Hoje eu chorei com o carro do ovo

A primeira coisa que eu vi quando abri os olhos foi uma camiseta sua do Radiohead esquecida no cabideiro perto da porta. Eram cinco da manhã e eu sabia que não conseguiria mais dormir, exatamente como nas noites anteriores. Ultimamente meu sono tem sido interrompido de meia em meia hora por banalidades: o ar-condicionado forte demais, o edredom esquentando demais, o travesseiro que incomoda o pescoço, a luz que entra pela fresta da janela, gotas d’águas pingando de alguma torneira em algum lugar.

Eu reviro pela cama e não sei se sinto enxaqueca sete vezes pior do que ter passado vinte dias sem beber água ou se é vontade de vomitar às pressas, similar quando se acorda de ressaca. Eu ajeito minha coluna, estiro minhas pernas, arregalo meus olhos pra um ponto fixo do teto, aperto minhas mãos com uma força brutal de unhas capazes de estourar pequenas e inofensivas veias das palmas, e deixo me inundar de dor. É impressionante, mas toda vez que faço isso, sinto meu estômago me sacudir inteiro, o pulmão me jogar numa profundidade de ar quase extinto e minhas lágrimas me afogarem por completo.

Tomo banho com a cabeça debaixo do chuveiro por quase uma hora porque, de alguma forma, preciso acordar. Eu, que nunca fui de rezar tanto e nem de acreditar tanto, abaixo a cabeça e peço a santo Expedito: “o senhor deve ter ajudado tanta gente a não morrer por amor, não deixe acontecer essa tragédia comigo”.

A entrega ao amor dói tanto que você compra cortinas novas e vasos pra decorar a casa. Você volta a lembrar que existe uma força maior, uma energia no universo, um anjo da guarda. Você se lembra de Deus, você se lembra da sua terapeuta falando de amor próprio, você se lembra do abraço da sua mãe, você se convence que existe vida após a morte. A doação ao amor dói tanto que você chuta a arrogância e olha de verdade pro mundo, onde crianças catam restos de comida em lixeiras e pessoas morrem em enchentes e filas de hospitais. E você abraça a humanidade com muito carinho e se destrói junto com ela.

A entrega ao amor dói tanto que, uma hora, parece que parou de doer. Mas, na verdade, a dor está ali estagnada, acostumada, muito bem acomodada. Você liga pra sua tia que faz chá pra tudo que é doença. Tenta consumir uma cacetada de discos, de filmes, de festas, de notícias. Talvez se matricular na natação, talvez melhorar o inglês, talvez viajar, talvez mudar de emprego, talvez pensar num novo livro. Você apela pra toda e qualquer religião. Apela pros ex-namorados, incluindo os canalhas. Espera, chora, não sai de casa, não sai da cama, implora: qualquer um, pelo amor de Deus, por favor, joga essa dor fora de mim.

Não adianta. Certeza que nada ajuda. Mas o que eu vou fazer? Meu trabalho me lembra você. A rua paralela da minha casa onde você estacionava o carro me lembra você. A banquinha de jornal onde você comprava cigarro me lembra você. A camiseta da radiohead esquecida na porra do cabideiro me lembra você. Garrafa de água, chocolate de laranja, biscoito integral: tudo me lembra você. Vou me arrumar e vou pra onde, hoje, no Dia dos Namorados? Passar pela rua paralela da minha casa e parar na banquinha de jornal? Ver TV, a série badalada na Netflix, marcar com quinze amigos numa festinha que só frequenta homem bonito, falar besteira ao telefone, passar duas horas na esteira, escrever, criar um site, usar floral contra desespero… Nada adianta, nem dormir.

É triste te acompanhar em todos os corredores e todas as reuniões e fingir que nada acontece só pra não me sentir fraco. É triste esperar que o telefone toque com uma mensagem fofa sua enquanto o mundo todo pega fila em motel pra comemorar o 12 de junho igualzinho como faz todos os dias. É triste ouvir você, a menos de cem metros da minha mesa, dizer pra estagiária “fala com Murilo”. Falar o quê? Que porra ela vai falar?????? Você com a cara no computador ignorando minha existência. Você retinho naquela cadeira, naquela sala, no mesmo espaço, no mesmo ar. Amar você me cansa, me dá uma surra. Um amor que insiste pra deixar pra lá, pra renascer em outro canto, puro e honesto. Mas eu continuo. Eu me agarro na pontinha da rejeição. Eu imploro que ele fique, ainda que eu não consiga carregar o peso.

