Mataram o amor no Grindr

Meu amigo é branquelo e vive com a conta no vermelho. Mas no Grindr escreveu “publicitário versátil” e colocou uma foto sem camisa, marcando tudo na sunga, bronzeadão, no Porto da Barra. Os óculos, um daqueles espelhados, escondem 70% do rosto, dando aquele efeito, propositalmente, de “puta-que-pariu-que-cara-gostoso” e deixando um ar de mistério de “queira me conhecer e mostro quem eu sou” para os seus pretendentes que têm prazo de validade. “Esse clima praia, sol, mar, bronze e corpo, inconscientemente, leva a pensar em sexo e esse tipo de homem adora isso”, ele diz. Pergunto que tipo de homem é esse e ele explica “qualquer um que tá a fim da coisa”.

Esta semana ele já transou com três. Esses três foram escolhidos depois de muita troca de nudes, chamadas de vídeo no WhatsApp e teste “ao vivo” com oito rapazes (sendo cinco na nova San Sebastian “porque ganhou vip, então ele não gasta dinheiro à toa” e três numa cerveja na Vila Caramuru “porque pareciam merecer que ele gastasse dinheiro”. Esses oito, por sua vez, foram os que sobraram de um papo “superficial, porém mais profundo do que os outros” e avaliados pelos critérios “beleza, nível de safadeza e profissão”. Se demorou de responder, ele não quer. Se morar três bairros depois, ele não quer. Se for afeminado, ouvir diva pop e não praticar algum esporte, nem pensar.

Seu polegar direito escolhe machos afoitos por sexo e ele é incisivo: “tá sem foto, eu já ignoro porque é fake; tá com close só na barba, certeza que é galã feio; só tem foto do pescoço pra cima, é gordo”. Eu vou ficando triste, muito triste, ao ver meu amigo chamando amor de “cardápio de boteco vagabundo” e ele, ao perceber minha cara de “você tá sendo escroto”, coça o redemoinho da cabeça e tenta se explicar: “Eu ainda amo o meu ex-namorado, mas, sei lá, ele é chato pra caralho e ultimamente não quero ninguém enchendo meu saco. Esses caras do Grindr, não. Esses caras chegam aqui, tiram a roupa, transam e depois não me dão nem um ‘oi'”.

Dos três que renderam um sexo pós-cerveja (um no domingo, um na segunda e outro ontem), ele gostou “um pouquinho” de um, mas não o suficiente pra transar de novo. Então, depois de uma semana recrutando rapazes e sair com alguns e transar com outros, ele atirou todos os pretendentes numa enorme fogueira e ficou sem companhia pra almoçar hoje. Por isso ele está aqui em casa comendo batata frita comigo. Me deixando mais triste e escolhendo a dedo “quem do Grindr que mora perto da minha casa vale a pena”.

Qual o problema deste último que você não quer responder? Ele não sabe me explicar. E os outros que você começou o papo e parou minutos depois, o que eles tinham de errado? Ele não sabe dizer. Alguns minutos digitando sem parar, rolando a barrinha do aplicativo, ele me avisa que vai embora. Mas antes de se despedir me diz que cansou dessa coisa digital onde as conversas beiram a pau e bunda. “Sinto falta de ir lá fora e paquerar num bar, vou sair dessa bosta”.

Ele vai embora da minha casa e fico me perguntando se “bosta” é o aplicativo ou o uso que as pessoas, inclusive ele, fazem do app. Se “sair dessa bosta” significa desinstalar o Grindr ou desbloquear o medo que ele tem de uma relação e voltar logo com esse ex-namorado que ele tanto ama (e aceitar de uma vez que todo relacionamento com o tempo fica chato mesmo).

Apesar de eu não pensar fazer parte do Grindr, preciso ser honesto e confessar que já estive, nos últimos dez anos, numa espécie de cardápio pro mundo. Ser o último a sair da festa na esperança humilde e triste e cruel de que aconteça alguma coisa interessante. Esperando, algumas vezes numa social ruim, outras na casa de duzentos amigos que querem pedir um delivery de pizza e convidou outros duzentos amigos legais, conhecer um cara bacana pra conversar, beijar na boca ou dormir de conchinha. Esperando, algumas vezes misterioso numa foto em preto e branco no Sul e outras mais desesperada, numa foto sem camisa mordendo o travesseiro, alguém que vale a pena para me apaixonar ou apenas transar. Usando óculos que cobrem 70% do rosto, fotos do pescoço pra cima e com close só na barba, porque todo mundo tem medo de não ser gostado, de não fazer um tipo, de não ser aceito como é.

Mas nem por isso eu fazia entrevista com meus pretendentes ou deixava eles em vácuo eterno porque eram gordos, feios ou moravam longe. Estar esperando alguém nunca me fez ser uma picanha no açougue. Nunca fui uma coisa no cardápio vagabundo do boteco que serve pra “se tiver com fome mais tarde eu pego”. Vários caras podem até ter me visto dessa forma, mas, assim como o Grindr, era o mau uso da ferramenta.

Julguei tanto o meu amigo por estar num aplicativo como esse: “Porra, você tão apaixonado, ia casar e tudo, agora enterrou seu amor no Grindr?”, mas acabei julgando o que meu amigo estava fazendo com o Grindr e falando mal dele pra todos os caras e, principalmente, pro ex-namorado dele que com certeza vai ler este texto.

Será você meramente mais um personagem efêmero da minha trama?

A luz do sol invade o basculante do banheiro enquanto ele ensaboa os cabelos, a barba, os braços e as pernas. O dia tá lindo lá fora e é a primeira vez que ele se sente disposto a acordar antes das sete numa segunda-feira. Às nove ele tem uma reuniãozinha chata com o chefe pra discutir lucros e orçamentos pra novos projetos, mas isso pouco importa. É no “não vai tirar a minha paz” que ele gosta de começar a semana. Ele desliza os dedos no cabelo ao dançar e cantar as músicas que tocam no autofalante do iPhone: Radiohead, Oasis, Phoenix, Foster the people. Cabe alguma música brasileira aí? Ele aproveita a neblina do chuveiro quente no box do banheiro porque acha poético e coloca Caetano e depois Cazuza e passa por Legião e para em Chico. E fica bobo ouvindo Chico. E repete. Ele tá obcecado. E lembra de mim ontem à noite explicando que sou apaixonado pelo ex de Marieta Severo. E lembra de mim interpretando cada música, dançando cada música e me entregando aos excessos sem colocar freios na intensidade.

Ele repete trechinhos e trechinhos e ri. É que em algumas partes ele lembra que foi ali que eu sorri diferente pra ele naquela festinha cheia de gente descolada, bonita, bem vestida, chata e com papo raso. Foi ali que aconteceu o primeiro beijo entre a gente. Foi ali que a gente percebeu que os sorrisos e os olhares e a quentura dos corpos basta. Ele quer de novo. A noite, a festinha e tudo que acompanha quando nós dois estamos juntos – os sorrisos, os olhares, a quentura. Como é que eu entendo um homem desses? Ele vivia dizendo pros amigos que estava bem sem ninguém. Que depois de terminar com o namorado, conhecer um menino aqui e outro ali, era tranquilo. E que ele já nem se lembra como é ter alguém pra gostar. Se adaptou a procurar. E diz que encontrar alguém dá uma insegurança danada. Medo, dúvida, ciúme, uma sensação estranha de estar se perdendo.

