Este texto é sobre perder pessoas

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Filipe Jardim

Sim, terei a imensa cara de pau e a redundância consciente de escrever – justo neste site de notícias que fala de política, economia e ciências – sobre pessoas que vão embora da minha vida. Eu posso imaginar você, 50 e muitos anos, camisa de botão, barba, óculos, entortando a boca e revirando a cabeça: “O que eu tenho a ver com a descartabilidade da vida desse fulano? A quem interessa ler esse drama cheio de futilidades?”. Este é um texto sobre pessoas que fecham portas. Você e outros milhares de leitores, num exemplo “ao vivo”, já nem devem mais estar aqui.

Há algumas semanas, puliquei no Facebook um texto curto falando sobre como as pessoas ignoram completamente a violência no Rio de Janeiro e, como antas, tiram selfies em morros, no Leblon, no Pão de Açúcar ou, até mesmo, com policiais marombas segurando fuzis e metralhadoras em algum calçadão (Ipanema?). Em cinco minutos, perdi 667 seguidores. Me chamaram de “louco”, “sem noção”, “levado pelo que lê e assiste na mídia golpista”. Disseram que eu escrevi um texto cheio de frases de efeito, que peguei o ranço que São Paulo tem pelo Rio, que eu estava querendo tirar o direito de ir e vir das pessoas.

Uma amiga, com letras garrafais, foi até o meu “inbox”, e disse que “carinhosamente estava me excluindo do Facebook” e que “não vou surpreendê-la se, nas próximas eleições, eu votar em Bolsonaro”. Fiquei extasiado ao ler aquilo, mas o que eu poderia fazer? Eu apanhei porque falei sobre ser humano. Porque disse que achava surreal chamar de #CidadeMaravilhosa no Instagram, numa imagem photoshopada no Rock in Rio, enquanto 22 eram mortos em um tiroteio na Rocinha. Eu apanhei porque abri mão do aplauso do mainstream e tirei sarro dos deslumbrados de alguma praia carioca mega descolada, porque deixei claro que o Rio é a única cidade do Brasil que perdeu completamente o controle de segurança pública e vive numa guerra civil há anos. As pessoas invertem o que você fala pra te escrotizar. Ninguém tá muito preocupado em dar a cara pra bater numa rede social. Vão no seguro e bem aceito, é mais fácil e menos doloroso.

Há alguns dias, escrevi, novamente no Facebook, um texto curto criticando pessoas que fazem do Enem espécie de “passeio de shopping”, aquela gente que não sabe por que bosta faz a prova pela milésima vez. Até que eu não apanhei tanto por esse. Não mais do que o outro texto, que escrevi há um ano, confessando que me sinto muito mais seguro morando em São Paulo do que em Salvador. Por esse perdi, novamente, cerca de 300 seguidores. Muitos soteropolitanos e alguns paulistanos que odeiam São Paulo. Entrei nos comentários e eram 200 pessoas me xingando. Os revoltados on line. Eles me apelidaram de pseudo-sudestino e se despediram de mim com mensagens bonitas tais quais “Até o dia que você morrer num assalto na Sé”, “É porque você não sai da Zona Oeste”, “Vá na Luz pra você ver” e “Skinhead bate em gay, você sabia?”. Li todas as mensagens e pensei: “Caguei”. Mas, meia hora depois, senti minha gastrite urrar silenciosamente. Cheguei à conclusão que é impossível ter olhar crítico no Facebook sem receber 52 mensagens “inbox” de amigos dizendo que enlouqueci e que estou desconvidado de suas festinhas. Não há muito o que discorrer sobre esse perfil: são pessoas que deletam, que tratam com prazo de validade, como uma latinha de milho verde.

Eu sei, eu sei. Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre vão embora. É a coisa mais triste que eu posso dizer na vida. Foi assim com meu melhor amigo do ginásio, foi assim com aquela amiga da faculdade que se mudou pra Tailândia, foi assim com aquele cara que disse que era impossível não gostar de mim, mas, porque estava bêbado quando falou isso, sumiu no dia seguinte.

