Será você meramente mais um personagem efêmero da minha trama?

A luz do sol invade o basculante do banheiro enquanto ele ensaboa os cabelos, a barba, os braços e as pernas. O dia tá lindo lá fora e é a primeira vez que ele se sente disposto a acordar antes das sete numa segunda-feira. Às nove ele tem uma reuniãozinha chata com o chefe pra discutir lucros e orçamentos pra novos projetos, mas isso pouco importa. É no “não vai tirar a minha paz” que ele gosta de começar a semana. Ele desliza os dedos no cabelo ao dançar e cantar as músicas que tocam no autofalante do iPhone: Radiohead, Oasis, Phoenix, Foster the people. Cabe alguma música brasileira aí? Ele aproveita a neblina do chuveiro quente no box do banheiro porque acha poético e coloca Caetano e depois Cazuza e passa por Legião e para em Chico. E fica bobo ouvindo Chico. E repete. Ele tá obcecado. E lembra de mim ontem à noite explicando que sou apaixonado pelo ex de Marieta Severo. E lembra de mim interpretando cada música, dançando cada música e me entregando aos excessos sem colocar freios na intensidade.

Ele repete trechinhos e trechinhos e ri. É que em algumas partes ele lembra que foi ali que eu sorri diferente pra ele naquela festinha cheia de gente descolada, bonita, bem vestida, chata e com papo raso. Foi ali que aconteceu o primeiro beijo entre a gente. Foi ali que a gente percebeu que os sorrisos e os olhares e a quentura dos corpos basta. Ele quer de novo. A noite, a festinha e tudo que acompanha quando nós dois estamos juntos – os sorrisos, os olhares, a quentura. Como é que eu entendo um homem desses? Ele vivia dizendo pros amigos que estava bem sem ninguém. Que depois de terminar com o namorado, conhecer um menino aqui e outro ali, era tranquilo. E que ele já nem se lembra como é ter alguém pra gostar. Se adaptou a procurar. E diz que encontrar alguém dá uma insegurança danada. Medo, dúvida, ciúme, uma sensação estranha de estar se perdendo.

Ele corre, pega o celular, abre a minha foto de perfil do WhatsApp, fica lá olhando por dez minutos e se pergunta: “Como ele consegue ser tão solto e sincero desse jeito? Será que eu vou querer namorar com esse louco que fala mais do que tudo? Será que esse louco que fala mais do que tudo vai querer namorar comigo?”. Ele não pisca os olhos até o último gole do café, ainda ouvindo Chico sem parar, repetindo, trocando de álbum no Spotify. Tá obcecado.

Aí ele lembra. Puta que pariu. Eu escrevo. Sem pudor, sem nenhuma neura de expor a minha vida. Falaram pra ele. É mesmo: escreve assim na lata, sem ligar pro que os outros vão achar. Isso é perigoso. E se pergunta: “Será que já deve ter alguma crônica publicada na internet comentando sobre a noite de ontem? Será que eu vou ser mais um personagem dele pra vender livro? Será que ele gostou de mim? Será que ele gostou da nossa primeira vez? Será que ele vai publicar o meu desempenho na cama? Será que ele vai achar que foi só ontem e que eu sou tão escroto quanto mais da metade dos caras foi com ele?”.

Ele corre com o carro entre a Barra e a Pituba. O som um pouco mais alto do que nos outros dias. O trânsito maluco por causa da reforma que a prefeitura faz em Ondina já não incomoda. O banco do carona tem meu cheiro. Ele sorri bonito, de canto a canto. Os motoristas que param ao lado dele, no semáforo, não entendem. Ele vai trabalhar feliz depois de muito tempo. Ele espera uma velhinha atravessar ouvindo Chico. Caravanas? Sim, de novo. Vai ouvir o álbum o dia inteirinho. Certeza. Agora ele corre mais com o carro. Ele precisa chegar ao trabalho e revirar a minha coluna na internet. “A noite foi maravilhosa. Foi incrível. Ele não vai falar mal de mim. Nem vai falar bem. Não vai falar nada. Talvez isso seja bem pior. Vai parecer que não teve importância. Nenhuma”, ele pensa. Tadinho.

Como ele quer que eu seja misterioso. E suma durante todo o dia de hoje. E não ligue no fim da noite perguntando por que a gente precisa ser assim. Ele quer passar o dia inteiro ansioso querendo saber no que vai dar. E sentir o frio na barriga. E o nervoso pra saber se eu vou atender ou não o telefone quando ele voltar do trabalho. Não seja fácil, Murilo. Não seja burro. Não fica aí com o celular na mão pra atender no primeiro toque. Não escreve que gostou. Não vai dizer que na festa, no meio de três mil pessoas, você se sentiu sozinho até ele chegar. “Deixa eu sofrer um pouco. Deixa”, ele implora. 

Ele passa a reunião inteira pensando no site que eu escrevo. Roendo as unhas, agoniado, olhando as horas, suando frio. Espera ninguém passar por trás dele na sala e digita o site na URL do notebook. E erra o endereço da página. E pesquisa no Google. E acha. Não, não abre. A Vivo sacaneando. Será que precisa disso mesmo? Abriu. Tá lá. Um texto. Um texto pra ele. Um texto enorme pra ele. É o último publicado. Ele ainda não acredita. “Meu Deus, ele já escreveu?”. É a primeira vez que alguém escreve um texto pra ele. Sem contar com aquele otário da época da faculdade que pegava o caderno dele na hora da aula e escrevia frases do tipo “o que tiver que ser entre a gente vai ser”, nas últimas páginas da matéria de física. Frases que ele nem dava muita bola. Agora quem escreveu um texto pra ele foi um escritor de verdade. Ele ri alto porque se lembra de mim, no canto da festa, sem nenhuma vergonha e modéstia ao dizer que ele tava ficando com um escritor de verdade.

E é no meio dessa risada toda que ele percebe o tamanho da desgraça: ele tá gostando de mim pra valer. Não tem mais como fugir. É, dá medo, dá insegurança, mas dá vontade de gostar também. Eu também vivi tantas histórias com finais óbvios e dolorosos que cheguei a desistir disso. Gostar é aceitar que o inferno comece tudo de novo. Mas eu, quem diria, escrevi lá no texto, sem pudor, que aceito. Aceito a conquista, aceito as saídas, aceito as apresentações, aceito os defeitos, aceito a chegada do amor. Mesmo que o final dessa vez também seja óbvio e doloroso. E no finalzinho do texto, eu falo das orelhas limpas. E do cheirinho bom que ele tem. E de como gostaria de poder sentir de novo. E escrevo sem fazer mistério: “quero te ver hoje”. O que será que ele vai responder? Ele balança a cabeça e sai pelos corredores do trabalho rindo à toa, atrás de gente pra abraçar. E pega um café adoçado. Ninguém entende nada. Mas ele sabe, ele sabe. E entra e sai de sala cantarolando Chico como se a vida daqui pra frente fosse mudar: “Talvez nem me queira bem, porém faz um bem que ninguém me faz”.