Ele corre, pega o celular, abre a minha foto de perfil do WhatsApp, fica lá olhando por dez minutos e se pergunta: “Como ele consegue ser tão solto e sincero desse jeito? Será que eu vou querer namorar com esse louco que fala mais do que tudo? Será que esse louco que fala mais do que tudo vai querer namorar comigo?”. Ele não pisca os olhos até o último gole do café, ainda ouvindo Chico sem parar, repetindo, trocando de álbum no Spotify. Tá obcecado.

Aí ele lembra. Puta que pariu. Eu escrevo. Sem pudor, sem nenhuma neura de expor a minha vida. Falaram pra ele. É mesmo: escreve assim na lata, sem ligar pro que os outros vão achar. Isso é perigoso. E se pergunta: “Será que já deve ter alguma crônica publicada na internet comentando sobre a noite de ontem? Será que eu vou ser mais um personagem dele pra vender livro? Será que ele gostou de mim? Será que ele gostou da nossa primeira vez? Será que ele vai publicar o meu desempenho na cama? Será que ele vai achar que foi só ontem e que eu sou tão escroto quanto mais da metade dos caras foi com ele?”.

Ele corre com o carro entre a Barra e a Pituba. O som um pouco mais alto do que nos outros dias. O trânsito maluco por causa da reforma que a prefeitura faz em Ondina já não incomoda. O banco do carona tem meu cheiro. Ele sorri bonito, de canto a canto. Os motoristas que param ao lado dele, no semáforo, não entendem. Ele vai trabalhar feliz depois de muito tempo. Ele espera uma velhinha atravessar ouvindo Chico. Caravanas? Sim, de novo. Vai ouvir o álbum o dia inteirinho. Certeza. Agora ele corre mais com o carro. Ele precisa chegar ao trabalho e revirar a minha coluna na internet. “A noite foi maravilhosa. Foi incrível. Ele não vai falar mal de mim. Nem vai falar bem. Não vai falar nada. Talvez isso seja bem pior. Vai parecer que não teve importância. Nenhuma”, ele pensa. Tadinho.

Como ele quer que eu seja misterioso. E suma durante todo o dia de hoje. E não ligue no fim da noite perguntando por que a gente precisa ser assim. Ele quer passar o dia inteiro ansioso querendo saber no que vai dar. E sentir o frio na barriga. E o nervoso pra saber se eu vou atender ou não o telefone quando ele voltar do trabalho. Não seja fácil, Murilo. Não seja burro. Não fica aí com o celular na mão pra atender no primeiro toque. Não escreve que gostou. Não vai dizer que na festa, no meio de três mil pessoas, você se sentiu sozinho até ele chegar. “Deixa eu sofrer um pouco. Deixa”, ele implora. 

Ele passa a reunião inteira pensando no site que eu escrevo. Roendo as unhas, agoniado, olhando as horas, suando frio. Espera ninguém passar por trás dele na sala e digita o site na URL do notebook. E erra o endereço da página. E pesquisa no Google. E acha. Não, não abre. A Vivo sacaneando. Será que precisa disso mesmo? Abriu. Tá lá. Um texto. Um texto pra ele. Um texto enorme pra ele. É o último publicado. Ele ainda não acredita. “Meu Deus, ele já escreveu?”. É a primeira vez que alguém escreve um texto pra ele. Sem contar com aquele otário da época da faculdade que pegava o caderno dele na hora da aula e escrevia frases do tipo “o que tiver que ser entre a gente vai ser”, nas últimas páginas da matéria de física. Frases que ele nem dava muita bola. Agora quem escreveu um texto pra ele foi um escritor de verdade. Ele ri alto porque se lembra de mim, no canto da festa, sem nenhuma vergonha e modéstia ao dizer que ele tava ficando com um escritor de verdade.

E é no meio dessa risada toda que ele percebe o tamanho da desgraça: ele tá gostando de mim pra valer. Não tem mais como fugir. É, dá medo, dá insegurança, mas dá vontade de gostar também. Eu também vivi tantas histórias com finais óbvios e dolorosos que cheguei a desistir disso. Gostar é aceitar que o inferno comece tudo de novo. Mas eu, quem diria, escrevi lá no texto, sem pudor, que aceito. Aceito a conquista, aceito as saídas, aceito as apresentações, aceito os defeitos, aceito a chegada do amor. Mesmo que o final dessa vez também seja óbvio e doloroso. E no finalzinho do texto, eu falo das orelhas limpas. E do cheirinho bom que ele tem. E de como gostaria de poder sentir de novo. E escrevo sem fazer mistério: “quero te ver hoje”. O que será que ele vai responder? Ele balança a cabeça e sai pelos corredores do trabalho rindo à toa, atrás de gente pra abraçar. E pega um café adoçado. Ninguém entende nada. Mas ele sabe, ele sabe. E entra e sai de sala cantarolando Chico como se a vida daqui pra frente fosse mudar: “Talvez nem me queira bem, porém faz um bem que ninguém me faz”.

Eu sei que você quer, tá fazendo doce?

 

Eu era estagiário no jornal e porque escrevia na editoria de cultura e queria ser descolado, usava calça skinny justa e camisetas canoas decotadas. Hoje, só de pensar, sinto dores nos testículos e frio congelante nos ossos da clavícula. Agora, mais maduro e mais sensato, posso afirmar em letras garrafais e marcador neon laranja que aquilo não era elegante e nem discreto e nem descolado (coisas que nunca consegui), mas eu tinha o Facebook cheio de gente sociável e inteligente, milhares de amigos gente boa, paqueras pela vida de dar inveja a qualquer bonitão e era insuportavelmente feliz.

Eu ficava no jornal até tarde porque gostava de analisar quase compulsivamente como todos aqueles jornalistas renomados e tirados a intelectual se comportavam e, no fim de expediente de uma sexta-feira (num dia que poderia ser como outro qualquer), convidei um dos repórteres (e amigo) que trabalhava no jornal pra beber algumas garrafinhas de cerveja na porta de uma conveniência bombada de publicitários, arquitetos, cineastas, assessores de imprensa e designs. Eu havia saído de uma reunião horrível em que minha editora detonou uma reportagem que escrevi e, nos últimos goles da primeira garrafinha de cerveja, fiquei depenado de tanto chorar como uma criança de cinco anos que se deslumbra num supermercado gigante e se desespera quando se perde dos pais. Meu amigo me levou pro canto da conveniência, colocou as duas garrafinhas no chão, me deu um abraço forte e, tal qual um pai consola um filho mimado, me disse no ouvido: “A gente pode comprar cerveja aqui e beber lá em casa. Sabia que eu moro na próxima rua?”.

