O louco se rasgando em praça pública

Texto: Murilo Melo | Arte: Aquele Eita

Ao longo dos últimos sete anos trabalhando como jornalista e sendo convidado pra confraternizações de fim de ano, colecionei muitas situações e lugares pra passar mal. Lembro de quando, completamente chapadão de ansiolítico, fiquei tonto com o globo de luz da festa e, pra me distrair, insisti pro meu editor dançar funk comigo. O jornal A Tarde estava fazendo cem anos e resolveu dar uma festa no Zen, uma casa de eventos no Rio Vermelho.

Nem na minha maior crise distímica com “não quero levantar da cama hoje pra escrever casos de polícia” eu arreguei quando se tratava de questões profissionais. Já quando se tratava de confraternizações, principalmente de fim de ano, sempre me debati: preciso mesmo aturar crises de ansiedade, tédio, e ficar fóbico e enjoado e com diarreia e manias e nojos e raivas e nervosismo e tremedeira e ter que chorar e arrumar gavetas e caixas e livros e molhar plantas e criticar textos e detonar coisas e pessoas e lugares e antes da crise propriamente instaurada ter que me entupir de listas e mais listas e mais listas e mais listas de tudo que preciso fazer nos próximos quinze dias ou cinco anos da minha vida, apenas por causa de uma festinha em que todo mundo passou o ano inteiro falando mal na firma e agora abraça calorosamente e descompromissado?

Tudo isso me faz lembrar um elefante obeso que insiste em dormir em cima do meu estômago pós-feijoada extrema. Será que eu preciso mesmo carregar um elefante obeso no meu estômago e sentir azia e aguentar dores na cervical e na lombar só por causa de uma festinha cheia de publicitário descolado, cineasta papo-cabeça e jornalista hipster? Mas muitos amigos que trabalham nos maiores jornais sempre me disseram que sim. Para ser visto, crescer em qualquer veículo de comunicação e fazer uma lista de contatos, tão (ou até mais) importante quanto escrever bem é ser lembrado pela turma que vai julgar se você escreve bem ou não, se você é interessante além do cargo ou não. E, para ser lembrado, é preciso estar presente. E estar presente, em Salvador, é ir às festas – desde reuniõezinhas com seis pessoas em botecos do Dois de Julho até confraternizações com mil pessoas em boates do Rio Vermelho.

Quando minha chefe me convidou, na última sexta-feira, para a confraternização da agência de publicidade que trabalho, sentei no sofá de casa, prendi minhas pernas com os braços, repousei meu queixo nos joelhos e tive uma conversa séria comigo mesmo. Ir para festas é importante. Ir para festas é não ser lembrado como estranho. Ir para festas é ser adulto. Sim, eu sou um homem com 27 anos. Não dá mais pra ficar passando mal toda vez que eu ouvir as palavras ‘confraternização’, ‘festa’ e seus derivados.

Em dez minutos, decidi que nunca mais passaria mal nem tomaria remédios (nem um comprimidinho sequer. Nada. Nem um comprimidinho sequer). Decidi, com muita determinação, maturidade e força de vontade, que precisava me esforçar pra ser um pouco normal e estar inteiro e esperto nesses encontros. Não posso chegar lá chapado. Lesado. Com roupa bonita, mas com cara de sono. Não vou tomar, não vou tomar, não vou tomar.

Não tomei nenhum remédio e fui pra casa da minha chefe, no Jardim Apipema. Cheguei quase três horas depois do combinado. Estavam todos ainda muito bem arrumadinhos, gelos intactos, subdivididos em grupos de afinidade, sentados de pernas cruzadas com suas roupas bem passadas, da moda. A música mais alta do que a sinceridade. Todo mundo na linha horizontal, sem curvas. Sorriso na linha horizontal, sem curvas. E porque eu era novo na agência e não conhecia muita gente além do meu setor e porque eu não sabia nada pessoal sobre aquelas pessoas e, consequentemente, não pudesse dizer nada pessoal para aquelas pessoas, pensei em ficar na linha horizontal, sem curvas.

Se tem uma coisa que minha angústia não aguenta é essa situação ‘vida fake’ em que não posso ficar à vontade e que, hipocritamente, todos sabem que todos não estão à vontade. Quis arrotar nos primeiros goles da primeira cerveja. Mas e aí, como faz? Como faz pra arrotar com tanta gente arrumadinha no sofá, retinha na linha horizontal, sem curvas? Preciso sentir o abraço febril das pessoas. E constatar que aquele abraço serve como uma manta. Preciso logo conquistar o coração de todos pra suprir a minha incapacidade de participar de qualquer evento social sem sofrer. Preciso logo saber que meu arroto seria aceito ali, sem a necessidade das minhas idas urgentes ao banheiro. Justamente pra que eu nunca arrote, preciso saber que seria perdoado se, por descuido, eu arrotasse.

