De todos os presentes que você me deu no Natal, o melhor foi o pé na bunda

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Do olho mágico da porta da sua casa, você me viu parado, roupa esticadinha, coração a duzentos por hora. A porta se abriu e lá estava você: suado, sem camisa e sem graça porque, afinal de contas, era tudo mentira que sabia cozinhar. O cheiro de queimado do peru invadiu a sala e sua única saída foi pedir um delivery numa pizzaria vagabunda da esquina. Essa seria a nossa primeira ceia de Natal. Você me abraçou como se desculpasse por mais uma atrapalhada e ali eu tive certeza que te amava de forma absurda e infinitamente.

Eu tinha motivos reais pra te amar. Você é lindo, sua paciência é maior do que a de qualquer Buda, seu abraço quente acalma qualquer pessoa insegura, seu sorriso imenso humilha meu mau-humor, e você é bom em tudo (menos na cozinha), ainda que não queira sem bom em nada. Seu coração é gigante, tão gigante, que é incapaz de enxergar maldade.

Mas eu não te amei por causa da sua beleza, paciência, abraço, sorriso, coração e capacidades. Eu te amei absurda e infinitamente, mesmo, por causa do nosso primeiro Natal juntos. O Natal que você não tinha mais a sua mãe. O Natal que você chorou na área de serviço porque é muito triste e solitário ser adulto. O Natal que você me deu uma caixa com os CDs de Chico Buarque. O Natal do delivery vagabundo e do abraço suado de desculpas. E assim foi por um ano. Eu me perguntava quando amar você absurda e infinitamente teria fim.

Eu tinha motivos reais pra deixar de te amar. Você acompanhou, com olhos sofríveis e humilhados, passo a passo do seu ex naquela festa e eu continuei te amando absurda e infinitamente. Você mentiu que iria dar plantão no trabalho e foi à praia com seus amigos bombados. Você disse, com a boca cheia de certeza, que seu maior sonho era ter um filho, mas, meses depois, descobri que você não gostava de criança. Você achava que, obrigatoriamente, aproveitar qualquer minuto raro de carinho no sofá precisava terminar em sexo. Você me largou sozinho naquele hospital frio e imenso, com a minha mãe sem saber se tinha ou não diabetes, e foi beber com seu chefe num barzinho badalado.

E eu, mesmo me dizendo que não, mesmo me dizendo pra dar um fim, te ouvia, te entendia, te perdoava, insistia na gente. Até o nosso segundo Natal, quando você me mandou embora do seu quarto, da sua casa, do seu carro, das suas expectativas, da sua vida. Você simplesmente fechou as portas pra mim. E eu passei um ano quietinho, te esperando, descartando pessoas interessantes e interessadas por mim. Eu segui querendo ser um homem melhor pra você. Quem sabe mudando as roupas, o cabelo, ficando mais piadista ou mais inteligente, você não volta pra mim?

Foi assim que me matriculei simultaneamente no pilates, numa academia de ginástica, no teatro e em cursos de inglês e de roteiro. Nos meses que se seguiram eu me tornei um dos seres mais fitness e culto do mundo. E sabe o que aconteceu? Nada. Absolutamente nada. Você continuou com as portas fechadas, não lembrando que eu existia.

Foi então que passei 60 dias no Sul, exclusivamente em minha companhia, conhecendo lugares incríveis, controlando meu pânico em estar sozinho e meu medo de estar longe de casa, me tornando mais experiente, mais vivido. Voltei de viagem e nem sinal de vida. Nada. Absolutamente nada. Você continuou com as portas fechadas, não lembrando que eu existia.

Comecei um projeto de clipe literário com uns amigos, aprendi a fazer tântrica, mudei meu cabelo 135 vezes, aumentei as consultas na terapia, baixei uns 60 álbuns de bandas geniais, li mais uns 2oo livros, frequentei o espiritismo, estudei astrologia, rezei pra Santo Antônio umas sete mil vezes, pedindo, pedindo, pedindo, pedindo tanto pra que você enxergasse que amor maior do que o meu não existia.

Como última cartada pra mostrar que eu era um homem interessante, fiz uma festa em casa, coloquei a roupa mais bonita e com cheiro de loja, decorei tudo minuciosamente, servi um vinho branco maravilhoso e comidinhas feitas, claro, por mim, que, diferente de você, aprendi a cozinhar. Chamei todos os meus amigos e postei mil fotos no Instagram. Eu ia ao banheiro com o celular na mão. Resultado disso tudo: silêncio absoluto. Nada. Nem um e-mail, nem uma mensagem, nem uma ligação, nem uma curtida, nem uma conversa. Absolutamente nada.

Os meses passaram, eu continuei acordando e indo dormir todos os dias querendo ser mais interessante pra você, mais bonito pra você, mais homem pra você. E eu me perguntava, quase sem ar, quase sem conseguir me mover, quando eu finalmente cuidaria da minha vida? Quando eu iria finalmente superar você? E foi assim, sem me dar conta, que um dia eu acordei com a meta alcançada, me achando muito bonito, muito feliz, muito realizado, muito interessante, muito culto, muito homem, que eu acabei me tornando homem demais pra você.

O tempo me devolveu à vida e matou o homem que eu mais amei no mundo bem na noite do Natal deste ano. Enquanto todos, com seus sorrisos e ceias fartas, comemoravam o nascimento de Jesus, eu comemorava a sua morte. A morte do homem que eu já tinha sido mais crente, fiel, idólatra, escravo, masoquista e discípulo do que pra qualquer outro deus. Faltavam quinze minutos para a ceia e você me mandou um áudio pelo WhatsApp. Meu coração a duzentos por hora, exatamente como no nosso primeiro Natal. Apertei o play e ouvi sua voz firme e banal: “esse áudio não é uma recaída natalina, não. É apenas porque estou aqui, sozinho, no Natal, de bobeira, e pensei… quer comer pizza e transar?”. Não, eu não quero pizza, eu não quero transar.

O homem do delivery vagabundo e do abraço suado de desculpas se transformou num homem feio e solitário e infeliz e descartável. Sem mãe, sem namorado, sem sexo, sem ninguém pra passar o Natal. Pode até parecer dor de cotovelo, raivinha de ex, mas levar um pé na bunda foi o melhor presente que ganhei em todos os natais que já tive na vida. “Cadê ele, amigo?”. Ele quem mesmo?