Eu estava entediado com a faculdade, com o TCC, com as exigências do estágio, com as discussões do meu padrasto com a minha mãe, e, pra piorar tudo, nenhum casinho bom que eu tinha sustentava duas semanas. Aceitei beber um pouco na casa dele e combinei comigo mesmo que lá pelas onze da noite eu pegava um táxi. Meu amigo foi muito educado. Ele me confortou. Ele me fez bem. Ele me ofereceu roupas mais leves, preparou petiscos de queijo, azeitona e amendoim e passou horas me contando piadas só pra me fazer rir e esquecer o que tinha passado. Estranhei quando ele se desculpou pra ir tomar banho, voltou e permaneceu na sala só de cueca sem nenhum pudor. Mas eu pensei “não, é normal, somos amigos”. Estranhei quando ele falou que “podia conseguir que eu fosse contratado no jornal”. Mas eu pensei “olha que bacana, ele é influente”. Estranhei quando ele deu um tapa na minha bunda quando abri a geladeira pra pegar mais lombo defumado. Mas eu pensei “você é chato, ele é muito sozinho e só quer ter intimidade”.

Só que à medida que as garrafinhas de cerveja se acumulavam ao lado do sofá, no segundo exato em que ele resolveu colocar música e dançar, acho que na metade de “Faz parte do meu show”, de Cazuza, ele tentou me empurrar pro quarto. Foi quando eu entendi tudo. Ele seguiu tentando, esfregando o corpo dele no meu, puxando meu braço com mais força, e eu consegui me soltar. “E o que eu faço agora que meu pau tá duro?”. Peguei minha mochila pra ir embora. Ele parou na porta, me impedindo de sair, e disse sem paciência: “Eu sei que você quer, tá fazendo doce?”. Eu não estava a fim. Ele era bonito, mas não havia clima. Não tinha cheiro. Não tinha coração pulsando forte querendo explodir. Não tinha pernas tremendo de ansiedade. Não, não, não, não, não era ele. Não era sexo. Não cabia. Era só casa, cerveja, bom papo e música. Sem nenhum parênteses, sem nenhuma aspa. APENAS.

Comecei a sentir uma série de sensações que, lembro, passeava pelo nojo, ânsia e raiva. Comportamento esse que me fez empurrá-lo e dar um grito tão forte e tão alto. Ele parou com a mão na cabeça e não falou mais nada. Dentro do táxi, eu só conseguia pensar como eu era péssimo estagiário, péssimo filho, péssimo aluno. Pra quem eu iria dizer o que tinha acontecido? Pros meus amigos que acham que estou tratando o caso como uma donzela sensível, pura, assediada e quase estuprada? Que iriam me perguntar por que fui parar na casa de um homem gay pra beber cerveja tarde da noite? Que iriam me questionar se eu, tão esperto, não tinha sacado nenhuma “investida” dele?

Passei os últimos anos ouvindo que “homens transam como bichos porque precisam se aliviar mais” e quase todos os meus amigos não veem problema nisso, indo pra cama, às vezes, com qualquer “mercadoria” que aparece. Por que todo homem acha que estar em um ambiente fechado com outro homem é sinal de que DEVE acontecer alguma putaria entre eles? Por que todo homem que sabe que eu escrevo quer bancar o Deus que vai me livrar de todas as aflições emocionais ao despertar a delícia que é o prazer sexual? O Deus-salvador da libido. O que vai, finalmente, me levar pra cama pra tratar tristezas, angústias, neuras e solidão. Os gemidos que libertam. O suor medicinal passageiro. O gozo que cura.

Eu não sou contra a putaria. Eu sempre gostei de ambientes (todos eles) em que todo mundo flerta, todo mundo cogita, todo mundo fantasia, todo mundo provoca, todo mundo se pega. Mas tudo isso de forma natural e saudável, quando tem que ser. O que ele não entendeu foi exatamente isto: não cabia entre a gente, faltou o tal do clima, a tal da química que pra mim importam mais do que tamanho de pau. Mas digo mais: além de não levar pra cama, ele perdeu um amigo. Tem gente que, além de insensata, é inconsequente.

Você também sente angústia depois que transa com seu ex?

Texto: Murilo Melo | Arte: Agatha Rabelo

Mais um sábado que você me liga. Exatamente como faz há uns sete ou oito meses. Você escolhe a camisa que valoriza os seus tríceps, confere o peitoral no espelho, coloca seu relógio imenso, usa um perfume amadeirado caro e vai, mais uma vez, desfilando no seu carro do ano pra um daqueles bares da Paulo Sexto com seus amigos da academia. Lá pelas duas e tanta da manhã, você finalmente pensa sem culpa no seu ex, boceja porque é tudo muito chato e porque o cara que você se interessa até que é bonito, mas não tem papo, e então você se dá conta que sua vida está prestes a ficar vazia – com mesa cheia, mas sem afeto; com pessoas que flertam, mas que não saem da superfície… Pronto: chegou a hora de me ligar.

Você não sabe ao certo por que corre atrás de mim, mas também não sabe ao certo por que não deveria correr. Você sabe que pode ter um homem mais inteligente do que eu, mais bonito, mais gostoso, com mais grana na conta, mais liberal e menos inseguro, que não leva as palavras “relacionamento” e “namoro” tão a sério. Mas, por alguma razão que eu desconheço, você prefere o gostoso garantido com cara de louco, o que conhece de cor suas manias insuportáveis, aquele que vai aos mesmos lugares de sempre, que ri das suas piadas idiotas, mesmo sendo as mesmas piadas idiotas de uns sete ou oito meses.

Aí você me liga, quando já não é noite, mas ainda não é dia. Me liga com a voz descompromissada e calminha de quem só quer conversar com um velho amigo. A voz de “você não sabe o quanto preciso de você”. A voz de “eu te pego em casa, eu pago tudo, eu te levo de volta”. E eu, pra ser sincero, não faço a menor ideia do que vejo em você. Eu sei que eu posso ter um homem mais inteligente, mais gostoso, mais comprometido, assim como eu já tive centenas de vezes. Mas, por alguma razão que eu desconheço, prefiro suas manias insuportáveis e suas piadas velhas. Você é um ogro, um infantil, um idiota, um chato. Mas você me lembra o mistério da vida. E talvez seja só por isso que eu continue insistindo em você: apesar de ter milhares de defeitos, você ainda me lembra o mistério da vida que o resto do mundo não tem.

Aí você vai me buscar em casa, mais uma vez, abalando no seu carro do ano, tentando me convencer a ser sua companhia no mesmo bar que você sempre vai, com os mesmos amigos babacas que você sempre anda: os sem cérebro, aqueles que só falam em carboidrato, proteína, treino e suplemento alimentar. A gente, passando de carro a orla inteira, com ruas vazias e luzes apagadas, sem saber ao certo o que faz ali, outro sábado, igualzinho há uns sete ou oito meses. E mais uma vez a gente se pergunta se vale a pena pertencer a mesas cheias e sem afetos, e acaba pulando o bar que nunca existiu e indo direto ao mesmo assunto de sete ou oito meses: o motel de sempre.

