Nunca amei Jadson

Estou numa festa de jornalistas, cineastas e publicitários descolados, bem-humorados e sinceros. Mentira. Estou numa festa de jornalistas, cineastas e publicitários metidos a descolados, a bem-humorados e sinceros. Visto uma calça mais apertada do que a de cantor de música sertaneja pra esse tipo de festa. Escolho minha presa, porque ele me olhou tanto e me ofereceu caipirinha e porque passei a ter preguiça de correr atrás de quem não me olha e não tenta me conquistar, e o convido pra “dar uma esticadinha” na minha casa. Ele é alto, forte e tem a barba idêntica a de David Beckham. Ele não quer que eu tire a camisa e nem as meias. O resto todo eu posso tirar.

Transamos, a princípio, no puff novo e marrom que comprei. Depois pulamos pro sofá. Coisa rápida. Não lembro se o nome dele é Davi, Diogo, Deivisson ou Rafael. Não consigo gozar porque estou preocupado demais com os cinco segundos em que nos encostamos sem camisinha (e a minha neura com DST só para de me assustar depois que faço uma bateria de exames). Não sei quem é esse cara. Não faço ideia se ele tem ou não namorado ou se é casado. Ele não é divertido, ele não consegue fazer ninguém rir, não é charmoso, não abraça forte e acha que estar em forma aos 38 anos e falar duas frases de efeito sobre ser um “jornalista que virou advogado que surfa” é o que faz rapazes de vinte e poucos anos irem pra cama com ele.

Não existe nada mais clichê em Salvador do que ser um engravatado em dias úteis metido a “amante do mar e da maresia”, nos fins de semana, em alguma praia no Litoral Norte. Pode até funcionar com alguns rapazinhos deslumbrados e igualmente burros, mas o que me fez ir pra cama com esse sujeito, além de carência e tédio existencial, não tem nem um pouco a ver com o que ele é, com o que ele possa me prometer, pensar, dizer ou fazer. Foi o nariz grande. Foi a bunda seca. Não tenho mais predileção por homens de nariz pequeno e bunda gigante, tipo a de Hulk da seleção Brasileira. Gosto de sair com homem narigudo e bunda magrela. Homem nenhum deveria ter bunda grande. Homem tem que ter carteira cheia no bolso de trás.

Ele quer transar agora em cima do balcão da cozinha. Não tem onde segurar. Não achamos uma posição. Não temos intimidade. Não temos um sexo com direito a putaria fofa no ouvido. Não temos nada. Tentamos ser carnal, sensual, atual, natural, mas depois de tanto tentar perdemos até a vontade de transar. O efeito da caipirinha passou e agora somos dois completos desconhecidos em cima de um balcão de cozinha tentando disfarçar o imediatismo, a angústia profunda e a carência passageira de fazer amor sem existir amor. Pra piorar, sentimos um sono matador de puro tédio e uma azia que piora até com água mineral.

Nada disso é bonito, prazeroso, erótico, sensual. Vou falar o que na terapia? Vou falar o que pros meus amigos? “Ah, peguei um gostoso numa festa e transei em todos os cômodos da casa”. Ah, tá, grande coisa. Você perdeu um tempo precioso em que poderia estar fazendo aeróbica pra perder a barriguinha que ganhou nos últimos meses. Poderia ter assistido TODOS os filmes indicados pelo Guia Folha. Então, os amigos falam: “Mas desse jeito você não vai transar nunca porque encontrar amor tá é difícil”. Eu sei e tudo bem. A única putaria que vale a pena só é possível com quem a gente ama. A maior putaria que existe é o amor. E é isso que eu ainda quero.

Só quem ama fica enlouquecido com um sinal no peito direito, com uma mancha vermelhinha de picada de mosquito na nuca, com um pentelho solitário escapulindo da calça. O amor acontece quando não se pensa em sexo, mas faz sexo pra sentir bem fundo que o outro está ali, ainda, se entregando. Amor a gente não esquece nome. É sexo não comandado pelo cérebro, pela razão. É expulsar, inconscientemente, a frase “desculpa, mas cê pode tomar um banho antes?” do dicionário. O amor acontece quando você não faz cara feia ao se amassar com moletons azedos. Não existe nojinho de suor do fim do dia ou de cobranças de hálitos de comercial de creme dental às sete da manhã. Não existe limitação. O amor é mil vezes mais sujo, libidinoso, perverso e patológico do que transar com qualquer carinha sujo, libidinoso, perverso e patológico num banheiro de um rolê sujo, libidinoso, perverso e patológico.

Aquilo que você faz num quarto – com as luzes apagadas, incenso, MBP baixinho, lençol branco e com cheiro de amaciante -, é muito mais perigoso e pornográfico do que uma foda rápida com um desconhecido de bunda seca e nariz grande. Essa putaria rolando solta pelas baladas afora não passa de desculpa barata de gente que evapora dos poros inveja do amor. O amor é pra quem tem coragem. O sexo casual, sem papo e sem fôlego, é coisa de menininho.