Na segunda cerveja, fiquei muito agoniado porque eles mediam cada letra das palavras que diziam e só faziam vomitar frases de efeito sobre viagens internacionais e séries da Netflix, como “Ah, ‘Narcos’ é boa, mas não vicia”. O tédio gritando por olhares silenciosos. Então quer dizer que iríamos passar a noite naquele apartamento na linha horizontal, sem curvas? Quer dizer que iríamos ficar sempre nos ajeitando nos pufes, preocupados com temáticas jogadas na roda e sendo podados pelas temáticas jogadas na roda?

Na terceira cerveja, começou a tremedeira e o elefante obeso insistiu em dormir em cima do meu estômago pós-feijoada extrema, e eu não suportei. Quando vi todo mundo morgando nos pufes, eu não suportei. Sempre fantasio que todos estão mortos de tédio e me responsabilizam pra que eu vire o jogo da vida. Quando não estou sedado por ansiolíticos, a minha ansiedade não me permite ficar na linha horizontal, sem curvas. Preciso logo fazer graça pra todo mundo rir. Preciso logo parecer louco pra todo mundo sentir que sou humano. Preciso tirar todas as minhas peles e ficar em carne viva. Preciso deixar a sensação de falta quando eu for embora. A sensação de falta quando eu não puder aparecer. A sensação de falta quando não me convidarem. A sensação de que, se não me convidarem, a festa não vai ser a mesma, não vai ter a mínima graça.

Em menos de meia hora na festa, com música chata e decoração natalina chinfrim, eu não suportei aquilo e dei início ao meu festival de horror. Contei que terminei com um cara porque ele acordava de madrugada pra desemperrar o basculante do banheiro que não estava emperrado; que terminei com outro porque ele não conseguia dormir: sentia falta da mãe, do pai que morreu e de quem ele era quando era criança. Disse, logo de cara, quais pessoas me impressionavam ali e passei mais da metade da noite perto delas, deixando claro que o resto não me interessava tanto. Dei uma bronca no diretor de arte porque ele fez xixi três vezes com a porta do banheiro aberta e eu achei aquilo um desrespeito, como se a casa fosse minha.

Remexi os armários da casa da minha chefe, sem ter liberdade, e passei cremes importados em braços e pernas apenas porque “me deu uma vontade louca de fazer isso”. Li, sem pedir licença, um texto que escrevi sobre solidão urbana. Contei, com a boca mais aberta do mundo, que tinha acabado de levar um pé na bunda de um jornalista conhecido do jornal Correio e expus tudo sobre ele. Fui falando que só aceitei o freela numa revista porque eu estava de olho no meu chefe que era muito gostoso, porque se dependesse do salário daquela merda ou de um salto na carreira nem lá eu aparecia.

Todo mundo riu. Todo mundo sempre ri. Claro, no meio de tanta gente se podando com assuntos que não comprometem, se aparece alguém que fala alguma insanidade no meio do tédio, interessa. Se aparece alguém desbocado, vale a pena ter feito depilação e saído de casa. Quando eles veem um louco, desses que se rasgam em praça pública, falar tanta barbaridade, anima. No mínimo um espetáculo particular. Um teatro pronto. A graça instantânea no meio do tédio. O trem descarrilado.

Na nona cerveja, na ânsia de logo pertencer àquele seleto grupo de apartamento, quando dei por mim, eu já estava na porta do banheiro da festa dando conselho pra uma menina meio deprimida que não entendia por que o cara que ela estava apaixonada sumiu. Quando dei por mim, eu já estava no sofá da sala, aos prantos, explicando pra um menino que eu nunca vi na vida, que eu não entendo por que mães morrem. Quando dei por mim, já tava rindo alto na cozinha, dançando numa roda em que ninguém dançava, muito menos eu, porque não sei dançar.

Me senti um palhacinho surtado que perambula pela festa pra sentir corações pulsando e se sentir vivo. Mas se eu não puder ser desbocado, em público, eu não tiro o pijama e não saio de casa. Se eu não puder rir da minha própria desgraça, em público, pra mim não interessa ficar. Se eu não puder expor as minhas angústias, em público, eu não mereço pertencer àquilo. Me acharam “uma figura”, “uma graça”, “melhor pessoa” e pegaram todos os meus contatos e me adicionaram nas redes sociais e prometeram me convidar pra festas, shows e barzinho.

Em casa, chorei por duas horas. Toda vez que me exponho assim, choro de soluçar em posição fetal na cama, enjoado da minha voz, esgotado de mim mesmo. É como se eu me assistisse num reality show querendo chamar atenção do público pra ganhar o prêmio. É como se eu estivesse me vendo o tempo inteiro fantasiado ou completamente nu com uma melancia na cabeça, somente porque não mereço estar em nenhum lugar do planeta a não ser que me sacrifique para entreter os outros.

No dia seguinte, como sempre, fiquei em silêncio a manhã inteira, me prometendo, pela centésima vez na vida, que nunca mais iria me expor desse jeito. Mas quando vou ver, já escrevi um texto em que me exponho e publiquei na internet.

Ô vidinha filha da puta essa, viu?