E aí uma bomba de sentimentos funciona como uma montanha russa dentro de mim. Mesmo quando é rápido, mesmo quando é devagar, mesmo quando é bom, mesmo quando é horrível, mesmo quando você está cansado, mesmo quando você está disposto, você sempre se comporta como uma criança egoísta, vira pro lado e vai dormir. Sem beijo, sem abraço, sem carinho. Ou volta pra sua vida ocupada. Com áudios em grupos de trabalho. Com viagens marcadas. Com casamentos de primos. Com festinhas de despedidas e projetos pra daqui a dez minutos ou dez anos. E em nada disso eu estou presente. E em nada disso você me inclui. E, ainda assim, eu sempre me apaixono por você. Todas as vezes que te vi, nesses últimos sete ou oito meses, num “oi” apressado ou no meio da multidão de homens parecidos com você ou num vulto ou numa foto nas redes sociais ou num supermercado ou atravessando a rua ou na cama de um motel, eu sempre me apaixonei por você. Eu sempre estive pronto pra suportar sua vida ocupada. Pra escutar uma piada nova. Pra andar de mãos dadas nesses bares de playboy que você frequenta. E você nunca deu importância pra isso, continuando na sua vidinha que sempre é interrompida pelo vazio das suas paqueras sem papo.

Você também sente uma pontada forte, rápida e descontrolada no coração depois que tem orgasmo com seu ex? Você também volta pra casa no banco de carona do carro dele sem dar uma palavra porque o nó na garganta te dá uma sensação de aperto, de sufocamento, que impede que isso seja possível?

Eu não vou entender nem daqui a mil anos. Eu não sei por que as coisas funcionam assim. Eu não sei por que a gente volta pra casa no fim do dia sentindo falta de alguém que está ao nosso lado, desejando alguém que deseja a gente e que os dois têm na lista de contatos. Eu só sei que eu vou voltar pra casa e tomar um banho bem gelado pra limpar tudo que sobra de você e esfregar a esponja bem forte na minha pele e chorar de novo e me odiar de novo e sentir a maior dor do mundo e me dizer, pela centésima vez, que eu já tinha decidido parar com isso.

Mas aí, daqui uns dias, exatamente como acontece há uns sete ou oito meses, você vai me ligar. Me escondendo como sempre, me querendo no escuro, passando na conveniência às pressas pra comprar camisinha, me levando pra um daqueles motéis de Pituaçu com mulheres de sobrancelhas pintadas a lápis e homens bombados com cheiro de suruba na recepção. E eu vou topar. Topo porque tenho pavor do tédio. Topo porque, assim como você, tenho pavor do vazio. Topo porque é assim que a gente faz com a nossa própria existência nesse mundão de gente tediosa e fútil: não entendemos porra nenhuma, mas continuamos insistindo.

 

Ninguém precisa transar para estar transando

Texto: Murilo Melo | Arte: T Jalf Sparnaay

Na semana passada, ele pintou um pontinho com canetinha verde neon no meu nariz e apagou a luz do abajur da salinha de reuniões da agência de publicidade que a gente trabalha. Isso foi a coisa que me deu mais tesão nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Minhas mãos começaram a soar, minha respiração travou e a ânsia de querer mais e mais pontinhos pelo corpo já não sabia como se controlar. Um pontinho de canetinha colorida no nariz. Imaginar a voz dele ao pé do meu ouvido é preliminar. Imaginar o hálito da boca dele passando entre meus cílios equivale a abrir o zíper da calça, o anúncio do sexo. A língua que descamba da testa para a orelha é pau. A língua penetrando no ouvido é pau e bunda. A língua que passeia entre a bochecha e vai até o céu da boca é pau e bunda. Mas um pontinho de canetinha colorida verde neon é como um pau e bunda nunca visto antes na existência do planeta. Não sei explicar muito bem, mas o pontinho de canetinha colorida no nariz foi mil vezes mais sexual do que pau e bunda.

Na semana passada, ele colocou um bilhetinho dentro da minha ecobag dizendo que iria fazer uma serenata depois que eu saísse do banho só pra me ver dançando pelado. Acho que era o trecho de alguma música ou de algum livro desses milhares de livros que ele lê, mas foi a coisa mais sexual que li nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. E então me imaginei completamente nu, desfilando entre banheiro, sala, quarto e cozinha, enquanto ele tentava se concentrar nas notas musicais, me bisbilhotando, por debaixo dos óculos, entre uma pausa e outra da melodia. Tive orgasmos consecutivos que nenhuma penetração seria capaz de me dar em sete vidas.

Na semana passada, ele encostou o braço no meu braço quando pediu meu lápis emprestado. Eu emprestei, ele anotou o número de telefone de algum cliente, e depois descobri que ele é canhoto. Então o quê? Então nada. Mas sei que aquele braço roçando no meu braço foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. Esqueci o que eu estava digitando no e-mail, esqueci de beber o resto da água no copinho descartável, esqueci de atender o telefone. Meus dentes prenderam bravamente os meus lábios. Uma vontade sem fim de me enfiar mil vezes num buraco dentro do meu próprio buraco. Nem nos olhamos. Ele sem tirar os olhos do computador o dia inteiro. Photoshop e Ilustrator. O dia inteiro isso. Mal trocamos palavras. Ele anda rápido pela agência. Demanda, problemas, prazos apertados. Diz que vai resolver. Em um minuto, mas às vezes só dá no dia seguinte. Atende telefone. E depois outro. Nem sei o nome dele, só o apelido.

Mas eu gosto quando ele se ajeita no espaço dele, tão pequeno pra altura e, por descuido, chuta minha cadeira, no meio de uma reunião chata, e pede desculpas sinceras, franzindo a testa como um gatinho sem dono abandonado em caixas de papelão. “Desculpa”, e fala meu nome. E então dou um foda-se pra toda aquela merda de reunião e bloqueio nos meus ouvidos todo o resto que não me interessa. Eu me excito ao sentir os poucos centímetros do pé dele entre a rodinha da cadeira e a minha perna. E de saber que daqui a pouco ele chuta mais um pouco. E pede desculpas sinceras de novo. “Desculpa”, e fala meu nome. Tudo isso é minha vida sexual do momento. O toque que dá possibilidade. Possibilidades que não se concretizam. A transa do toque de possibilidades.

Eu transo quando, no elevador, ele encosta um pouco da barba no meu queixo pra apertar o andar e eu fecho os olhos e respiro fundo, quase gemendo, quase gozando. Quando ele pega um cafezinho e se espreguiça no meio do grupinho de publicitários e do outro diretor de arte. E então mostra, sem querer, o pedacinho de barriga que me estimula a pensar que tem o tamanho exato de uma lambida rápida. Essas coisas que ele nem sabe que eu penso. Essas loucuras que quando vou ver, já pensei. Não, eu não quero revisar o texto, repensar o post, pensar numa frase melhor pra propaganda. Eu queria mesmo era saber se lamber suas costas inteira secaria a minha língua numa lambida sem intervalo. E chego mesmo a abrir um pouco a boca, mas quando ele olha pra mim, finjo que estou bocejando.

