Troquei meu namorado por uma mulher

Hoje faz quatro anos. Acho superinteressante usar a palavra “afoito” na segunda linha da crônica. Ia ler em voz alta um trecho do meu primeiro livro, mas você certamente olharia por cima dos óculos com a arrogância de quem costuma ler obras clássicas não traduzidas, sentenciando a minha morte como escritor sem nem permitir ouvir meu choro pós-parto: “Jogo de palavras bem fraquinho, Murilo. Lançar um pacote de frases de efeito num papel é ter uma escrita barata. Você tá perdendo tempo com esse tipo de literatura”. Ansiedade por chegada, mãos dadas, conversas, roupas bem passadas, perfumes pra provocar. Não precisamos mais ter “programinha de casal”. Aos sábados, das sete às onze e meia da noite? Enquanto todos os meus amigos estão em motel, bares e restaurantes charmosos com luz baixa jantando com namorados no Rio Vermelho, você se reúne com seus quase dois mil amigos mal-humorados do doutorado na varanda do seu apartamento de duzentos metros quadrados, cercado de muitas teses e dissertações sobre povos indígenas, com muita maconha e vinho branco, proclamando ódio antitudo com Nina Simone tocando de fundo. Eu falei em “ambiente público”, enquanto você cortava queijo em cubinhos, e você apressou um “ei” do tipo que só levanta as sobrancelhas metade do que poderia, um empinadinho de lábios: “Chega uma hora na relação que esse discurso apaixonado com tom de cobrança não é mais importante. Pelo contrário, fica tedioso”.   

Já faz dois anos e um mês. Acho que cheguei a comentar com você, num daqueles almoços na cantina da Facom, sobre a minha vontade de experimentar uma mulher. Sei lá, uma alma feminina que pudesse me entender. Minha mãe, quando eu era criança, me disse que só uma mulher consegue colocar um homem no caminho certo, e, não à toa, agora, todas as vezes que acordo, lembro compulsivamente dessa frase e do dia em que ela, passando hidratante corporal Âmbar (aquele da tampa de alumínio da Phebo) nas coxas e pernas, me disse isso, talvez prevendo o futuro. Eu conheci Ana através de uma professora de teatro. Ela me viu com os olhos pesados no jardim do Martim Gonçalves e entendeu tudo: “Vai lá, conhece ela. Aposto que cê vai gostar”. Foi pouco depois do Carnaval e a Barra ainda estava em turbulência. Sujeira, fedor, buzinas, turistas perdidos, calor e gente bêbada. Tinha tudo pra ser confuso e estressante, mas Ana me recebeu com o instrumental de Quiet One e vasinhos de rosa menina espalhados por janelas e mesas. A partir daí, só ela me viu completamente nu. Só ela soube do meu medo de não ser bom o suficiente. De não conseguir ser bonito, inteligente e engraçado. A nossa primeira vez foi um orgasmo intergaláctico, a volta ao útero materno.     

Já faz um ano e três meses. Acho que seu tom de pele combina com roupas de cor fria. Deixei tudo bem passado em cima da cama. Você escolheu uma camisa branca que tem uma mancha amarelada no sovaco. “Mas entenda, não é importante”, você disse com uma maldade educada que ultrapassa dentes, cotovelos e ombros. Chegamos ao Mercadão CC à noite pra comemorar meu aniversário. Você atendeu ao telefonema do seu ex e eu percebi, pela maneira desconfortável de franzir a testa pra mim, que alguma coisa estava muito errada. Eu me tranquei no banheiro e mandei uma mensagem pra Ana. Ela me respondeu dois segundos depois: “Quer conversar pessoalmente? Eu te encontro em qualquer lugar. Basta você querer”.

Já faz oito meses. Acho que eu fui cansando de tantos silêncios e gritarias que eu nem sei dizer o que tanto me incomoda. Cansei de transformar minhas ansiedades ainda pouco interpretadas em roteiros divertidos. Era apenas uma maneira muito doida e doída de te pedir socorro. Eu sempre quis ser incrível pra você mesmo quando eu estava desesperado, me sentindo um lixo. Então, por favor, perceba quando é um pedido de ajuda ao invés de flertar com o que você chama de “esquisitices” e largar um desafetado “não dá pra te levar a sério, eu já falei”. Eu conto pra Ana sobre você ter me deixado sozinho no hospital, quando minha mãe estava internada, pra você beber com seus amigos. Isso não é nenhuma novidade. E conto outras dezenas de histórias de namorados que me largaram em algum lugar. E ela me olha assustada: “Mas, peraí, por que você está dando gargalhadas se isso é completamente triste?!”.

Já faz seis meses. Tenho certeza que consegui me dividir entre você e Ana, no que apelidei de “amores neuróticos”. Até que num sábado, quando você estava à espera dos seus quase dois mil amigos mal-humorados do doutorado pra mais uma social na varanda do seu apartamento de duzentos metros quadrados, cercado de muitas teses e dissertações sobre povos indígenas, com muita maconha e vinho branco, prestes a proclamar ódio antitudo com Nina Simone tocando de fundo, eu te disse: “Eu preciso muito transar e você não tem vontade. Tem uma mulher me ajudando a ter. E aí, como a gente fica?”. Eu passei a ler tanta coisa interessante por indicação de Ana. Eu vi filmes interessantes, exposições maravilhosas. Eu passei a sair sozinho, a me enxergar, a ver o mundo de outra forma. Quando você me disse que “tudo que a gente tinha era pouco pra insistir em dar certo”, percebi que não adiantava continuar. Eu era outro homem. Uma pessoa muito maior pra uma relação tão pequena. Mas antes de arrumar as minhas coisas pra ir embora, uns casacos e uns livros desarrumados na estante, numa tentativa tola, tentei convencê-lo a fazer a três. Talvez Ana resolvesse o nosso problema. Talvez ainda houvesse alguma solução. Não sei, as relações merecem sempre de mais uma chance. Nem que fosse a milésima. Você nem me olhou nos olhos e, fumando o resto do cigarrinho de maconha, enquanto lia qualquer banalidade no jornal, de pernas cruzadas com seu casaquinho amarelo sem cor, me disse: “Se eu cobrasse como ela, você certamente ficaria”. Eu preferi ficar com a terapeuta meio cigana, de saias rodadas e compridas, que anda descalça pelo consultório e alinha os livros na estante quase compulsivamente, psicanalisando e ensinando a ter resistência e paciência imperturbável pra enfrentar com tranquilidade de espírito a tarefa única de conhecermos a verdade sobre nós mesmos e acertarmos nosso lugar no caos da vida, mas perseguido por uma sensação absurda de que, de repente, talvez, você apareça no consultório dela pra alguma sessão de terapia de casal. Nem que seja com a desculpa de entregar a escova de dente laranja que eu esqueci na sua casa.