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Duas vezes entrei às pressas em banheiros desconhecidos pra molhar a testa e a nuca por “nossa, a pressão caiu”. Achei que era o calor. Hipoglicemia. Mas não era nada disso. A primeira foi quando eu vi um rapaz alto, magro, camisa de bolsinho marrom e de óculos com aros grossos dentro do Pão de Açúcar, no Costa Azul. Eu vi aquele rapaz escolhendo tomatinhos-uva, e lembrei que você abarrotava a sua geladeira sem luz com caixas e mais caixas desses tomatinhos. Eu congelei, pálido, olhando o rapaz que não era você e que me olhava sem entender nada. E outra quando vi um tornozelo nu de um desconhecido, que eu achava que era o seu tornozelo nu, pelo vidro de uma daquelas cafeterias do Centro que o povo de teatro frequenta em bando, e lembrei que você ficava bonito de pernas cruzadas, solitário, bebendo café preto com duas gotinhas de adoçante, e falando sobre “a arte cênica como veículo de resistência” quando um ou outro amigo ousava atrapalhar o seu silêncio milenar.

Doeu lembrar ou me forçar a aceitar que agora pouco importa seus tomatinhos e seu tornozelo e suas análises antropológicas. Nada disso existe mais nem no predinho azul nem no sofá com mantinha azul. Foi quando eu lavei a cara num banheiro sujo e desconhecido que finalmente você morreu, e eu chorei sem querer ser visto, chorei pra jogar tudo fora, chorei pra água limpar os olhos e levar pelo ralo as lágrimas do resto de luto. Veja que ponto a gente chegou: ter que agradecer ao homem que eu mais amei na vida por abrir portas e me oferecer um café no sofá com mantinha azul que fica dentro do predinho azul pra ir buscar casacos e livros e devolver casacos e livros. Essas coisinhas que ficam com a gente e que não fazem nenhum sentido.

Você namora, ficou noivo, sei lá, com o menino que tira foto em fresta de luz com fundo branco pra ser conceitual. O menino que estuda pra passar em fisioterapia na Bahiana e não tem cara de louco. E essa é a minha maior vingança, porque eu sei que você só se sente feliz em relações tranquilas e sem loucura, mas a tranquilidade e a normalidade não existem. Eu tenho quase certeza que quando você passa em frente ao jornal, no fim da tarde, seu inconsciente te faz parar o carro pra me esperar na porta; que quando toca qualquer uma de Chico, quando você menos espera, em alguma social da startup que você trabalha, seu consciente te faz lembrar que a gente tinha alguma verdade, e então você deve parar de rir com seus amigos descolados e sofrer um pouco como humano.

Às vezes, como hoje, chegam aquelas suas mensagens que você responde por educação. Todas com frases milimetricamente pensadas que não dão espaços para tréplicas, carimbadas pela maior frieza do mundo. É como se a cada palavra você afirmasse que, quando somos adultos e maduros e bem resolvidos, sabemos que ex pode virar amigo. Basta seguir em frente.

Claro, somos isso mesmo. Mas eu caguei pra essa coisa de ser adulto e maduro e bem resolvido e fico com o seu abraço naquele fim de festa no village da sua amiga rica em que você foi o dj, me deu um abraço forte quando, em picos de insegurança, eu achava que não era amor, e, para a minha surpresa, me fez amar você de um jeito que eu sentia saudades de amar um cara.

Eu fico com a sua maneira leve de rir da minha cara porque inventei de comer melancia com leite em pó: “Essas invenções do século 21”. Eu fico com as danças ridículas que, sem nenhum medo das críticas e dos ritmos, eu improvisei porque entre a gente nada era ridículo. Dancei como um bailarino que se despede dos palcos pra sempre e, pela última vez, numa plateia imensa de um teatro imenso.

Eu fico pra sempre com o eu que nasceu e cresceu produzido a partir da nossa rotina. Você sabia que me tornei uma pessoa insuportável-mal-humorada-pseudo- intelectual, completamente insuportável, triste e crítico? Você, pelo menos, sempre foi leve e culto de verdade. E essa é a sua maior vingança.

Você fez bem em ir embora, eu fiz bem em recomeçar. Mas, como aconteceu todas as vezes em que eu passei ao seu lado com meu novo namorado e você com seu novo namorado, não tem como a gente seguir em frente, sem olhar pra trás e sentir o coração gelar um pouquinho.