No fim da semana passada, porque todo mundo da agência saiu pra beber uma cerveja num bar que só frequenta gente descolada – e ele me achou tão engraçado e tão interessante, e então criamos intimidade -, ele beliscou com muita força a minha cintura. E eu gritei. E ele disse “nossa, que menino fresco”, e riu mais do que a dor que senti. Nos conhecemos há sete mil anos, apesar de ser apenas semana passada. E eu retribui com uma mordidinha no braço dele. E ele fez aquela carinha de ” eu aguento, eu sou forte”. E riu com minha mordidinha. E depois bebeu um gole na garrafinha de Heineken, o que me deixou bastante enfurecido. Tudo isso foi a coisa mais sexual que me aconteceu nos últimos dez anos transando com dezenas de caras. São tantas obrigações entre uma sala e outra, contas pra pagar, poucas horas de sono, textos pra ler, escrever e revisar, e ele aparece como minha única fantasia sexual, uma distração.

No fim dessa noite, do fim da semana passada, ele sugeriu que eu “esticasse a noite na casa dele ouvindo Nina Simone e bebendo todas as cervejas do frigobar”. Não tinha nada pra comer, ele avisou. Ovo frito? Ele riu. Eu não fui. Passei a gostar do homem que eu vejo do outro lado da pista. Se ele atravessa, perco o encantamento. Passei a gostar do comecinho do amor, da conquista, do que não chega a ser, mas que por algum ângulo já é. O negócio é que talvez eu nunca mais cruze com ele, porque só fiz um freela na agência e ele é interessante demais pra minha insegurança e eu nem sinto nada de bonito. Mas, por via das dúvidas, me depilei e tenho sorrido mais. Ninguém precisa transar para estar transando.

Sexo casual com amigo é só sexo casual com amigo, entendeu?

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Pegue a xícara na mesinha de centro e beba um gole de café. Agora imagine que você tem um amigo divertido e que fala sobre todos os assuntos do mundo. Um amigo agradável que topa seus convites de última hora e que nunca se importou com seus esquecimentos de datas especiais. Pegue um biscoitinho de aveia na tigela, ao lado do pires, e mastigue bem devagar. Agora imagine que, desde que vocês se conheceram, isso lá na adolescência, fase em que os dois eram bem feinhos, você jamais evitou passar um segundo sequer longe dele. Porque ele, até então, era o que mudava seus dias de tédio. Coloque a xícara e o que sobrou do biscoito, na mesinha de centro, e encoste na poltrona. Agora imagine que, de repente, apenas porque vocês passaram da conta na cerveja e porque, muito loucos, dançaram bem juntinhos uma música argentina no Chupito e todos pararam pra olhar e sua mão boba percorreu o corpo dele e a mão dele percorreu o seu corpo e a coisa começou a ficar quente, mais quente do que você um dia ousou imaginar, você resolveu passar o resto da noite dando uma transada com esse rapaz adorável.

Pronto. É isso que eu quero entender. Exatamente essa cara assustada que você fez pra mim agora. Esse “eitaaaa!!!!”. Esse gritinho. Essa risada depois do gritinho. Esse seu queixo caído. Esses olhos que não piscam. Me explique. Por que amigos não podem transar? Que vergonha é essa que se instaurou no seu comportamento daí em diante? Que ameaça gigantesca é essa que uma mensagem com um simples “oi” pode causar? Que preocupação é essa de “pelo amor de Deus, esqueça que eu gozo”, correspondente às grandes profundidades dos oceanos e lagos ou do que é formado a grandes profundidades na terra, que você não pode encarar isso com total naturalidade? Mas se você se diz tão desconstruído, mas se vocês falavam tão abertamente sobre sexo, mas se você leva mais da metade do mundo pra cama, o que há de errado em, desta vez, ser com o seu amigão querido? Que palhaçada.

O que vai acontecer se — meu Jesus Cristinho; nossa, que difícil; vixe, que terrível; ai, que gastrite maluca — você continuar amigo do rapazinho todo depilado que, apesar de ter sim um corpo nu agora com cada centímetro irremediavelmente reconhecível por baixo daquelas calças e casaquinhos da Zara, só gostaria de, às vezes, lembrá-lo que tirar a roupa, que se embolar num edredom, que acordar deitado no peito do outro, que toda essa intimidade recém-adquirida não tem muito a ver com compromisso, mas sim com o rompimento da fronteira entre o normal e o patológico, com a energia dos instintos sexuais, com a comemoração de um contrato de momento (que acaba ali em algumas horas e, por isso mesmo, deveria ser tratado com total despreocupação).

Celebrar o gozo descompromissado é brindar o “amor prematuro que não foi adiante” e é preciso ser muito sensível de intenções para se emocionar com o amor perfeito que morre antes de ser e maduro suficiente pra entender que “tudo bem, isso foi ali e acabou”. Onde, em pleno 2017, está escrito ou gravado em vídeo que o tal rapazinho vai querer trocar alianças, vai sonhar em ser pedido em namoro, vai pensar em viagens românticas e exigir conhecer parentes que você nem se importa muito? Onde está escrito ou gravado em vídeo que após a pulsão noturna entre duas pessoas existe a obrigatoriedade de alteração no estado civil?

Por que você gostava dele te contando, repetidas vezes, quase todas as noites, sobre sentir angústia na virada do ano, de dor de barriga no Natal, de peixe estragado na Páscoa, de sentir um negócio que ninguém explica quando ninguém sente (e, sobretudo, de não sentir algo que alguém sente quando todo mundo sente) e agora, só porque abriu o botão da calça e o viu por outro ângulo, tudo se transformou num nível “um pouco demais pra sua vidinha de homem com total controle de tudo”? Vocês já conversaram sobre tantos assuntos profundos e tantas sinceridades extremas e tantas maldades e concordaram arrogâncias. Falaram no ouvido um do outro, dez segundos antes do beijo, dançando muito loucos a música argentina no Chupito, que estavam sentindo vertigem, mas que não poderiam parar. E agora vai correr desse rapazinho companheiro de vertigem?

Nem todo rapazinho que dorme com um homem bonito como você está em busca de um amor salvador. Nem todo rapazinho que tira você das suas expectativas organizadas está te esperando com uma corda no pescoço em um precipício. Eu tenho dezesseis médicos no Hospital Português que, toda vez que eu me desespero, seguram a minha cintura, mandam eu respirar e explicam que “ninguém morre de colite”. E me sinto maravilhosamente bem com esses dezesseis homens que me consolam em poucas horas. Médicos são amores passageiros, assim como você foi. Não sou um homem em busca de um amor pavimentado ou de alguém que me liberte de carências afetivas. Talvez um dia eu tenha sido, mas hoje não mais, e você sabe disso.

