Você jamais faria sexo por Skype

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Sábado, duas da manhã. Depois que ele voltou de um encontro com amigos no Chupito. Depois que eu voltei de um encontro com amigos na casa de André. E a gente tá lá: online no Skype. Talvez ele esteja assistindo um filme de Hitchcock ou de Tarantino em outra tela. Ou lendo alguma coisa sobre inovações mobile, pré-sal, pau-brasil. Ou vendo um pornô. Fico olhando a foto dele ao lado esquerdo da tela. Como ele é bonito. Aquela foto com pose heroica, esquiando, que nunca muda. Aquele sorriso grande congelado.

A gente nunca combinou dia e nem horário. Mas a gente sempre se encontra. E eu sempre puxo assunto quando ele não puxa assunto comigo. E ele dizendo o quanto queria sair comigo de novo, “mas porra, tá foda”. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse sair comigo de novo. Mas eu sei, tá foda. E ele me dizendo que bebeu um pouco no Chupito. E eu dizendo pra ele que bebi um pouco na casa de André. E ele focava a camerazinha e me mostrava: Olha, chazinho de hortelã pra me redimir do álcool. E eu focava a camerazinha e mostrava: Olha como eu fico feinho dentro de casa. Vou colocar outro chazinho no micro-ondas, tá? E ele levantava pra ir à cozinha e eu via que ele estava só com cueca. Os ombros largos, o peitoral cabeludo, o abdômen mais inchado — coisa de quem passa doze horas trabalhando em frente ao computador.

E ele voltava desfilando com a cueca branca. E eu me sentia meio incomodado, meio excitado, mas eu me dizia a cada calor: “Sem chance, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele. Sério, eu fico estranho com esse pijaminha? E ele concordava rindo. Aquilo era basicamente um encontro e eu não poderia estar e nem me sentir ridículo. E eu estava me sentindo ridículo. Eu jamais abriria a porta pra receber ele em casa com esse pijaminha. Eu jamais me encontraria com ele com esse pijaminha. Lá vou eu colocar uma camisa bonita que comprei na Osklen semana passada. Uma coisa que não me fazia sentir nem velho nem adolescente. Enquanto vestia, eu me falava: “Nem pensar, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele.

E ele ascendia um cigarrinho de maconha e soltava os cabelos. E tirava uma mecha de cabelo que insistia em cair nos olhos. E a mecha caía de novo. E então começava a briga dele com o cabelo. Um tira e cai. E eu colocava a perna em cima da escrivaninha. Abria a janela. Levantava a persiana. Meu Deus, como está quente aqui!!! E ele me conta que tem um fetiche. E eu mudo de assunto falando que Activia não regula nada no meu estômago. E ele não se importa com a minha minha flora intestinal e volta a falar do fetiche. E dá um trago no cigarrinho de maconha. E mexe de novo na mecha do cabelo que cai nos olhos. Que homem lindo.

E então ele me conta que encontrou aquele ator que ganhou o prêmio Braskem de Teatro e que dizem que é bissexual. E que ele tem fetiche em ir pra cama com dois caras, principalmente um bissexual. E eu comento que nunca transei com dois rapazes, mas, com ele e com o ator do prêmio Braskem… Nossa, super transaria. E ele me diz que também nunca quis saber de dois ao mesmo tempo. Sei lá, ele gosta de exclusividade, de fazer bem feito. Mas que comigo e com o ator que ganhou o prêmio Brasken… Nossa, até que não seria má ideia.

E ele pega no pau, pensa que eu não vejo. Será que ele tá excitado? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa bermuda jeans que sufoca as minhas coxas. Não tenho culpa dos setenta e oito graus de Salvador. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar a bermuda, ele não vai ver! Mas eu estou com a camiseta que comprei semana passada e o short do pijaminha. Não existe bermuda. Caramba, então por que essa vontade de tirar a bermuda? Não sei de nada, só sei que ele é um homem bonito, interessante, inteligente, bem-humorado, ganha bem, charmoso, pegador. Não precisa trepar com outro homem pelo Skype. E eu, bom, eu tenho aí uns três ou quatro amiguinhos que me visitam num desses dias mais calorentos. Jamais na vida precisei trepar com uma camerazinha, com a imaginação e com umas frases seguidas por emojis felizes, surpresos e amarelos.

Ele me mostra um livro de Marília Garcia. Eu mostro um livro de Paulo Mendes Campos. Nossa conversa literária não dura dois minutos: ele quer putaria. E ele quer voltar ao assunto do sexo a três, com o ator do prêmio Braskem. E eu comento, assim, na brincadeira, juro, que eu queria experimentar o tal ator, mas só se ele estivesse comigo também. E ele para de falar comigo alguns segundos. E acende outro cigarrinho de maconha. E bebe mais um gole do chazinho de hortelã. E mexe no cabelo. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o tal ator.

E eu começo a achar que essa conversa tá indo longe demais, sabe? Caramba, sexo pela internet é tão MSN. É tão adolescente. É tão 2006. É tão internet discada. É coisa desses caras meio doentes, não? Desses caras preguiçosos que preferem bater uma rapidinha do que levar alguém pro motel. E desses garotos feios e tímidos. É coisa de gente que não tem capacidade pra conquistar ao vivo. Ou de nerd com espinha que joga vídeo-game o dia inteiro, sei lá. E ele é um puta publicitário. E ele é um puta escritor. E ele é um puta roteirista. Não é nerd, não é feio, não é tímido, não é preguiçoso. E eu sou maior legal. E dei uma melhorada nos últimos anos.

E ele vira o último gole do chazinho e coloca a xícara na mesa. E lambe os lábios. E passa, pela trigésima vez, a mão pelos cabelos. E me manda um beijo. E eu enlouqueço naqueles cabelos e naquela boca e naquela língua. Mas já são quase quatro da manhã e a gente tá meio bêbado e ele mora em Vilas. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, bebendo chazinho, fumando com ele, passando a mão naqueles cabelos, mordendo aquela boca. E então, imediatamente sem pensar, ele escreve “enquanto você beija ele, eu beijo o seu corpo inteiro”. E eu, imediatamente sem pensar, respondo “enquanto beijo ele, é o seu gosto que eu sinto”. Depois disso, a coisa piora muito. Escrivaninha, sofá, corredor, armário da cozinha, elevador, piscina. A gente transa loucamente em todos os lugares possíveis. Eu, ele e o ator do prêmio Braskem.

Eu, que jamais pensei em fazer sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei da série Looking, depois lembrei da série Queer as Folk. Os personagens que faziam isso eram descolados demais pro meu gosto. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da área de serviço, ou melhor, em cima da máquina de lavar. Não era a melhor hora pra pensar em série. No fim das contas ele brochou. Ou melhor: a imagem travou e ficou lenta, o que dá no mesmo que brochar. E no dia seguinte, ele fez o que todo homem sempre faz comigo: sumiu. Não apareceu no Skype, não respondeu mensagem, não atendeu o telefone. Ele simplesmente sumiu. É impressionante como até a maneira de fazer sexo mudou, mas a dificuldade em entender relações continua igual desde o tempo das cavernas.