da minha mãe. E das sopas. E os soluços. E o choro baixinho. E as suas taquicardias estranhas no meio da noite. E a vontade de te jogar debaixo do chuveiro quando você começou a gostar daquele cara que sabia inglês, sabia francês, sabia discotecar, sabia escolher sapato, mas não sabia cuidar de você. E a vontade de te sacudir e te dizer pra acordar pra vida. E o meu nó na garganta quando eu te deixei no aeroporto. E a saudade quando você viajou. E o meu ciúme quando você me mandou fotos com os seus novos amigos da Tailândia. E a minha ansiedade ao te esperar na fila de desembarque. E o seu sorriso sem jeito tentando esconder a sua raiva por causa dos meus atrasos. E a sua risada descontrolada quando eu falava algum sarcasmo.

Eu já namorei tantos caras, mas não eram deles que eu gostava. Juro, eu tentei gostar muito deles, tentei me divertir, tentei dançar com eles até perder o fôlego em todos os shows do Bailinho de Quinta, mas eles não mexiam comigo. Eu não consigo ficar com eles além de meia hora. Eles não têm a sua ânsia de começo de festa e sua energia de fim de festa. Não são eles. Esse texto é meu pedido de desculpas pra você, esse homem chato, idiota, irritante e grosseiro. É pra você, o homem que imitava o carro do ovo. O homem que me pedia em casamento. O homem que me fazia feliz de verdade. É a minha tentativa de quitar a dívida. É a minha tentativa de consertar todas as vezes que fui chato, idiota, irritante e grosseiro, mesmo sabendo que essas coisas, uma vez que foi, a gente não conserta mais.