Do “amor prematuro que não foi adiante”, eu só queria a quebra do sigilo cósmico de saber que, em algum lugar do universo, embora a nossa amizade afinada acabasse, nos mantemos afinadíssimos com nossa amizade secreta e inabalável em algum lugar da atmosfera. O desejo sem imposição, a dedicação sem apego, a intensidade do suor dos corpos sem culpa, sem ressaca. É isso e nada mais. Dividir um yakisoba de camarão, falar mal das pessoas da faculdade e do trabalho, rir das histórias de família, talvez mais alguma coisa que surja de forma tão espontânea como sempre foi.

Assédio literário

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Igor Queiroz

Os meus amigos mais próximos me diziam: “Murilo, cê toma cuidado com esse cara”. Mas ele é um assassino, um psicopata, um serial killer? “Não. Ele é especialista em golpe baixo”. Mas o quê? “É. Ele é um safado. Ele conquista quem ele quer, enlouquece quem ele quer e você, uma hora, acaba cedendo. Não tem como fugir”. Mas assim são as pessoas, amigo. Não são? “Mas ele é mais. Ele é mais. Tô te falando”. Sério? “Sério. Um canalha!”. Tudo bem, tudo bem. Eu jamais iria pra cama com um homem desse tipo.

Ele marcou um jantar na casa dele e eu fui. Era a minha chance de mostrar pra ele que não, comigo não. Era a minha chance de acabar com essa palhaçada toda. Passei um creme caríssimo no corpo inteiro. Perfume na nuca e em partes estratégicas da roupa. Fui com uma camisa mais aberta e uma calça mais justa. Dei três mordidinhas nos meus lábios pra deixá-los mais vermelhos e, depois, molhei a boca com um batonzinho de manteiga de cacau pra causar o efeito “tô a perigo”. Um volume no cabelo com secador pra equilibrar. Quando ele der o primeiro sinal que quer sexo, eu caio fora.

Óbvio que ele queria sexo. Safado. Nenhum homem marca jantar em casa, às 22h, com outro cara que ele já sai há um mês e duas semanas só pra conversar. Não foi café na Livraria Cultura às cinco da tarde ou almoço na casa de um amigo de infância. Não foi um chá desses que a turma cult bebe no Cinema do Museu pra falar sobre projetos de arte. Foi um jantar, às 22h, na casa dele, com luz de vela e Johnny Hooker e Chico Buarque e vinho, com um cara que ele já sai há um mês e duas semanas.

Foi horrível. Ele dançou comigo juntinho, lá pra quase meia-noite, naquele momento em que todo rapaz reservado com a visão turva e a bexiga cheia de vinho espera ouvir “essa calça está me apertando, não quer tirar lá dentro do quarto?” e disse: “Seu livro, Murilo. Nossa, seu livro. Li em uma noite, reli em outra noite. Seu livro”. Mas o quê??????????? “É, seu livro. Meu Deus”.

Ele falou sobre Foucalt, Barthes, Boudelaire, realidade virtual e pós-verdade, mas eu foquei nos dois dedos do zíper aberto da calça dele. Depois, ele cruzou as pernas e o ar de homem feito e intelectual cordial pouco me importou. Eu queria mesmo era terminar de abrir aquele zíper, falar pra ele calar a boca e desligar a luz, porque eu queria sacanagem das boas. Mas ele, sério, me falou que o circuito contemporâneo do literário cada vez mais abre espaço pra youtuber, blogueiro, porque precisa vender livros. Ah, é? E eu preciso abrir todos os botões desta sua camisa e sair quebrando tudo até a gente se encaixar.

Quando ele colocou as mãos na minha coxa, e eu pensei que ele, finalmente, fosse mostrar o cara escroto e safado que ele é, ele me disse: “Meu pai é um pernambucano extraordinário que era pobre e foi pra São Paulo e virou empresário. Parece clichê, né? Mas eu adoraria que alguém escrevesse a história dele”. Achei de uma grosseria sem tamanho, pensei em levantar da poltrona e gritar que não estava lá pra isso, quem ele pensa que é? O que ele acha que eu sou? Mas naquele segundo, imobilizado pela vergonha, embriagado pela narrativa nordestina, só consegui me sentir fragilizado e com medo daquele golpe baixo feito por um homem gato e conquistador. Eu abandonei os ansiolíticos que me deixavam sem libido. Eu esperei o convite pra esse jantar por um mês e duas semanas. É muito cansativo ter que provar o tempo todo que sou um rapaz de vinte e seis anos com apetite sexual de adolescente quando os homens só conseguem ver crônicas e livros e colunas e autoficção e editoras e lançamentos. Olha essa camisa mostrando o sinalzinho do meu peito, querido. Eu vim sem cueca, você sabia? “Espera, vamos pensar como será o prefácio”. Sabia que eu sei fazer coisas incríveis com a boca? “Você acha que fica pronto até dezembro?” A boca? “Não, o livro”.

Estou farto. Bem que me avisaram pra eu tomar cuidado. Que ele enlouquece e não tem como fugir. Quase duas da manhã, né? Tentei chegar mais perto. A gente até se olha por uns minutos. A gente até roça um pouquinho a perna um no outro, a gente encosta a mão uma na outra. E entrelaça. E sente a quentura. E aperta um pouco sem machucar. E a gente se beija. Mas logo o macho branco opressor me deixou de lado: “só você, Murilo, pode escrever a história desse pernambucano pobre e determinado que foi ao Sudeste sem ter o que comer e deu uma reviravolta na vida”.

Deixa eu te contar a história de um rapaz soteropolitano e com a libido em alta que, depois de terminar um relatório imenso e passar por três intermináveis reuniões, correu pra Pelo Zero pra fazer uma depilação a laser e voltou pra casa às pressas e tomou um banho maravilhoso e caríssimo de óleo de rosa mosqueta. Todo esse esforço pra gente passar a noite sem nenhuma putaria, discutindo a saga de mais um nordestino que se dá bem na vida? Tentei mostrar que estava excitado. Mordi o lábio dele, fui limpar os cantos da boca dele com um guardanapo e olhei mais safado do que já olhei a minha vida inteira pra qualquer homem. Mas não teve jeito. Logo ele voltou a falar de livros e escritores e músicos e músicos que escrevem livros e do pai pernambucano. Ele não tá nem aí pra mim. Ele quer mesmo é falar sobre literatura. Ele não tá interessado na minha depilação, no meu óleo de rosa mosqueta. Ele tá mesmo é interessado nos meus textos. Olha que desgraça. O homem bonito, alto, inteligente, cheiroso e gente boa está interessado nos meus textos. “Ah, como você escreve bem”. Ah, se você soubesse o que eu faço bem. E ele riu. Todos eles sempre riem. E ele falou que eu era engraçado. Todos eles dizem isso. E usou o argumento que, infelizmente, mesmo sendo tão agressivo, nunca consegui negar a um homem safado: escreve esse livro, escreve bem gostoso, eu costumo pagar bem.

