Eu sei que você quer, tá fazendo doce?

 

Eu era estagiário no jornal e porque escrevia na editoria de cultura e queria ser descolado, usava calça skinny justa e camisetas canoas decotadas. Hoje, só de pensar, sinto dores nos testículos e frio congelante nos ossos da clavícula. Agora, mais maduro e mais sensato, posso afirmar em letras garrafais e marcador neon laranja que aquilo não era elegante e nem discreto e nem descolado (coisas que nunca consegui), mas eu tinha o Facebook cheio de gente sociável e inteligente, milhares de amigos gente boa, paqueras pela vida de dar inveja a qualquer bonitão e era insuportavelmente feliz.

Eu ficava no jornal até tarde porque gostava de analisar quase compulsivamente como todos aqueles jornalistas renomados e tirados a intelectual se comportavam e, no fim de expediente de uma sexta-feira (num dia que poderia ser como outro qualquer), convidei um dos repórteres (e amigo) que trabalhava no jornal pra beber algumas garrafinhas de cerveja na porta de uma conveniência bombada de publicitários, arquitetos, cineastas, assessores de imprensa e designs. Eu havia saído de uma reunião horrível em que minha editora detonou uma reportagem que escrevi e, nos últimos goles da primeira garrafinha de cerveja, fiquei depenado de tanto chorar como uma criança de cinco anos que se deslumbra num supermercado gigante e se desespera quando se perde dos pais. Meu amigo me levou pro canto da conveniência, colocou as duas garrafinhas no chão, me deu um abraço forte e, tal qual um pai consola um filho mimado, me disse no ouvido: “A gente pode comprar cerveja aqui e beber lá em casa. Sabia que eu moro na próxima rua?”.

Eu estava entediado com a faculdade, com o TCC, com as exigências do estágio, com as discussões do meu padrasto com a minha mãe, e, pra piorar tudo, nenhum casinho bom que eu tinha sustentava duas semanas. Aceitei beber um pouco na casa dele e combinei comigo mesmo que lá pelas onze da noite eu pegava um táxi. Meu amigo foi muito educado. Ele me confortou. Ele me fez bem. Ele me ofereceu roupas mais leves, preparou petiscos de queijo, azeitona e amendoim e passou horas me contando piadas só pra me fazer rir e esquecer o que tinha passado. Estranhei quando ele se desculpou pra ir tomar banho, voltou e permaneceu na sala só de cueca sem nenhum pudor. Mas eu pensei “não, é normal, somos amigos”. Estranhei quando ele falou que “podia conseguir que eu fosse contratado no jornal”. Mas eu pensei “olha que bacana, ele é influente”. Estranhei quando ele deu um tapa na minha bunda quando abri a geladeira pra pegar mais lombo defumado. Mas eu pensei “você é chato, ele é muito sozinho e só quer ter intimidade”.

Só que à medida que as garrafinhas de cerveja se acumulavam ao lado do sofá, no segundo exato em que ele resolveu colocar música e dançar, acho que na metade de “Faz parte do meu show”, de Cazuza, ele tentou me empurrar pro quarto. Foi quando eu entendi tudo. Ele seguiu tentando, esfregando o corpo dele no meu, puxando meu braço com mais força, e eu consegui me soltar. “E o que eu faço agora que meu pau tá duro?”. Peguei minha mochila pra ir embora. Ele parou na porta, me impedindo de sair, e disse sem paciência: “Eu sei que você quer, tá fazendo doce?”. Eu não estava a fim. Ele era bonito, mas não havia clima. Não tinha cheiro. Não tinha coração pulsando forte querendo explodir. Não tinha pernas tremendo de ansiedade. Não, não, não, não, não era ele. Não era sexo. Não cabia. Era só casa, cerveja, bom papo e música. Sem nenhum parênteses, sem nenhuma aspa. APENAS.

Comecei a sentir uma série de sensações que, lembro, passeava pelo nojo, ânsia e raiva. Comportamento esse que me fez empurrá-lo e dar um grito tão forte e tão alto. Ele parou com a mão na cabeça e não falou mais nada. Dentro do táxi, eu só conseguia pensar como eu era péssimo estagiário, péssimo filho, péssimo aluno. Pra quem eu iria dizer o que tinha acontecido? Pros meus amigos que acham que estou tratando o caso como uma donzela sensível, pura, assediada e quase estuprada? Que iriam me perguntar por que fui parar na casa de um homem gay pra beber cerveja tarde da noite? Que iriam me questionar se eu, tão esperto, não tinha sacado nenhuma “investida” dele?

Passei os últimos anos ouvindo que “homens transam como bichos porque precisam se aliviar mais” e quase todos os meus amigos não veem problema nisso, indo pra cama, às vezes, com qualquer “mercadoria” que aparece. Por que todo homem acha que estar em um ambiente fechado com outro homem é sinal de que DEVE acontecer alguma putaria entre eles? Por que todo homem que sabe que eu escrevo quer bancar o Deus que vai me livrar de todas as aflições emocionais ao despertar a delícia que é o prazer sexual? O Deus-salvador da libido. O que vai, finalmente, me levar pra cama pra tratar tristezas, angústias, neuras e solidão. Os gemidos que libertam. O suor medicinal passageiro. O gozo que cura.

Eu não sou contra a putaria. Eu sempre gostei de ambientes (todos eles) em que todo mundo flerta, todo mundo cogita, todo mundo fantasia, todo mundo provoca, todo mundo se pega. Mas tudo isso de forma natural e saudável, quando tem que ser. O que ele não entendeu foi exatamente isto: não cabia entre a gente, faltou o tal do clima, a tal da química que pra mim importam mais do que tamanho de pau. Mas digo mais: além de não levar pra cama, ele perdeu um amigo. Tem gente que, além de insensata, é inconsequente.