Plástico bolha

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Estou há duas horas estourando bolha por bolha do plástico que veio embrulhado na máquina de lavar. Penso que todo esse ar não aguenta mais ficar sufocado dentro do espaço minúsculo e redondinho. Quero tirar todo oxigênio preso ali dentro. Quero deixar o plástico lisinho, sem nenhum resquício de ar abafado.

Há duas horas choro infinitamente, quase engasgando, quase secando por dentro, aos prantos, sem conseguir parar, e isso me dá um sinal. Choro porque a mãe encontrou o filho, depois de dez anos separados, na novela. Choro porque, no jornal da TV, um menino pede pra Deus um transplante de rim pra poder viver em paz. Choro porque tudo é muito lento e tudo é muito rápido e tudo é muito fácil e tudo é muito difícil e tudo é muito superficial e tudo é muito profundo.

Não estou apenas triste, não estou apenas com medo, não estou apenas com raiva, não estou querendo engolir o mundo e os juros do Santander e os congestionamentos e os prazos apertados e os assaltos pela cidade. Eu estou com tudo isso junto e toda essa coisa me emociona muito. Pensar frases que contenham as palavras grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente me dão um sinal.

Suportei por quinze meses, quase enlouquecendo e quase morrendo, ficar sem tomar nenhum remédio. Pensei em tomar três comprimidinhos inocentes de Rivotril naquele dia que o voo enfrentou turbulência, naquele dia que o cara que eu gostava me deixou sozinho no teatro, naquele dia que eu estava entupido de provas e freelas e contas pra pagar e zero tempo pra tudo isso de uma vez. Mas, em todos esses “quase”, eu me disse “aguente”.

Se você é meu amigo e me levou pra alguma festa ou alguma baladinha sossegada ou exposição ou bar ou almoço ou jantar, vai se lembrar de algum momento repentino em que fiquei sério, distante, procurando sentido onde não existe, revirei bolsa ou celular e inventei alguma desculpa pra ir embora. Eu fui embora de todos os lugares em que estive por mais de meia hora nos últimos quinze meses. Meus amigos até brincam. Eles dizem que eu sofro de compulsão da fuga à francesa. Eu dou risada quando ouço isso, mas, em alguma parte de mim, sei que esse riso sem explicação é só uma desculpa da parte mais profunda de mim que implora pra “não quero falar sobre isso”. Esse riso, no fundo, não tem graça nenhuma.

Foram vinte e três anos sem nenhum remédio me perguntando “como faz pra aguentar essa merda toda”, três anos tomando remédios me perguntando “como faz pra voltar a sentir aquela coisa toda tão maravilhosamente maior do que estar dopado”, e quinze meses deslumbrando as palavras grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente.

Eu disse que parei porque estava engordando, disse que parei porque “eu era maior do que tudo isso”, disse que parei porque queria ser normal, disse que parei porque me dava muito sono e eu precisava trabalhar pra pagar as contas, disse que parei porque eu precisava sentir o toque de um homem no lugar de um bocejo, disse que parei porque eu estava sem libido, disse que parei porque estava em outra, disse que parei porque os remédios me davam a falsa sensação de liberdade, disse que parei porque não queria ser dependente de nada, disse que parei porque não queria sentir vertigem. Mas a verdade é que parei porque eu não suportava mais sentir saudades de quem eu era antes de ser quem eu sou agora. Aquele que tinha expectativas de tudo e não esse que não espera por mais nada. Pedro, meu psicólogo, disse que estou exagerando. “Será que você mudou do que era ou se transformou no que você iria de qualquer forma se transformar?”.

Peço perdão a todos que foram para algum encontro que eu mesmo marquei e que eu mesmo não fui. Peço desculpas também a todos que, sem entender nada, me esperaram ir ao banheiro sem que eu voltasse; que, sem entender nada, me viram ir buscar uma cerveja e sumir na multidão e nunca mais voltar; que, sem entender nada, me viram pegar a mochila e desaparecer falando ao celular com ninguém na linha: “O quê? Oi? Não estou entendendo! Como? Chego em dez minutos”. Prometo que isso não vai mais acontecer.

Mando uma mensagem pra Vanessa, minha amiga da adolescência e consumidora assídua de todos os melhores ansiolíticos do mercado (eu só confio nos que têm SAC pra poder reclamar): “Preciso que você estoure as bolhas do plástico”. “Que bolha de plástico, Murilo? Tá doido? Vai dormir, já são duas da manhã”. Mando outra mensagem dizendo “cartela”. Ela entende e manda um emoji de ‘joinha’ “até que você demorou de pedir ar”.

Não vou mais esperar que a espuma do leite fique uniforme na xícara pra poder beber o café. Não vou mais passar horas e horas e horas arrumando camisas por cores análogas e por tamanho no cabide e depois me culpar que “fiz tudo errado”. Não vou mais achar que algum carro me segue e alguém me espera, dentro de um carro, na rua escura perto da minha casa. Não vou mais estalar o dia inteiro todos os ossos do corpo, por puro tédio, apenas porque tudo desagrada, angustia, não serve e acaba. Não vou mais achar que as pessoas da mesa ao lado do boteco falam mal de mim. Não vou mais tentar me provar, sempre que fico cinco minutos na janela de qualquer lugar alto, que sou capaz de ver meu próprio corpo atirado no asfalto. Em compensação, daqui a pouco, depois de três comprimidinhos, todas as músicas e filmes e livros e novelas e mulheres grávidas e amigos se casando e filhos encontrando mães e crianças transplantando rins vão me comover com o mesmo efeito que uma barrinha de cereal sabor artificial de banana é capaz de me sensibilizar: nenhum. O que me salva também me destrói.

Não sei se é a eterna espera ou apenas pânico, mas hoje eu estava na estação da Vila Madalena, eu vi quando o metrô chegou, eu vi várias pessoas entrando, mas eu não consegui. Fiquei intacto olhando o metrô sumir no vagão. Um grupo de amigos normais me diz que “sente muito”, eu respondo, aqui de casa, que “também sinto muito”, ainda tentando descobrir como faz pra estourar bolha por bolha e liberar todo o ar. Desculpa, este texto ficou triste, né? Pior que daqui a pouco, depois de três comprimidinhos, nem alegre nem triste. Amanhã nem isso, nada disso. Grande, demais, todo, tudo, muito, infinitamente, exageradamente e imensamente.