Não é sobre ser petista, é sobre ser humano

Há duas semanas passo mal. No domingo de eleição tive enxaqueca e rezei, coisa que desde os dezesseis anos raramente faço. Uma dor na nuca apegada a uma onda de refluxo, agorafobia, impaciência com fotos, medo de vídeos, nojo de fake news, querendo distância de pessoas e uma tristeza profunda alarmando nunca mais ser feliz. Antes (embora nunca tenha passado por algo tão emocionalmente extremo – essas coisas são sempre pela primeira vez) eu me trancava no quarto, ouvia um instrumental e melhorava meia hora após tomar um remedinho cuja bula diz: “livre da dor em meia hora”; agora, nem a promessa da bula me livra da dor, eu passo meias horas olhando o reloginho e nada: o que me resta é rezar, pedir ao meu Deus, livre de todo preconceito, pra superar esses tempos difíceis com gente burra, intolerante e que quer jogar ácido no Brasil: os eleitores de Bolsonaro.

Tá difícil ir ao supermercado e ouvir de gente que colava no ginásio, gritava com professor de história, nunca deu aula e nunca leu Paulo freire dizer que a “militarização de escolas públicas vai dar um jeito nesses adolescentes”. Tá complicado pegar um Uber e ouvir do motorista que “já deu pra essa petralhada toda, chega de proteger bandido”, tá, mas e aí, coloca um fascista no lugar do PT porque antes um incompetente, o cristão que tem fetiche por tortura, violento descontrolado, com discursos sexistas, preconceituosos contra gays e de apoio à ditadura, que quer explodir o país, alguém que vai trazer o regresso do que eleger o PT só por que você odeia o PT? “Chega, chega, chega de PT!!!! #PTnão” Oi? Só por que você é um suicida? Um homicida em potencial? Por que você decorou a frase “Deus acima de tudo e a democracia acima de todos”, mas ainda não entendeu o que é ser humano?

Fiz um favor pra mim em nome da minha sanidade mental: comprei um fone de ouvido gigante, vedação completa, e gasto minha “vontade de vomitar na cara dos frequentadores bolsonazis fitness” correndo ininterruptamente na esteira da academia ouvindo Criolo no Spotify. Mas, na hora do banho, infelizmente, não posso usar os fones e acabo ouvindo uma ou outra conversinha política dos que têm braços grandes e cérebro oco, os moleques de vinte anos que não viveram a Ditadura Militar e falam “que só assim pro Brasil entrar nos eixos”, aqueles azedos que estudaram no Anchieta, que agora tentam medicina na Ufba pela sétima vez e que falam “melhor Jair se acostumando” achando o melhor dos trocadilhos (talvez, pra eleitores de um homem como Bolsonaro, o melhor mesmo que eles tenham feito foi criar um trocadilho babaca pra representar). Esse tipo ganha fácil das meninas de voz anasalada que falam alto nos restaurantes da Pituba quando a competição é sobre burrice. Elas pelo menos falam em “influenciadoras digitais do Instagram” e “unhas de gel”, já eles colocam a minha vida, a dos meus amigos e leitores em jogo.

Hoje, voltando da Ufba, apertando o botão do elevador, Clécio, o novo porteiro do meu prédio, me viu com um adesivo do PT colado ao lado esquerdo da minha camisa e puxou papo enquanto eu esperava o elevador chegar: “ô, Murilo, você que é tão inteligente, que é professor, jornalista, que lê muito, vai votar mesmo no 13? Mas como, meu filho… não tenho nada contra essa coisa de ser gay, mas dar ‘kit gay’ pra criança?” Fiquei me perguntando se valia a pena perder alguns minutos discutindo com um senhor de 56 anos, evangélico sem senso crítico, criado em família extremamente machista do interior, e me limitei a dizer “não conheço e não confio no outro candidato”. Pensei em explicar sobre fake news (de novo), sobre essa coisa de se informar por WhatsApp e blog de zezinho não sei das quantas (de novo), mas a porta se abriu e eu me joguei naquele quadrado apertado (que causa claustrofobia em muita gente) como alguém que espera por um balão de oxigênio. O elevador que cabe quatro pessoas me pareceu bem maior que a mente daquele homem. Que suba e me livre.

