Ter contatinhos é uma coisa bem triste

Acabo de chegar em casa com sacolas imensas de roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e um cachecol azul marinho. Se meu armário já não fecha mais com tantas roupas, sapatos, perfumes, xampus, cremes e mais um cachecol, por que comprei tudo isso? Isabela, minha psicóloga, disse que quando estou nesses dias de enfiar mil coisas dentro da sacola e não saber o motivo, é uma maneira de suprir carências afetivas. Empilho as sacolas no canto do quarto, pego uma cervejinha na geladeira e coloco meu smartphone na caixa de som porque preciso ouvir The XX. A banda é meu desespero e diz trechos tão dolorosamente bonitos em todas as músicas e me acalma quando tudo parece impossível. Tomo banho, coloco meu pijama de bolinha, me esparramo na cama. Preciso comer alguma coisa urgente porque estou com hipoglicemia.

Abro o iFood e peço um yakisoba pra dois, só que apenas eu vou comer. Coloco mais um episódio da última temporada de Bates Motel. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura volta de mais um dia de trabalho e já não aguenta mais um dia de trabalho. Ele me manda um áudio de dois minutos. Explica que precisa muito me ver, “mas a minha vida é uma loucura, cê sabe, né?”. E me manda uma foto dele, só de cueca, com um livro de economia no peito, deitado com um daqueles cachorros grandões que ele tem. “Semana que vem. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas há quase um mês a gente tenta se ver e sempre acontece uma falta. Penso na palavra “falta” e isso de alguma forma me deixa triste. Lembro quando a gente se viu pela primeira vez na Virada Cultural de arquitetura. Eu desci as escadas meio bêbado e lá estava ele, lindo, querendo parecer jovem descolado com uma camiseta brega manchada de pasta de dente. Eu caí da escada, todo mundo riu, e demorei horas pra me levantar, louco pra descobrir, ao menos, a marca da pasta de dente que ele usava.

Ouço algúem falar no interfone: “a entrega chegou”. Como todo o yakisoba e continuo com fome. Abro o iFood e peço um hambúrguer gourmet. Daqueles com carnes triplicadas e um quilo de alface e queijos e molhos e tudo. Pego outra cervejinha na geladeira. Coloco mais um episódio de Please Like Me. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já foi dormir chapado de tanta maconha. De repente, ele fica online e me manda uma mensagem dizendo que “a coluna tá foda”, que eu dou “um tesão danado” a ele, mas que com a coluna desse jeito nem rola. Que a gente precisa se ver e finalmente transar. Mas que “tá foda”. E me manda uma foto dele, só de cueca, cercado de livros de Freud, Nietzsche, Sartre e bitucas de maconha. “Vai rolar, fique sussa. Ninquém mais do que eu quer isso. Semana que vem sem falta, Murilo”. Mas desde o ano passado ele fala isso. Desde o ano passado a gente combina e desmarca e combina de novo. Como todo o hamburguer enquanto converso com ele. Ele me fala sobre ‘sentir saudades de quem você era’ e isso me deixa um pouco triste. Lembro quando ele puxou conversa comigo, no terraço do Lalá, e me perguntou se iria pegar mal, nos primeiros trinta minutos de conversa, pegar meu telefone. Seu papo galanteador honesto me excitou de uma forma tão bonita que eu não conseguia olhar para os lados senão para os seus olhos.

Abro o iFood e peço uma pizza de gorgonzola tamanho família. Pego mais uma cervejinha na geladeira. Procuro álbuns e mais álbuns no Spotify. Talvez seja uma boa ouvir uns blues doloridos. Mando uma mensagem pra ele, que a essa altura já deixou o namorado em casa e voltou no carro grandão se sentindo vazio. Pego outra cervejinha na geladeira. Ele manda um áudio acompanhado de um emoji com carinha triste. “Não aguento mais meu relacionamento, cê entende?”. Eu explico pra ele que eu me sentiria muito mal saindo e indo pra cama com ele sabendo que tem namorado. Ele fala que ele “não quer isso, mas que ele quer”. “Quer vir pra cá pra casa agora?”. “Vem pra minha?”. “Mas cê mora um pouco longe”. “E eu tenho medo de ir ao Centro a essa hora”. Cê não prefere um motel no meio do caminho dos dois?”. “Eu prefiro que a gente deixe pra semana que vem”. Sei. Desde janeiro ele me promete terminar com o namorado e “finalmente acontecer alguma coisa”. Lembro quando ele, na mesa com o namorado, não parava de me olhar no rodízio que fui com os meus amigos. Ele me seguiu e na fila do banheiro fingiu se esbarrar sem querer e me pediu desculpas. Foi o sorriso mais safado e bonito que eu vi até hoje.

Faço mais um pedido no iFood, coloco mais música, mais episódios de séries, faço mais compras pela internet, bebo mais três, cinco, quinze cervejinhas, falo com mais trinta e dois contatos. Ninguém pode hoje. Ninguém pode agora. Só semana que vem. E então eu lembro dele, o cara que se ainda existisse me tirava desses consumos que não levam a nada. O cara que se não fosse embora, me colocaria de conchinha num abraço gigantesco, só pra me trazer de volta a sensação de que o resto do mundo não faz sentido. Mas eu não tenho mais esse cara. Você não acha triste ter uma lista de contatinhos quando você já conheceu o cara mais incrível do universo, mas esse cara surtou e sumiu? Me encolho na cama, em posição fetal, como todas as noites, e choro de novo. Eu estou cada vez mais louco, gordo, bêbado, triste, carente, falido, deprimido, cheio de contatos, mas sempre sozinho.