Sexo depressivo

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Hope Gangloff

Olho a cueca arrumadinha na gaveta e penso: “é sem compromisso”. Com ele, desde que conheci, ficou combinado que seria assim: nada mais do que sair de vez em quando, nada mais do que uma cerveja, nada mais do que sexo. Sem cobrança, sem entrega, sem romantismo. E a gente volta pra casa sem esperar nada do dia seguinte. Com mãos que não levam, com corpos que não esquentam.

Tomo banho, coloco uma roupa bonitinha e penso: “eu posso desistir”. Eu posso inventar uma reunião, inventar que esqueci de um jantar importante com meu chefe, inventar que preciso visitar uma amiga na maternidade. Eu posso criar histórias ou, pior ainda, sumir. Desligar o celular, tirar o telefone do gancho. Sumir. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Pego um táxi, olho as ruas em movimento. Casais felizes em sorveterias, restaurantes, passeios, livrarias, e tudo isso me faz engolir o choro. A cada volta e paradas em semáforos morre em mim mais e mais do rapaz deslumbrado com romance de telenovela. O carro anda mais um pouco e me digo: “eu posso voltar pra casa”. Eu posso colocar uma música do Phill Veras e dar uma volta no shopping. Eu posso, num impulso, ir ao cinema. Beber alguma coisa num bar, rodar numa exposição na Caixa Cultural. Tenho um pouco de medo da rua dele. E da árvore imensa que faz uma sombra muito escura em volta do prédio. Mas, por algum motivo que desconheço, decido ir.

Ele não vê sentido em beijo, perfume, creme de pele, depilação, cueca bonita. Ele não se interessa em criar um clima, em me levar pra um daqueles restaurantes com luzinhas coloridas no centro da cidade, em ser um pouco misterioso, em me fazer rir. Ele não interpreta minhas frases de interesse, meus abraços demorados. Ele não entende meu medo de ir, minha ânsia de querer ficar. Não à toa, “não quero ir embora”, pra ele, significa “a gente pode prolongar essa noite de sexo”. Não à toa, “meu corpo está quente”, pra ele, significa “podemos avançar as preliminares”. Ele acha muito importante não ir além da superfície e por isso diz com todas as letras e partes do corpo dele, com a boca enorme de palavras, que não: não crie.

Ele não entende e passa a língua no meu pescoço e dá beijinhos nos meus ombros e pequenas mordidas no biquinho do meu peito e lambuza minhas costas e a minha barriga e a cintura que me faz contorcer de cócegas e segue. Ele continua como um predador sem culpa por ter capturado a caça tão fragilizada e dependente, como um faminto feliz pelo delivery que chegou depois de um dia exausto de trabalho.

A mão dele toca a minha nuca e eu penso que isso, de alguma forma, quer dizer proteção. A voz dele alcança meus ouvidos e eu penso que isso, de alguma forma, é amor. Mas é só sacanagem. É só tentativa de escapar do tédio. São apenas palavras ditas num surto de tesão, numa descarga de energia, num segundo passageiro que nunca se prolonga, que nunca se completa. E assim ele continua. E assim eu continuo. Uma hora e meia, talvez menos. A cada segundo perco mais e mais e mais de uma coisa que eu não sei o que é. A gente termina e cada um vira pra um canto da cama. Mais uma camisinha, mais um gemido, mais um suor, mais um banho.

Mas se eu não sinto frio na barriga, fiquei me perguntando por que eu precisava aguentar aquilo, fiquei me perguntando o que eu tava fazendo ali. Se as horas se arrastavam, se eu implorava pra Deus pra que aquilo acabasse, se eu tava voltado pra minha própria dor, se eu não me sentia à vontade, se eu não me importava mais de não estar vivo com ele, se meu coração não se emocionava mais, se relação descartável não me interessa, o que é que eu tava fazendo ali? Sexo sem estar apaixonado eu tenho nojo.

Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme abraçado a um daqueles travesseiros grandões espalhados pela cama pra suprir faltas, achando que transar é suficiente pra suprir carência. Mais uma vez e ele, a essa altura, dorme demais como sempre e já deve ter me esquecido, mesmo lembrando de mim de vez em quando, nessas horas que ele tá de saco cheio dos trezentos contatos que ele já levou pra cama.

Mais uma vez e eu volto pra casa, com a coluna curvada, e vejo tudo cinza. Me sentindo feio, sujo, exposto, absurdamente sozinho. Mas dessa vez foi diferente de todas as outras vezes. Dessa vez fiquei pensando nesses desgastes, nessas entregas sem reciprocidade, nessas dependências descabidas. Dessa vez chorei ininterruptamente por meia hora no chão do banheiro. Foi o choro mais alto que chorei na vida. A água fria pra me fazer acordar. A água em jatos fortes tentando limpar o que não era sujeira, o sabão escorrendo no ralo tentando levar o que eu não conseguia esquecer.

Fechei a porta e o quarto escuro me trazia mais dor. Fui inundado por um vazio profundo, invencível, inexplicável. Me encolhi no edredom sentindo um frio que não existia, me perguntando por que eu fazia aquilo comigo. Pensei no homem de verdade que eu sempre esperei e que nunca aparecia. Depois, como um mantra, apertei o travesseiro e me disse: vai chegar, vai chegar, vai chegar, vai chegar. Dois minutos depois, dormi meio soluçando.

No dia seguinte, mais vazio (ou seria mais cheio?), fui devolvido às ruas. Olhei as pessoas, no táxi em movimento, e percebi que não existia beleza em nenhuma delas. Não existe amor em lugar algum, em porra de pessoa alguma. E eu mais uma vez me perguntei como as pessoas conseguem viver no meio de intenções e futuros mortos. Por que as pessoas se relacionam com total superficialidade? Como é que acorda no dia seguinte sem sentir dor? Como é que se doa sem se entregar de corpo e alma? Nunca soube.

Tenho vontade de ligar pra ele — na esperança boba de que o coração dele tão cheio de desimportâncias saia do automático e me ame um pouquinho — e perguntar: você não gosta nem um tiquinho de mim? Nem sequer um tiquinho de nada? Mas a resposta parece óbvia. Digitei “Céu” no Spotify. Desci as escadas do jornal. A vida continua.

 

 

Você jamais faria sexo por Skype

Texto: Murilo Melo | Ilustração: Eduardo Bastos

Sábado, duas da manhã. Depois que ele voltou de um encontro com amigos no Chupito. Depois que eu voltei de um encontro com amigos na casa de André. E a gente tá lá: online no Skype. Talvez ele esteja assistindo um filme de Hitchcock ou de Tarantino em outra tela. Ou lendo alguma coisa sobre inovações mobile, pré-sal, pau-brasil. Ou vendo um pornô. Fico olhando a foto dele ao lado esquerdo da tela. Como ele é bonito. Aquela foto com pose heroica, esquiando, que nunca muda. Aquele sorriso grande congelado.