Há mais de um ano, Felipe, um grande amigo, foi embora porque não gostava de ser corrigido. E eu, que sempre tive personalidade forte, fui pro ataque. Ele gostava de ser bom em tudo e eu, porque também sempre gostei de ser bom em tudo, e talvez porque amava ele a ponto de querer que ele fosse bom em tudo, apontei dezenas de erros em um documento de trabalho e tudo mudou pra gente. Foi por besteira. Mas talvez, no mundo em que se vive, não precise de muito pra alguém ir embora.

Há dez meses, o outro Felipe, outro grande amigo (tô começando a achar que nenhum Felipe nasceu pra ser meu amigo), foi embora porque não gostou de ouvir que ele estava ficando com uma amiga em comum, mas ainda estava completamente apaixonado pela ex. Ele me disse que eu não era exemplo de relacionamento pra ninguém. Que eu me achava tão bom no assunto, mas estava sozinho. Passei meses pedindo desculpas para ele, a cada desentendimento, por ser quem eu sou, com medo de perdê-lo. E ele SEMPRE incapaz de deixar o orgulho de lado, mesmo quando ofende e está errado. Gente como ele, que não se importa em pedir desculpas, que não procura pra conversar, que enterra com a maior facilidade do mundo, não merece décimas chances.

Há dois anos, um namorado foi embora. Eu falava sobre saudade, sobre faltas, e ele olhava fixamente pra qualquer outra coisa do planeta, menos pra minha existência. Fazia sempre a mesma cara de tédio e de busca por alguma novidade que nem ele sabia o que era. E eu querendo que ele descansasse um pouco de ser ele o tempo todo, mas ele tem muito medo de não ser ele, talvez porque ele não saiba o que ele é. Ele me perdia o tempo inteiro porque precisava descobrir quem ele era, ou pra lembrar que ele era o mesmo de sempre que nunca soube quem era. Ele sempre ia embora antes da gente ser alguma coisa juntos. Até que um dia ele foi embora de vez sem nunca saber quem era. Acho que ele é essa busca que não chega a lugar algum, e chegar a lugar algum talvez seja chegar a algum lugar.

Antes dele ainda teve outro que sempre me deletava da vida dele na certeza de que existia alguém melhor do que eu, mas não ia embora de vez porque não é todo dia que aparece alguém mais interessante do que eu. Um dia ele encontrou um rapaz. Ele até que é bonito e tal, não parece tão complicado e intenso, e passei a achar que mediocridade seja o suficiente que uma pessoa precise pra ser feliz. Mas a última vez que ele resolveu me deletar definitivamente, que finalmente a gente percebeu que estava perdendo um ao outro de vez, antes ele me deu um abraço daqueles que congela. O abraço e o seu olhar de quem nunca sabe direito por que pessoas se perdem ficaram pra sempre comigo.

Antes dele ainda teve outro que foi embora a primeira vez porque estava bêbado demais e “amanhã precisava trabalhar”, foi embora a segunda porque ficou tarde pra ficar num show de banda alternativa cheio de adolescentes na Commons, foi embora a terceira porque teve medo de ficar pra sempre porque “não sabia como lidar com essas coisas”, foi embora durante alguns longos meses porque era muito ocupado e todo o resto do mundo precisava dele pra alguma coisa (a mãe, a avó, o primo, o chefe, o ex-namorado, a vizinha, a amiga, a babá do sobrinho) e eu era apenas uma das demandas de uma lista imensa que precisava de ordem. Da última vez que a gente se despediu, tocou aquela do The XX que diz algo como “Eu não posso sentir tudo que você sempre sentiu” e você fez aquela carinha fofa de “desculpa” que desmonta qualquer pessoa raivosa como eu.

Em algum momento, em vários deles ou definitivamente, as pessoas sempre chegam em nossas vidas. Talvez seja a melhor coisa que eu possa falar no mundo. Como naquela crônica que não lembro, daquele escritor que não lembro, e sobre o qual você me contou no escuro do quarto de um jeito que eu nunca mais vou esquecer: “no fim das contas, a gente acaba mesmo numa esquina qualquer, num bar vazio que toca Belchior, com recordações um pouco tristes e bastante engraçadas de alguém que um dia chegou e depois foi embora, perplexo”.