Me ligue assim que você chegar em casa

Cravos no nariz e perto da sobrancelha, achei que a pele estava ressecada porque creme é coisa de gente vaidosa e ele já havia me avisado que não era um desses caras que se lambuza de esfoliantes e cuida do cabelo. Mas eram cravos imensos no nariz, e ele, orgulhoso, parecia não estar nem aí pra isso. Você é desse tipo que planeja fazer plástica quando fizer 30 anos? A acidez dele interrompeu minhas observações e frescura e um pouco de nojo e eu respondi, orgulhoso dos cravos por todo rosto dele: claro que não.

Nosso primeiro beijo foi no meio de uma peça de teatro no Martim Gonçalves. Ele disse que ali não era lugar nem hora praquilo, mas as luzes vermelhas e amarelas do palco que invadiam a plateia me deixavam mais bonito e ele não conseguia segurar. Mais cedo, eu disse que ele fazia careta jogando boliche e que eu ria como uma criança de cinco anos com toda essa performance. Todos os detalhes daquele dia mereciam ser guardados.

Na foto de perfil do Tinder ele parecia ser mais adulto do que ao vivo. Mas ao vivo ele me pareceu ainda mais adulto do que na foto. Sei lá, não queira entender, eu também não entendi nada.

Do nada, só porque ele segurou a minha mão na entrada do japonês, eu tive uma vontade absurda de perguntar se ele acreditava em casamento, nessa coisa de viver a dois e dar um foda-se pra essa porra de mundo escroto e egoísta, mas fiquei com medo dele me achar um desses loucos carentes que sai pela primeira vez com um cara de aplicativo em busca do amor da vida. Fiquei com medo dele ver a verdade na minha pergunta sincera. Não perguntei. Deus me livre perguntar uma coisa dessas. Mas assim que coloquei o celular na bolsa, assim meio distraído, virei, olhei pra ele e ele me perguntou: você acredita em casamento? Nessa coisa de viver a dois e dar um foda-se pra essa porra de mundo escroto e egoísta?

No banco de trás do Uber, ele passou os braços nas minhas costas até a mão alcançar o meu peito esquerdo e ficou brincando com meu mamilo, e eu achei aquilo mais inteligente do que todos os livros de ciências sociais que ele costuma ler. Não era uma mão enfiada dentro da minha roupa me cobrando intenções, também não era uma mão morta de intenções movimentando dedos vivos e deixando digitais perdidas no meu corpo. Eram apenas intenções. E daquelas que me fazem ficar parado, sem pensar em nada, quase implorando “pra que não, não pare, por favor”. O êxtase endurecendo, sem muito esforço, a pontinha do meu peito.

Eu disse que queria apresentá-lo ao meu avô. Ele ficou se perguntando se tinha assunto pra conversar com um cara de 108 anos. Ele topou mesmo assim. Mas quando chegamos no cemitério Jardim da Saudade a porta estava fechada. Eu disse que queria comer um daqueles espaguetes cheios de molhos e queijos e mais molhos e mais queijos. E ele ficou se perguntando se depois de um japonês cabia espaço no estômago pra um italiano. Ele topou mesmo assim. Mas quando o prato chegou na metade eu já estava com aquela ânsia transbordada de perfeição e senti um enjoo típico de quem já tem tudo. Impressionante como esse sentimento é muito parecido com o que sinto por ele.

Ele é daqueles caras que usa roupas bem limpinhas, com cheirinho de amaciante de mãe, mas tem a mente suja de becos e bordéis da parte mais suja do centro da cidade. Ele fala “gostoso” no seu ouvido e depois te beija deixando a respiração sair pela boca pra você ficar imaginando como será que é ele fazendo isso transando. Ele é bem o tipo que gosto na fase que eu estou.

Meu filho vai se chamar Bernardo ou Caio ou Joaquim, o dele Benício. Ele nunca vomitou depois de misturar bebidas destiladas e geladas, eu nunca não vomitei depois de misturar bebidas destiladas e geladas. Ele disse que a casa emprestada dele tem cheiro de tristeza. Que talvez criar um jardim na janela tire o tom de solidão. Eu disse que jamais iria visitá-lo na casa triste dele porque atraio tristezas. E sinto tudo. E me sinto mole. E me sinto sozinho. Eu disse que sempre me sentia sozinho. Ele disse que não sabe o resultado que dá quando somamos solidão.

Uma mulher pálida vestida com roupa pálida atravessou a rua escura sem olhar pra gente, como um fantasma, e ficamos felizes porque ninguém sabia daquele momento a dois além da gente. Depois eu lembrei que todo mundo chega, mas ninguém fica, e tive vontade de dar o grito mais alto do mundo e chorar o choro mais alto do universo.

Olha, deixa quieto, eu também não entendi nada. Ele combina muito comigo, mas, sei lá, deixa quieto. Eu tive vontade de dormir no colo dele, em cima da calça ridícula que ele usava. Mas eu fui embora antes que isso me atormentasse e pudesse ser mais uma lembrança eternizada por quereres amarelados.

Ele me pediu desculpa por, sei lá, talvez ser um pouco frio. E eu quis socar a boca rosada e bonitinha dele até sair sangue. Ele disse que minha boca era linda, eu sempre achei isso, mas as pessoas só me falam quando querem putaria e, pela primeira vez na vida, eu ouvi isso sem maldade.

Ele me perguntou qual o horário do dia eu mais sofria. E eu perguntei do que ele mais sentia falta. Fizemos cara de dor e mudamos de assunto, não era nem lugar e nem hora praquilo. Acertamos um conceito nosso de que o vício pela conquista, pelo comecinho do amor, é imaturidade. E que conviver sem ninguém, numa autossuficiência, é autoproteção.

O caralho do cheiro dele colocava fim na minha rinite e essa foi a maior demonstração de carinho da noite. Era a hora de me despedir dos braços dele e de contar, por consideração à noite, que eu usava base líquida pra esconder pequenas manchas de espinha no rosto.

As mesas vazias ao redor do bar e os garçons amarrando sacolas pretas de lixo trouxeram a certeza do fim e o cansaço de atuar em mais um filme de cinema independente, com o mesmo roteiro e o mesmo papel.

Ele pediu a conta envolto de garrafas de cervejas vazias e bitucas de cigarro, concretizando os minutos finais de inúmeras possibilidades que morriam como possibilidades. Eu pedi um Uber pra ir embora tendo a certeza, absoluta, de que nunca sou eu que vai embora. Mas antes do carro arrastar, da janela, ele se debruçou e, meio bêbado, mas com a lucidez gritando nos olhos, me disse: me ligue quando você chegar em casa. Não é pra você me mandar uma mensagem por WhatsApp. É pra você me ligar. É pra eu ouvir sua voz. É pra eu saber se você chegou bem. Me promete?