Seu Carlos me entrega as correspondências amontoadas, aí eu choro porque eu lembro que você passava na portaria e pegava tudo. Está chovendo, e eu choro porque você ficava lindo com sua jaqueta jeans clarinha que faltava alguns botões, e você lindo me dava muita insegurança. Aí eu vou escovar os dentes, e choro porque você sacaneava meu limpador de língua, e choro porque o gosto do Listerine me lembra seu beijo de manhã cedo quando você ia me buscar. Depois eu faço xixi, e choro porque a gente tinha liberado fazer tudo no banheiro de portas abertas, como um casal que tem intimidade há vinte anos. Eu preciso escolher a roupa pra formatura de Bárbara, e choro porque não quero ficar bonito, eu não quero ir pra frente, eu não quero a volta por cima, eu não quero o recomeço, eu não quero foto de copinho com cerveja nas redes sociais só pra te mostrar que eu estou bem, que eu superei. Choro porque acho ridículo esconder que sinto saudades, acho ridículo ter que paquerar de novo outro homem, acho ridículo o jogo da conquista.

Quando finalmente eu consigo escolher uma roupa bonitinha e passar um corretivo pra disfarçar as olheiras, eu choro porque o carro do ovo passou e a vozinha do vendedor, naquele megafone velho e fodido, me lembra você imitando, tirando sarro e fazendo palhaçada pela casa. A desgraça do carro do ovo me lembra a desgraça da rotina, a desgraça do riso descomprometido, a desgraça da alegria, a desgraça da pureza que existia entre a gente. Nada, nada aconteceu para o mundo. As pessoas indo e voltando no metrô. As pessoas em filas de supermercado. As pessoas experimentando sapatos em lojas de grife. As pessoas com a cara pro sol na areia da praia. E eu me sinto perplexo, sozinho, frágil por não receber o afago da vida lá fora, por não ouvir nem um “sinto muito” após a nossa morte, por ter que aguentar nos ombros limpadores de língua, xixis, roupas de festas e anúncios de promoção de ovo em kombis descascadas.

Odeio a exatidão de tudo, odeio a ordem de tudo, odeio a palavra “funcional”. Odeio que o aplicativo resolva o que eu quero no minuto dele, que o celular conecte com a TV só quando tem conexão com a internet, que meu estômago me lembre que preciso comer, que grupos de adolescentes deem risada alta em fast food e, principalmente, que você dê risada longe de mim. Vou ao trabalho, mais uma vez, sem nada dentro de mim. Nem água eu bebo mais. Me alimento de raivas e desesperos e faltas e esperas. Estou seco, chupado, consumido, com os ossos à mostra, a bunda que nunca tive mais pra dentro. Minha mesa está lá, meus e-mails estão lá, minha lixeira está lá, minha cadeira com a rodinha torta está lá, a menina gigante que usa casaco PP, a gordinha com voz fina de menina mimada que não para de me olhar até que eu olhe pra ela, sorria e dê um tchauzinho amigável. Está tudo lá.

Me tranco no banheiro e choro, olha que novidade! Mas dessa vez porque consigo, como um raio-x, visualizar o vazio dentro mim. Eu era vivo, proporcional. Eu era seu, o seu menino, o seu homem, o tipo de gente que te dava orgulho, o escritor que te deixava de boca aberta com textos sarcásticos, o seu parceiro de prender risada junto no cinema pra não irritar os outros, o seu namorado com medo de vomitar, de ser chato demais, de amar pouco, de amar demais, assim como você foi. O seu melhor amigo pra falar sobre o câncer da sua mãe, pra falar sobre carências de fim de noite, pra falar sobre o salário baixo, pra fingir cenas de discussões só pra chamar atenção de desconhecidos, pra imitar sotaques de turistas. Eu era o homem que prendia a cabeça nos seus ombros, que queria ficar dormindo no seu peito mesmo com a nuca em péssima posição acusando dores insuportáveis. Eu era o homem que pedia pra você ir embora pra dormir e chorava de saudade quando você ia. Meus amigos me pedem pra eu ser meu, inclusive pra ser seu, mas o inferno disso tudo é que é difícil dissociar nós dois. E faço o que com essas lágrimas? Meto no cu? Que se foda a lição de moral da terapeuta, que se fodam as experiências de superação de A e B, que se foda a autoajuda, que se foda a psicanálise, que se foda a ioga. Se antes de ser namorado, eu já esperava por você, como eu posso deixar de te amar e te tratar como um nada agora que você tem forma, nome, endereço, alma e coração?