Se a gente começar a problematizar, discutir e teorizar com todo dono de padaria da esquina que odeia pobre; taxista que adultera taxímetro, mas odeia corrupção; tiozão barrigudão de cerveja que tira foto com PM e acha que “tem contato na polícia”; publicitário seguidor e fã do MBL e professor de crossfit, talvez você viva muito pouco a sua vida e comece a sentir essas dores que sinto há duas semanas. Você ainda tem paciência de explicar a alguém que quer “gays, trans, putas, putos, gente pró-aborto, gente pró-relacionamento aberto e maconheiros mortos” sob o argumento de “é pela decência, é pela família?”. Se é pela decência e pela família que essa gente está preocupada, por que para o carro na Orla e leva travesti pra motel? Por que acaricia o peitinho da sobrinha e diz “tá crescendo, hein?!”? Por que manda a amante abortar? Por que perdoa o amigão que foi preso por não pagar pensão alimentícia, o outro que responde processo de estupro, o outro que foi demitido por justa causa por roubo, mas não aceita dois meninos de mãos dadas no Rio Vermelho que não cometeu nenhum crime?

A faxineira petista

Minha sogra pediu pra que eu a ajudasse a contratar uma nova faxineira pra casa dela. João, amigo do meu namorado, me indicou Márcia, que segundo ele é uma pessoa trabalhadora, honesta, preocupada com questões sociais e que adora discutir política enquanto troca as cortinas, passa um aspirador no tapete, um paninho com limpador no vidro da janela. Estes dias estou cansado e muito ocupado, explico a João, o que me dá uma preguiça danada em discutir qualquer coisa, quem dirá política. Mas João me convence que Márcia é maravilhosa: estuda história em uma instituição privada graças ao Fies do Governo Lula, adora ouvir Elis Regina e Chico Buarque e que não quer ver na frente dela, nem pintado de ouro, eleitor de Bolsonaro.

Márcia atendeu agoniada, pedindo um minuto, e gritava do outro lado da linha “mulheres vão salvar o país desse coiso”, e voltava pedindo desculpas pelo barulho: estava preparando a manifestação “Mulheres contra Bolsonaro” com um grupo de amigas e desconhecidas que apelidava de “mar vermelho”. Eu quis saber quando ela, finalmente, poderia conversar com minha sogra e acertar o trabalho. E ela me respondeu “que tinha que ver isso aí”. Achei que se referia ao salário, às condições de trabalho, ao horário de serviço, mas ela estava mesmo preocupada era com o voto eleitoral dos patrões.

Entendi que a família seria entrevistada e marquei um café, no último dia 13, na casa da minha própria sogra. Achei aquilo progressista, achei aquilo Brasil 2018, achei aquilo “você que está precisando do meu serviço, é difícil encontrar faxineira boa e honesta, então se adapte ao meu estilo”, achei uma incrível inversão de papéis de uma classe que sempre foi rebaixada, humilhada.

Nada de roupa verde e amarela, pensei. Vai que ela acha que eu sou de direita e estou afrontado ela?! Nada de deixar ímãs de pássaros na geladeira, pensei. Vai que ela acha que ali são tucanos e que eu voto em Alckmin?! Eu fiz questão de abrir a porta pra Márcia, que estava com a camisa “Lute como uma garota” cheia de adesivos escritos “Haddad é Lula”. Márcia estava confiante, empolgada. Conseguiu pensar na manifestação, conseguiu reunir várias mulheres na página do Facebook, estava tudo certo pra destruir o fascismo. Olha, Márcia, aqui também tem luta, tá? O apartamento da minha sogra é gigante, há tapetes em praticamente todos os cômodos, os lençóis, fronhas e edredons precisam ser trocados duas vezes por semana e cabelos no ralo do banheiro precisam ser tirados pra não entupir.

Márcia colocou a xícara de café na mesinha de centro (ela tem um pouco de repúdio da palavra “centro”, então só fale “mesinha”) e disse que se recusava a trabalhar na casa de golpistas “porque não era bom pra ninguém, muito menos pra autoestima dela”. E quis saber, enquanto minha sogra saiu em busca do calendário pra saber a data que ela poderia começar o serviço, se minha sogra era bolsonarete: “Preciso trabalhar, mas em um lugar em que os meus patrões não queiram me ver estuprada porque saí com um short curto”. Expliquei pra ela que embora eu seja petista, desta vez, vou votar em Ciro, e ela disse que respeitava, que também achava Ciro uma boa opção, mas 13 sempre vai ser 13. Meu namorado explicou que a varanda do apartamento nunca teve as luzes piscadas e nem barulho de panela. Já minha sogra disse que no dia que Lula foi preso ela fez um textão no Facebook de uma amiga reaça (deixou claro pra Márcia que a amiga reaça não é mais amiga e, portanto, não frequenta mais a casa. Márcia ficou mais calma e gritou “Lula livre”).

Tudo estava indo maravilhosamente bem até que ela quis saber onde minha sogra trabalha. Ela foi obrigada a dizer “Prefeitura e Rede Bahia”. Márcia se engasgou com o resto de café e disse que precisava ir embora. Mas como fica, Márcia? Você começa semana que vem? A faxineira partiu, partiu, e nunca mais voltou.

 

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