A gente nunca combinou dia e nem horário. Mas a gente sempre se encontra. E eu sempre puxo assunto quando ele não puxa assunto comigo. E ele dizendo o quanto queria sair comigo de novo, “mas porra, tá foda”. E eu dizendo o quanto queria que ele realmente quisesse sair comigo de novo. Mas eu sei, tá foda. E ele me dizendo que bebeu um pouco no Chupito. E eu dizendo pra ele que bebi um pouco na casa de André. E ele focava a camerazinha e me mostrava: Olha, chazinho de hortelã pra me redimir do álcool. E eu focava a camerazinha e mostrava: Olha como eu fico feinho dentro de casa. Vou colocar outro chazinho no micro-ondas, tá? E ele levantava pra ir à cozinha e eu via que ele estava só com cueca. Os ombros largos, o peitoral cabeludo, o abdômen mais inchado — coisa de quem passa doze horas trabalhando em frente ao computador.

E ele voltava desfilando com a cueca branca. E eu me sentia meio incomodado, meio excitado, mas eu me dizia a cada calor: “Sem chance, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele. Sério, eu fico estranho com esse pijaminha? E ele concordava rindo. Aquilo era basicamente um encontro e eu não poderia estar e nem me sentir ridículo. E eu estava me sentindo ridículo. Eu jamais abriria a porta pra receber ele em casa com esse pijaminha. Eu jamais me encontraria com ele com esse pijaminha. Lá vou eu colocar uma camisa bonita que comprei na Osklen semana passada. Uma coisa que não me fazia sentir nem velho nem adolescente. Enquanto vestia, eu me falava: “Nem pensar, eu jamais faria sexo por Skype”. Nem ele.

E ele ascendia um cigarrinho de maconha e soltava os cabelos. E tirava uma mecha de cabelo que insistia em cair nos olhos. E a mecha caía de novo. E então começava a briga dele com o cabelo. Um tira e cai. E eu colocava a perna em cima da escrivaninha. Abria a janela. Levantava a persiana. Meu Deus, como está quente aqui!!! E ele me conta que tem um fetiche. E eu mudo de assunto falando que Activia não regula nada no meu estômago. E ele não se importa com a minha minha flora intestinal e volta a falar do fetiche. E dá um trago no cigarrinho de maconha. E mexe de novo na mecha do cabelo que cai nos olhos. Que homem lindo.

E então ele me conta que encontrou aquele ator que ganhou o prêmio Braskem de Teatro e que dizem que é bissexual. E que ele tem fetiche em ir pra cama com dois caras, principalmente um bissexual. E eu comento que nunca transei com dois rapazes, mas, com ele e com o ator do prêmio Braskem… Nossa, super transaria. E ele me diz que também nunca quis saber de dois ao mesmo tempo. Sei lá, ele gosta de exclusividade, de fazer bem feito. Mas que comigo e com o ator que ganhou o prêmio Brasken… Nossa, até que não seria má ideia.

E ele pega no pau, pensa que eu não vejo. Será que ele tá excitado? E eu, nossa, eu tô com muito calor. Ele não vai ver se eu tirar essa bermuda jeans que sufoca as minhas coxas. Não tenho culpa dos setenta e oito graus de Salvador. A camerazinha só me pega dos ombros pra cima. Logo, se eu tirar a bermuda, ele não vai ver! Mas eu estou com a camiseta que comprei semana passada e o short do pijaminha. Não existe bermuda. Caramba, então por que essa vontade de tirar a bermuda? Não sei de nada, só sei que ele é um homem bonito, interessante, inteligente, bem-humorado, ganha bem, charmoso, pegador. Não precisa trepar com outro homem pelo Skype. E eu, bom, eu tenho aí uns três ou quatro amiguinhos que me visitam num desses dias mais calorentos. Jamais na vida precisei trepar com uma camerazinha, com a imaginação e com umas frases seguidas por emojis felizes, surpresos e amarelos.

Ele me mostra um livro de Marília Garcia. Eu mostro um livro de Paulo Mendes Campos. Nossa conversa literária não dura dois minutos: ele quer putaria. E ele quer voltar ao assunto do sexo a três, com o ator do prêmio Braskem. E eu comento, assim, na brincadeira, juro, que eu queria experimentar o tal ator, mas só se ele estivesse comigo também. E ele para de falar comigo alguns segundos. E acende outro cigarrinho de maconha. E bebe mais um gole do chazinho de hortelã. E mexe no cabelo. E então ele volta e fala que adoraria me ver, assim, na brincadeira, ele jura, experimentando o tal ator.

E eu começo a achar que essa conversa tá indo longe demais, sabe? Caramba, sexo pela internet é tão MSN. É tão adolescente. É tão 2006. É tão internet discada. É coisa desses caras meio doentes, não? Desses caras preguiçosos que preferem bater uma rapidinha do que levar alguém pro motel. E desses garotos feios e tímidos. É coisa de gente que não tem capacidade pra conquistar ao vivo. Ou de nerd com espinha que joga vídeo-game o dia inteiro, sei lá. E ele é um puta publicitário. E ele é um puta escritor. E ele é um puta roteirista. Não é nerd, não é feio, não é tímido, não é preguiçoso. E eu sou maior legal. E dei uma melhorada nos últimos anos.

E ele vira o último gole do chazinho e coloca a xícara na mesa. E lambe os lábios. E passa, pela trigésima vez, a mão pelos cabelos. E me manda um beijo. E eu enlouqueço naqueles cabelos e naquela boca e naquela língua. Mas já são quase quatro da manhã e a gente tá meio bêbado e ele mora em Vilas. A coisa que eu mais queria era estar lá com ele, bebendo chazinho, fumando com ele, passando a mão naqueles cabelos, mordendo aquela boca. E então, imediatamente sem pensar, ele escreve “enquanto você beija ele, eu beijo o seu corpo inteiro”. E eu, imediatamente sem pensar, respondo “enquanto beijo ele, é o seu gosto que eu sinto”. Depois disso, a coisa piora muito. Escrivaninha, sofá, corredor, armário da cozinha, elevador, piscina. A gente transa loucamente em todos os lugares possíveis. Eu, ele e o ator do prêmio Braskem.

Eu, que jamais pensei em fazer sexo virtual e muito menos a três, quando vi estava fazendo os dois ao mesmo tempo. Lembrei da série Looking, depois lembrei da série Queer as Folk. Os personagens que faziam isso eram descolados demais pro meu gosto. Mas tudo bem. Agora eu estava na pia da área de serviço, ou melhor, em cima da máquina de lavar. Não era a melhor hora pra pensar em série. No fim das contas ele brochou. Ou melhor: a imagem travou e ficou lenta, o que dá no mesmo que brochar. E no dia seguinte, ele fez o que todo homem sempre faz comigo: sumiu. Não apareceu no Skype, não respondeu mensagem, não atendeu o telefone. Ele simplesmente sumiu. É impressionante como até a maneira de fazer sexo mudou, mas a dificuldade em entender relações continua igual desde o tempo das cavernas.

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